Fazendo eco da formação dada por P.e Anselmo Borges no Encontro Nacional da Fraternitas, em Fátima, em outubro passado
Cinquenta elementos, a maioria membros da
Fraternitas-Movimento (padres casados e suas esposas), reuniram-se em Fátima,
na Casa de Retiros de Nª Senhora das Dores, nos dias 9, 10 e 11 de outubro,
para uma formação sobre o tema: "Igreja - Jesus – e Deus".
A direção da Fraternitas, no chamamento dirigido aos
associados e outras pessoas para esta formação, ao fazê-lo, assumiu um estado
de alma, prenúncio do êxito da iniciativa, que transcrevo: "A Fraternitas
Movimento tem a alegria (o sublinhado é nosso) de a/o convidar a participar
nesta formação, orientada pelo Padre Dr. Anselmo Borges (Universidade de
Coimbra)".
Atentos à expressão dos participantes neste
"Encontro-Confronto", era visível, desde o início, a alegre
expectativa, perante os temas em debate, sentimento reforçado pela memória que
a maioria, senão todos, possuíamos das capacidades do "formador"
sobre o objeto da formação.
A expectativa de todos era tanto mais intensa quanto os
temas em confronto: "Igreja – Jesus – e Deus", foram e são os
conteúdos de vida, que enformaram e enformam o percurso existencial de cada um
dos presentes. Vou procurar interpretar, de forma livre, as palavras do P. Dr.
Anselmo Borges, o qual começou por nos introduzir no mistério de Deus, o Ser
por excelência. Aquele que é a luz fulgurante, a fonte de energia e de
esplendor da qual provém toda a vida e a cor de todas as coisas, cuja beleza
não pode ser contemplada pelo olho de homem e "continuar a viver" (Ex
33,18ss) como poderá vir o homem a contemplar a Deus?!
Se nenhum ser humano viu a Deus, como o pode identificar? Se
o homem identificasse a Deus, Deus deixaria de ser Deus, porque deixava de ser
absoluto para se tornar igual a qualquer ser criado, limitado à perceção
humana. Como pode o infinito caber, ser entendido, apreendido, conhecido pelo
ser finito, por uma "inteligência limitada? Como diria Agostinho e a
maioria dos filósofos e teólogos místicos de todas as religiões sobre o
Absoluto, o Inominável: o que imaginas, o que pensas e o que dizes de Deus, não
é Deus!
Quem é, como é, então, Aquela Entidade a que chamamos Deus?
Nunca ninguém O viu... Quando O questionamos sobre o sentido da existência, do
destino do universo, do sofrimento dos inocentes, do mal, da injustiça, da
morte, obtemos um silêncio total. Não temos qualquer resposta. Contudo
pressentimos, temos a consciência da sua existência. Por isso continuamos a
questionar, a perguntar pelo sentido da vida e procuramos fazermo-nos
"para lá"! Debatendo-nos com uma barreira intransponível: a morte,
insatisfeitos… Satisfeitos na morte?! E agora?
Prosseguiu o Pe. Anselmo, agora, nós somos, por excelência,
os seres que nos transcendemos! Somos por constituição racional e de crença os
seres da pergunta, do transcendente. Assim a cada resposta vem nova pergunta
para "lá".
Não aceitamos a morte como castigo de Deus, pois que O
pressupomos ser o Amor por excelência; nem aceitamos o Seu silêncio, uma vez
que pressentimos pela luz da nossa consciência não só a imensidão da Sua
presença, mas a grande eloquência da Sua mensagem, que nos envolve e
percecionamos no íntimo do nosso ser e nos fala através de todas as coisas em
ato criador contínuo. Desta consciência, dá fé os Atos dos Apóstolos: "É
n'Ele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos" (At 17,20).
O Pe. Anselmo confronta-nos com as palavras, que João coloca
na boca de Jesus: "Eu e o Pai somos Um" (Jo 10, 30), com a injunção
de que cada qual pode fazer sua aquela frase, acentuando, assim, a autonomia
transcendente do homem: "Somos Deus".
Deus não é algo, um ente, além do conjunto de todos os entes
que formam o mundo, nem é uma parte do todo, nem tão-pouco é a soma de todas as
partes. Não O podemos imaginar, nem entender, não porque seja uma figura
contraditória ou uma esfinge impenetrável, mas sim porque é o Ser e o Tudo, a
presença e a comunhão no coração de cada ente, cuja essência não atingimos.
