12 pares de virtudes necessárias para quem deseja «tornar fecundo» o seu serviço à Igreja, propostos por Papa Francisco no discurso à Curia
No ano passado. o Papa Francisco diagnosticou as 15 doenças da Igreja, este ano, anunciou os antibióticos: 12 pares de virtudes:
1. Missionariedade e pastoralidade. “A missionaridade é o que faz, e mostra, a cúria fértil e fecunda; é a prova da eficácia, da eficiência e da autenticidade do nosso obrar”, explica o Santo Padre. “A fé é um dom, mas a medida da nossa fé se prova também no quanto somos capaz de comunica-la”. A pastoralidade, quando “sadia”, é, pelo contrário, “uma virtude indispensável especialmente para cada sacerdote”. Ou seja, “o compromisso diário de seguir o Bom Pastor, que cuida das suas ovelhas e dá a sua vida para salvar a vida dos demais”. “Sem estas duas asas nunca poderemos voar e nem sequer alcançar a bem-aventurança do ‘servo fiel’, diz o Papa.
2. Idoneidade e sagacidade. Portanto, “o esforço pessoal para adquirir os requisitos necessários para exercer da melhor forma possível as próprias tarefas e atividades, com inteligência e intuição”. Duas virtudes que são, portanto, “contra as indicações e os subornos”.
3. Espiritualidade e humanidade. A espiritualidade é a “espinha dorsal de qualquer serviço na Igreja e na vida cristã”, destaca o Papa Bergoglio, e “é o que alimenta todo o nosso obrar, o sustenta e o protege da fraqueza humana e das tentações de cada dia”. A humanidade é “o que nos faz diferentes das máquinas e dos robôs que não sentem e não se comovem”. “Quando nos é difícil chorar seriamente ou rir apaixonadamente, então, começou a nossa queda e nosso processo de transformação de ‘homens’ para outra coisa”, adverte, exortando a “mostrar ternura e familiaridade e cortesia com todos”.
4. Exemplo e fidelidade. Aqui quem fala é o beato Paulo VI com a sua advertência à cúria de não esquecer “a vocação à exemplaridade”. Exemplaridade – acrescenta Francisco – “para evitar os escândalos que ferem as almas e ameaçam a credibilidade do nosso testemunho”. Fidelidade, portanto, “à nossa consagração” recordando sempre as palavras de Cristo: “Quem escandalizar um destes pequeninos que crêem em mim, é melhor que lhe seja colocada uma pedra de moinho no pescoço e que seja jogado no fundo do mar”.
5. Racionalidade e amabilidade. Uma, a racionalidade, "serve para evitar excessos emocionais"; a outra, a amabilidade, “para evitar os excessos da burocracia e das programações e planificações”. Portanto, duas “habilidades necessárias para o equilíbrio da personalidade”. “Todo excesso – afirma, de fato, o Bispo de Roma – é sinal de algum desequilíbrio".
6. inocuidade e determinação. A inocuidade “nos faz cautelosos nos juízos, capazes de abster-nos de ações impulsivas e precipitadas. É a capacidade de trazer para fora o melhor de nós mesmos, dos outros e das situações agindo com atenção e compreensão. É o fazer aos outros o que gostaria que fosse feito contigo”, destaca Bergoglio. “A determinação é o agir com vontade determinada, com visão clara e com obediência a Deus, e só pela lei suprema da salus animarum”.
7. Caridade e verdade. Duas virtudes inseparáveis para a existência cristã, a tal ponto que - diz o Papa - "a caridade sem verdade se torna bonachismo destrutivo e a verdade sem caridade se transforma em ‘judiciarismo’ cego”.
8. Honestidade e maturidade. Sinónimos de retidão, coerência e sinceridade absoluta "connosco mesmos e com Deus”. “Quem é honesto não atua corretamente apenas sob o olhar do supervisor ou do superior; o honesto não tem medo de ser surpreendido, porque nunca engana quem confia nele”, explica o Papa Francisco. O honesto – acrescenta – “nunca se sente dono das pessoas ou das coisas que lhe são confiadas para administrar”, como faz o “servo mau”. A honestidade é, portanto, “a base na qual se apoiam todas as qualidades”. Maturidade é, pelo contrário, “a busca da harmonia entre as nossas capacidades físicas, psíquicas e espirituais”. A meta, ou seja, “de um processo de desenvolvimento que não termina nunca e que não depende da idade que temos”.
