Decálogo da comunicação entre pais e filhos adolescentes


1. É preciso sempre observar antes de falar
A linguagem não verbal exprime sempre as emoções e os sentimentos. O olhar, as expressões faciais, a força das mãos, a procura ou o afastamento do contacto físico e a aparência (roupa, cuidado pessoal, higiene, etc.) falam por si.
É preciso fazê-lo sempre de forma natural e espontânea, o que significa que estes momentos não têm de ser procurados, mas encontrados.
Observar não é descobrir, nem é aconselhável deduzir uma resposta sem comprovar o que se observou.
E é preciso observar sempre com afeto, evitando expressar emoções negativas, como temor ou desconfiança.


Por Dr. Jordi Sasot, psiquiatra infanto-juvenil, coordenador da Unidade de Paidopsiquiatria, e Rosa Mª Ibáñez, psicóloga infantil na Unidade de Paidopsiquiatría, em Ausonia

2. Ouvir permite-nos compreender
Como seres humanos temos tendência para falar e não nos apercebemos de que temos dois ouvidos e apenas uma boca. Por algum motivo será!
Ouvir permite-nos conhecer o grau de empatia dos nossos filhos adolescentes, ou seja, permite-nos saber qual é o momento mais adequado para falar com eles.
O simples facto de ouvir, ouvir com interesse e atenção, permite ao adolescente cair em si. Não deixamos de ser um espelho no qual se refletem os seus pensamentos.
Utilizar os silêncios facilita a reflexão, sempre com prudência e evitando os instantes de tensão.
Ouvir nem sempre requer respostas verbais, podemos utilizar a linguagem não verbal para comunicar afeto e para facilitar uma melhor expressão das emoções do adolescente.

3. Pensar é sermos nós próprios
Pensar significa analisar, analisar sem barreiras as ideias e os pensamentos dos nossos filhos adolescentes.
Hoje em dia, pensar é, no fundo, lutar contra o mimetismo que nos condiciona a fazer aquilo que os outros fazem, a fazer aquilo que nos aconselham, quer livros quer especialistas, sem filtrar esta cultura multimédia através da nossa experiência.
Para educar, os pais têm ser eles próprios. Ficariam admirados se soubessem quantas pessoas opinam, mesmo academicamente, sem serem pais ou sem terem filhos.
Os pais têm de ser eles próprios, porque a riqueza de que os seus filhos andam à procura está na sua experiência.

4. A comunicação é um fator crucial para a educação
A comunicação é mais fácil com perguntas abertas que lhes permitam alongarem-se nas respostas: “Conta-me mais sobre isto”, “Como te sentiste?”.
Ir resumindo os pontos sobre os quais se fala ajuda a focalizar os temas e a formar uma opinião.
É bom esclarecer afirmações ou expressões que ficam no ar e que, sem explicação, dão lugar à dúvida ou à confusão.
Ao abordar temas complexos podemos usar afirmações que promovam a discussão. Em casos ainda mais embaraçosos, podemos utilizar exemplos de terceiras pessoas para permitir a projeção de ideias. Assim, por exemplo: “Disseram-me que muitos jovens não usam preservativo. O que é que tu pensas disto?".
Também é útil usar respostas que denotem um sentimento de compreensão dos pais em relação aos problemas dos filhos adolescentes, por exemplo: “Imagino que te tenhas sentido mal, ainda por cima sem poderes contar nada a ninguém...".
Na educação o objetivo é sempre comunicar, não só informar. Com os adolescentes é fácil cair no erro de nos limitarmos a transmitir informação, que é sempre indispensável, mas muitas vezes insuficiente. Para fazer isto é preciso encontrar os momentos e os lugares certos. Às vezes, é mais fácil comunicar com os adolescentes em ambientes não familiares, em terrenos neutros e independentes. E os momentos não são fáceis de encontrar, mas existem e é sempre melhor partilhá-los. O interesse tem de ser mútuo, tem de existir comunicação, a aprendizagem tem de ser sempre comum.

5. Falar é fácil nos momentos oportunos
A informação que os adolescentes atuais possuem é muito completa, mas fica-se geralmente pelas formas, o que faz com que as dúvidas e as contradições estejam sempre presentes. Falar corresponde fundamentalmente aos pais, não à escola, que não deixa de ter um papel, mas secundário. Os pais não se podem limitar a informar, a sua função fundamental é formar.
Assim, por exemplo, na educação sexual falar é incompatível com delegar, quem se tem de encarregar da formação dos jovens são os pais, não a escola. É preciso falar sobre anatomia sexual desde a fase pré-escolar e sobre fisiologia antes de iniciar a adolescência, isto é, antes da puberdade.
Os adolescentes agradecem terem sido informados desde a infância. Precisam de conhecer todas as suas alterações antes de elas ocorrerem e, claro está, o porquê de tudo.
Embora aparentemente seja sempre melhor falar quando nos pedem, porque o interesse é maior, nem sempre é assim. A vergonha também está presente, e por conseguinte é frequente as primeiras perguntas não chegarem.
Para os pais isto nunca pode servir de justificação, porque o seu dever é abordar estes temas. Assim, por exemplo, muitos pais têm dificuldade em falar em termos diretos e pessoais sobre sexo com os filhos, o que acaba por levar muitos adolescentes a interpretar o silêncio dos pais como desaprovação.
Neste sentido, não só é importante falar sobre sexualidade para que a nossa filha saiba previamente o que é a menstruação e as alterações que introduz na sua saúde física e mental, mas falar sobre sexualidade no dia a dia, como um aspeto fundamental do desenvolvimento do ser humano.