Ao confrontar-nos com o axioma: "que só Deus pode falar
de Deus… Quem não fala é porque não existe", logo centrava a nossa
reflexão na força da esperança, fundamentada na razão, pela qual o homem se vai
transcendendo nas perguntas que coloca para "lá" , capacitando-se
pela fé de que o princípio e fundamento último de toda a realidade seja uma
"Consciência Pessoal", "Um Criador em contínuo", a que
damos o nome de "Deus".
Reforçava o seu pensamento afirmando que "a fé é um
combate", a qual não está circunscrita a dogmatismos de cariz imperial,
mas antes, se apoia na lucidez inteligente da razão, que procura sem cessar
pela fé esse "Deus que oculta ao mundo o Seu rosto", a que damos o
nome de "Deus".
Por outro lado, explicitou com profundidade os sinais, que
fundamentam o nosso "combate" na fé, os quais confirmam e reforçam a
nossa confiança, que iluminam e libertam a mente para uma adesão pessoal à
existência d'Aquele que nos transcende, mas tão presente no coração de todos os
seres.
De entre outros sinais evidenciou a constante manifestação
da consciência antropológica demandando, perguntando, para "lá" do
visível, acerca do destino último do homem. A cada resposta obtida avança com
nova pergunta, assim se vai transcendendo continuamente, não aceitando a morte
como barreira intransponível, nem como fim último, firmando a sua esperança e
confiando para lá.
No íntimo da sua consciência, à medida que cresce, o homem
pressente, descobre e deslumbrasse com uma energia vital, criadora, que está
com ele, mas que o transcende, que o vai impulsionando na sua evolução física,
anímica, mental e espiritual, que não está configurado com qualquer imagem, que
não sabe explicar, mas que identifica com Deus.
Confronta-nos o Dr. Anselmo Borges com a circunstância do
homem, "ao nascer, se revelar um ser prematuro para realizar tudo o que
terá para fazer. Vimos ao mundo por fazer e levamos muito tempo até adquirirmos
a autonomia que verificamos existir nos outros animais logo nos primeiros
momentos de vida. No ponto de vista da natureza, vimos prematuros, temos que
receber, construir, por aculturação aquilo que a natura não nos deu."
Concluindo: "fazendo o que fazemos a nossa vida é fazermo-nos o que somos.
No final ou somos uma obra de arte ou uma (…)".
O Dr. Anselmo Borges evidenciou a possibilidade que temos de
aceder ao mistério do Sagrado, de Deus, que em tudo nos transcende, mas que se
identifica com a raiz do nosso ser e nele habita, dotando-nos da capacidade de
sermos Ele, e com Ele construirmos continuamente o que somos em todas as etapas
do existir n'Ele. Este sentido esclarece a nossa mente, dá certezas à nossa
consciência, ilumina a nossa fé e diz-nos que podemos experimentar a salvação,
experimentar Deus. É um Mistério, não conseguimos ver nem ouvir aquilo com que
"vemos e ouvimos" o Inominável.
Reflete o orador, para que tenhamos a perceção, possível, do
mistério da salvação por um Deus, que é pessoal, mas não à nossa maneira,
haveremos de aceder-lhe através da obtenção da consciência da autêntica
identidade, as sumida na xperiência mística do EU!
Assim, Deus manifesta-se no aqui, no nosso existir e no
existir de todos os seres, que só vemos e ouvimos com os meios que não podemos
ver nem ouvir, porquanto eles são o brilho, o esplendor da imagem do
Transcendente em nós. Assumir esta confiança em Deus será tomar a verdadeira
decisão da nossa vida, a qual lhe dará pleno sentido na última revelação.