9. Respeito e humildade. A primeira é a virtude "das almas nobres e delicadas”; das pessoas “que procuram sempre ter devida consideração pelos outros, pelo próprio papel, pelos superiores e subordinados, pelas práticas, pelos papéis, pelo segredo e pela reserva” e que sabem “ouvir atentamente e falar educadamente”. A humildade, por outro lado, é “virtude dos santos”, daqueles que são conscientes de “não serem nada e de não poderem fazer nada sem a graça de Deus”.
10. ‘Dadivoso’ e atento. “Dadivosidade, eu tenho o vício dos neologisimos, né!”, brinca o Papa de improviso. Depois adverte: “É inútil abrir todas as Portas Santas de todas as basílicas do mundo se a porta do nosso coração está fechada ao amor, se as nossas mãos estão fechadas ao doar, se as nossas casas estão fechadas à hospedagem e se as nossas igrejas estão fechadas à acolhida”. É necessário, portanto, “cuidar dos detalhes” e “oferecer o melhor de nós”, não abaixando nunca a guarda “dos nossos vícios e faltas”.
11. Impavidez e prontidão. "Ser impávidos significa não deixar-se amedrontar pelas dificuldades”, diz Francisco; significa “agir com audácia e determinação e sem mediocridade”, “dar o primeiro passo em demora”, mas fazê-lo “com liberdade e agilidade sem apegar-se às coisas materiais que passam”. Em outras palavras “estar sempre a caminho, sem nunca sobrecarregar-se acumulando coisas desnecessárias e fechando-se nos próprios projetos, e sem deixar-se dominar pela ambição”.
12. Fiabilidade e sobriedade. Fiabilidade – destaca Bergoglio – “é aquele que sabe manter os compromissos com seriedade e confiabilidade quando está sendo observado, mas principalmente quando está só; é aquele que irradia, ao seu redor, um senso de tranquilidade porque não trai nunca a confiança que lhe foi dada”. Last but not least a sobriedade “é a capacidade de renunciar ao supérfluo e de resistir à lógica consumista dominante”. Neste sentido, sobriedade é sinónimo de “prudência, simplicidade, essencialidade, equilíbrio e temperança”, explica o Santo Padre. “A sobriedade é um estilo de vida que indica o primado do outro como princípio hierárquico e expressa a existência como cuidado e serviço aos outros", acrescenta. O sóbrio é uma “pessoa coerente e essencial em tudo, porque sabe reduzir, recuperar, reciclar, reparar e viver com o sentido da proporção”.
Doze remédios, portanto, elaborados pelo Papa para evidenciar que “a misericórdia não é um sentimento passageiro”, mas “a escolha de quem quer ter os sentimentos do Coração de Jesus”. Portanto, que seja a misericórdia que “guie os nossos passos, inspire as nossas reformas, ilumine as nossas decisões”, deseja o pontífice. “Que ela seja a coluna vertebral do nosso obrar. Que ela nos ensine quando devemos seguir adiante e quando devemos dar um passo atrás”.
A terminar, o papa citou uma oração dedicada ao Beato Oscar Romero redigida por um cardeal dos EUA, John Dearden:
«De vez em quando ajuda-nos recuar um passo e ver de longe.
O Reino não está apenas para além dos nossos esforços,
está também para além das nossas visões.
Na nossa vida, conseguimos cumprir apenas uma pequena parte
daquele maravilhoso empreendimento que é a obra de Deus.
Nada daquilo que fazemos está completo.
Isto quer dizer que o Reino está mais além de nós mesmos.
Nenhuma afirmação diz tudo o que se pode dizer.
Nenhuma oração exprime completamente a fé.
Nenhum credo contém a perfeição.
Nenhuma visita pastoral traz consigo todas as soluções.
Nenhum programa cumpre plenamente a missão da Igreja.
Nenhuma meta ou objetivo atinge a dimensão completa.
Disto se trata:
plantamos sementes que um dia nascerão.
Regamos sementes já plantadas,
sabendo que outros as guardarão.
Pomos as bases de algo que se desenvolverá.
Pomos o fermento que multiplicará as nossas capacidades.
Não podemos fazer tudo,
mas dá uma sensação de libertação iniciá-lo.
Dá-nos a força de fazer qualquer coisa e fazê-la bem.
Pode ficar incompleto, mas é um início, o passo dum caminho.
Uma oportunidade para que a graça de Deus entre
e faça o resto.
Pode acontecer que nunca vejamos a sua perfeição,
mas esta é a diferença entre o mestre de obras e o trabalhador.
Somos trabalhadores, não mestres de obras,
servidores, não messias.
Somos profetas de um futuro que não nos pertence.»

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