6. É preciso saber apoiar
Mais cedo ou mais tarde, muitos pais pensam em relação aos filhos: “Às vezes gostava de virar costas e deixá-los, para que se desenrascassem sozinhos".
Todos nós temos problemas quotidianos em que precisamos de apoio pessoal. Há quem pense que é melhor guardar os problemas e resolvê-los sem a ajuda de ninguém. Outros fazem uma fuga para a frente e ignoram-nos. Para a saúde emocional é muito melhor partilhar os problemas com outras pessoas que nos possam dar o seu apoio, pessoas com capacidade para ouvir com compreensão. Ao partilharmos as emoções é mais fácil avançar e encontrar soluções para os problemas.
É fundamental que os pais e os adolescentes identifiquem os seus círculos de apoio, isto é, o ambiente pessoal que os pode ajudar a superarem as suas dificuldades. Não esqueçamos que muitos adolescentes se sentem isolados por não saberem quem os pode ajudar.
Os pais não podem esperar ser o principal ponto de apoio dos filhos, mas é importante que estes saibam que, se quiserem, o podem ser. Muitas vezes, o melhor apoio que se pode dar a um adolescente é incentivá-lo a tomar as rédeas das situações, mas sabendo sempre que, se precisar dos pais, os poderá encontrar.

7. Tolerar permite amadurecer
Nós aprendemos, fundamentalmente, com os nossos próprios erros.
No desenvolvimento do ser humano há uma frase que adquire um valor extraordinário durante a adolescência: “não há amadurecimento sem crises”.
Os adolescentes devem escolher por si próprios as crenças, os valores e as pautas de conduta que seguirão nas suas vidas. Nestas escolhas, os amigos costumam ser a influência principal. É frequente os adolescentes atravessarem momentos em que atiram “pela janela” todas as opiniões e valores dos pais.
Tudo isto provoca aos pais uma grande inquietação, que pode facilmente desajustar a dinâmica familiar.
Nestes momentos, é preciso saber estabelecer uma distância que permita a reflexão. Uma distância controlada que permita o amadurecimento.
Aceitar as primeiras experiências dos nossos filhos enriquece sempre as relações familiares. A tolerância bem entendida gera confiança mútua, imprescindível na formação humana.

8. Limitar é impor algumas regras de jogo
Experimentar e correr riscos são partes fundamentais do desenvolvimento do adolescente. Este precisa de descobrir do que gosta verdadeiramente e quem realmente é.
Os comportamentos de risco na atividade sexual do adolescente podem conduzi-lo a situações com consequências graves para o seu futuro: a gravidez não desejada e as doenças sexualmente transmissíveis.
Os adolescentes precisam de que lhes sejam estabelecidos limites. Mesmo que tenham de ser estabelecidos por negociação e mútuo acordo, são necessários. Não esqueçamos que os adolescentes não gostam de pais permissivos, que não lhes estabelecem qualquer limite, nem de pais autoritários, que impõem limites rígidos sem apresentar explicações.

9. As regras do jogo na adolescência
Lembre-se que correr riscos é uma parte importante do desenvolvimento adolescente, embora, por vezes, isso a preocupe ou a atemorize.
Assegure-se de que toda a família está bem informada.
Respeita o modelo que estabeleceu, sendo consequente com as suas decisões.
Discuta os riscos procurando alcançar um acordo sobre aquilo que o adolescente pode experimentar.
Negoceie e ceda, se for necessário.
E não se esqueça que limitar não traumatiza; pelo contrário, educa, mais concretamente num dos segredos da vida: desenvolver a capacidade de frustração.

10. Partilhar a intimidade é aproximar-se
Ao falarmos com a nossa filha ou filho adolescente, especialmente no âmbito da sexualidade, é preciso saber utilizar uma delicadeza especial. Não esqueçamos que a sua atividade sexual começa já a fazer parte do presente, e não do futuro.
E por nisso necessita de um espaço de respeito e privacidade, que é uma parte essencial do processo de consolidação da sua identidade. Infelizmente, o facto de os pais tentarem descobrir as suas opiniões e entender os seus valores é muitas vezes interpretado como uma intromissão na sua vida.
Partilhar a intimidade requer reciprocidade nos momentos oportunos. Que melhor oportunidade para fortalecer a relação pais-filhos do que a possibilidade de falar abertamente sobre as nossas próprias vivências? Partilhar com os nossos filhos as primeiras experiências ou os primeiros desejos e emoções permite alcançar um nível de empatia que realmente estabelece uma relação e educa.
Conseguir partilhar a intimidade na educação sexual é uma das melhores formas de consolidar as relações pessoais entre pais e filhos.

Não é fácil, mas o esforço vale sempre a pena.

Comentários