Falando de JESUS, Anselmo Borges assinala que Jesus fez a
experiência do amor de Deus na sua vivência de deserto. Aquele espaço físico e
psicológico é propício à transcendência, à identificação das grandes questões,
às tomadas de consciência dos chamamentos e das decisões a assumir. Ali faz a
experiência de que Deus é Amor. Toma consciência, identifica-se e assume-se
como Filho de Deus. Parte para junto dos seus, anunciando-lhes a Boa Nova do
amor de Deus, que a todos vai libertar para a vida, porque os ama. Assim se
decide a proclamar o Amor de Deus. Aqui, Jesus anuncia que Deus é Pai, mas para
superar o temor reverencial associado ao conceito de pai, Jesus vai ao coração
da vida e atribui a Deus a fonte do sentimento mais libertador, mais amoroso,
mais afetuoso, mais carinhoso que se pode dar a alguém, e identifica-O como
"ABBA", ou seja, "Pai Querido", "Paizinho".
Jamais na tradição rabínica se assumiu a liberdade de tratar a Deus como Pai.
Tratava-se de uma ousadia, que roçava a blasfémia!…
Jesus identificou a Deus como a suma bondade, ao qual todos
podem aceder sem medos, sem receios e sem intermediários. Oxalá que fosse assim
nas estruturas do Povo de Deus!
Jesus vai tomando consciência profunda de que se estava a
aproximar um tempo novo, a que chamava Reino de Deus, e que ele mesmo era o
profeta enviado por Deus para anunciar o aparecimento desse tempo novo: a cura
dos doentes, a libertação dos oprimidos, dos camponeses, dos pescadores e de
todos os aflitos.
Jesus sente que, por Ele, estão a ser cumpridas as velhas
esperanças messiânicas, que para isso foi enviado, tomando autoconsciência de
ser o enviado pelo Pai, o Messias.
Anuncia um Reino para a vida, onde Deus reina para os mais
necessitados, para os pobres e para os pecadores, afirmando que o
"Reino" já estava neles. Com palavras simples convida, através de
parábolas, a serem como Deus: sol e chuva para todos, pai amoroso dos filhos
transviados, terra boa onde germine a semente, fermento que faça crescer todo o
pão, bom Samaritano para todos os caídos à beira dos caminhos da vida….
Para acentuar a importância do homem na economia da salvação
global, Anselmo Borges chama às seguintes palavas de Jesus as mais
revolucionárias da história: "O sábado foi feito para o homem e não o
homem para o sábado" (Mc 2,27).
Para Jesus o mais importante eram as pessoas e não a
doutrina, o culto e os preceitos morais, sempre manipulados pelos hábeis
escribas e sacerdotes do Templo.
Como verdadeiro profeta, foi um inovador, um provocador, um
infrator, que se entregou de corpo e alma, a salvar toda a vida, a curar as feridas
da alma e do corpo das pessoas, fazendo-se próximo de todos para os libertar
dos males que os escravizavam, com risco da própria vida. Assim, revelou Deus
como mistério de proximidade e de ternura. Anunciava o Reino "para
lá".
E Jesus morre como blasfemo religioso e revolucionário
político. Sentiu como todos os injustiçados o silêncio e o abandono de Deus no
momento da sua morte: "Meu Deus, meu Deus porque me abandonastes" (Mc
15,34)…
Porém, logo aceitou o "caminho para lá, o da integração
na Vida Total: "Pai nas Tuas mãos entrego o meu espírito…" (Lc 23,45).
Os amigos de Jesus, os Apóstolos, após a morte de Jesus,
refletiram sobre toda a Sua vida, fazem a experiência de Deus por tudo quanto
viram e ouviram do Mestre. Impulsionadas pelos afetos, abertos à luz do
Espírito, felizes e decididos pela firmeza da sua fé no Deus do Seu Mestre,
decidem-se firmemente a anunciar que Jesus é o Cristo. Proclamam que Ele vem de
Deus, consciência que irá presidir ao seu anúncio da "Boa Nova" e às
futuras efabulações que vieram a tomar consistência nas comunidades cristãs
nascentes.
IGREJA - O Papa Francisco procura ser Cristão…
O orador falou sucintamente da história do nascimento das
"Ecclesia", pequenas comunidades que se foram constituindo, pelos
diversos territórios, por cristãos que eram evangelizados pelos apóstolos.
Os Apóstolos, crentes em Jesus, celebravam essa fé, e, em
coerência com o que acreditavam, anunciavam-na pela palavra e pela escrita.
Cada um anunciava o mistério de Jesus à sua maneira, fundamentados nas suas
palavras: "Quem me vê, vê o Pai… (Jo 14,8-9), mas o Pai é maior do que
eu" (Jo 14,28). (Jesus na medida em que revela Deus, mistério último,
também o esconde. Jesus não é o mistério último.)
