«Toda a maternidade é maternidade divina, porque proveniente de Deus e porque gera os filhos de Deus»
Neste último domingo do Advento, a liturgia convida a voltar à fonte da nossa vida de cristãos. O dia do nascimento de Cristo ainda não chegou, mas já podemos contemplá-lo, fazendo como Isabel ao ficar repleta do Espírito Santo, e já podemos também alegrar-nos com a sua Mãe, que acreditou nas palavras do Senhor.
Reflexão de P.e Marcel Domergue (+1922-2015), no sítio Croire.
Tradução de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara, Unisinos
Porque vai Maria com tanta pressa, visitar a sua prima Isabel? Porque deseja partilhar a sua alegria. O que estava a acontecer com estas duas mulheres era algo extraordinário! Através delas, Lucas, com certeza, quer que tomemos consciência da maravilha que representa toda maternidade. Aliás, esta é uma página totalmente feminina: dela, os homens estão ausentes. Outros textos vão nos falar da paternidade humana. O que por ora temos de saber é que toda paternidade vem de Deus "de quem toma o nome toda a família no céu e na terra" (Efésios 3,15).
A maternidade, de alguma forma, é um segredo entre a mulher e Deus, pois Deus é quem age em toda fecundidade. Este é o significado de todos os nascimentos milagrosos que estão na Bíblia. No nascimento de seu primeiro filho (Gn 4, 1), Eva exclama: "Adquiri um homem com a ajuda de Yahweh".
Maria e Isabel compartilham a alegria da vida que lhes foi dada e recebida como participação na fecundidade divina. De todos os homens, em certo sentido pode-se dizer "que não foram gerados nem do sangue, nem de uma vontade da carne, nem de uma vontade do homem, mas de Deus" (Jo 1,13). Toda maternidade é maternidade divina, porque proveniente de Deus e porque gera os filhos de Deus.
"Feliz aquela que acreditou, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido", disse Isabel. Vamos, por ora, deter-nos neste "da parte do Senhor" que tantas vezes tem passado desapercebido. De facto, mesmo sendo Deus a origem de tudo, em geral é por intermédio de mensageiros que a sua palavra e a sua ação nos atingem. Através de uns e de outros, Deus encontra-se connosco e a sua paternidade passa pela paternidade humana.
Todos, desta forma, podemos ser caminho de Deus. Nas nossas celebrações, muitas vezes proclamamos a "palavra de Deus". Sim, mas esta palavra foi-nos dada através de um livro que é obra de autores humanos. Deus falou connosco através do seu "Filho" e o que nos disse, enfim, nos foi relatado segundo Mateus ou Marcos ou Lucas ou, então, segundo João.
Maria acolheu a palavra que lhe foi dita da parte de Deus: por meio de um "anjo"! A dificuldade que temos em compreender o que esta palavra significa é grande, mas ela sinaliza a presença de um mensageiro, de um mediador. E esta "função angelical" somos todos chamados a exercer, ainda que sem saber, na maior parte do tempo.

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