As pequenas comunidades "ecclesia" reuniam-se em nome
de Jesus em quem acreditavam, celebravam essa fé na partilha do pão, na oração,
na partilha fraterna dos bens, liam as Escrituras e ouviam as mensagens orais
ou escritas dos Apóstolos.
As pequenas comunidades foram- se aglutinando, crescendo, e
organizaram-se como já conhecemos, tomando o conjunto daqueles que acreditavam
em Jesus Cristo, os cristãos, a designação de Igreja.
Ao descrever o devir da História, o orador faz-nos refletir
como o cristianismo religião da Igreja, se torna a religião do Império
(romano), de perseguida passa a perseguidora. Em termos de pensamento, de
orientação teológica e de consciências e de manipulação de poder, naquele
contexto, é apresentado um deus "irado". Havia que repará-lo,
acalmá-lo, daí o sacrifício "infinito", a Eucaristia. E o orador
confronta a assembleia: "O que acontece quando Deus está presente? Ser o
que está a acontecer em hebraico e ser em grego situa-se na razão ontológica. No
acontecer de Deus e Deus é amor, só pode acontecer o amor." Percebemos,
"deus irado" é uma efabulação!
Confundimos muitas vezes religião com o mistério sagrado.
Devemos ter em conta todas as religiões. Há mais verdade em todas as religiões
do que numa só.
As religiões são construções humanas, histórico-culturais
para se relacionar com o sagrado. Tudo começa por uma experiência do sagrado,
do mistério, a qual está para além do dizível. As religiões são sempre
"segundos" relativamente à experiência pessoal.
Em síntese, o nosso formador passou a analisar a Igreja
atual à luz dos três impulsos de Kant: o ter, o poder e o prazer, aplicados à
atualidade.
Afirmando que o Papa procura cumprir a sua missão, assumindo
como primeira tarefa que tanto ele, como os cardeais e todos os católicos sejam
cristãos.
Concluindo que temos um Papa cristão, confirmado pelas
palavras do Presidente Obama: "O Senhor é a experiência viva dos
ensinamentos cristãos".
Teve que fazer face à degradação moral causada pela
pedofilia sobre a qual declarou tolerância zero.
Em segundo lugar declara o saneamento moral e cristão dos
dinheiros afetos à Igreja, reformulando a banca e os costumes ostensivamente
luxuosos e mundanos de alguns hierarcas e o destino criminosos de alguns
dinheiros.
E m terceiro lugar restaura a democracia na vida do Povo de
Deus. Foi assim e ainda é: o Papa não pode ser julgado. A organização
eclesial-clerical tornou-se imune à crítica. Ainda não atingimos a idade da
razão. "A hierarquia manda, os leigos obedecem" (Pio IX). A
eclesiologia é uma hierarquilogia que pode ser muito perigosa.
Pretende a representação de todos os continentes no governo
da Igreja, quer a descentralização, a defesa dos direitos humanos. O que é de
todos tem de ser participado por todos.
O problema do celibato e das mulheres revela que a Igreja é
a única instituição mundial de autoridade absoluta. Os jovens e as pessoas não
entram numa instituição onde não podem participar.
Esperamos que o Papa estabeleça o diálogo de fé com a
ciência.
O problema do ecumenismo é um caminho para a paz. Sem o
diálogo inter-religioso, sem paz entre as religiões não há paz entre os povos.
Refletindo, como é que de Jesus e de Pedro derivou um chefe
de estado?
Este Papa tornou-se uma voz político-moral entre os povos,
afirmando, de entre outros princípios e acerca do regime capitalista:
"esta economia mata".
Todos tomámos consciência, ao escutarmos o Pe. Dr. Anselmo
Borges, de que o "mistério de Deus" se revela no íntimo do nosso ser,
no coração de todos os seres, na Boa Nova de Jesus, no espírito do Povo de Deus
congregado em Igreja.
Desculpem o prolixo.
Ernesto Jana
Espiral, n.º 56, boletim da FRATERNITAS MOVIMENTO, Outubro/Dezembro de 2015
PARA LER: ESPIRAL N.º 56

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