1. Deus abre a porta : Ao entrar na igreja, a porta recorda de imediato as palavras de Jesus no Evangelho de S. João: «Eu sou a porta das ovelhas» (Jo 10,7) e logo a seguir, «Eu sou a porta, se alguém entrar por Mim, será salvo» (Jo 10,9). Cristo é a passagem do homem para Deus. Tanto na sua estrutura como no seu ornamento, a porta é símbolo de Cristo, a única porta da misericórdia. Por isso, passar a porta da Igreja está cheia de significados e compromissos.
Uma porta é, por um lado, uma realidade que fecha e separa dois lugares; e, por outro lado, que abre e mete em relação e comunicação. Tem além da sua função prática este apelo de passagem, da condição de peregrinos à de contemplativos. A porta é assim uma meta, o termo de uma etapa de um processo de conversão: passar desta vida à vida eterna, da condição de pecador à salvação.
Entrar na Catedral ou noutra igreja ou santuário pela porta, não significa entrar num edifício sagrado de culto, mas unir-se a uma comunidade crente e orante reunida em assembleia litúrgica, ou seja, em assembleia santa. Para todo o cristão, entrar na porta da igreja, «significa entrar a fazer parte de toda a história de fé de um povo e pertencer-lhe inteiramente. Quer dizer, escolher de ser membro do corpo histórico, presente e passado, da comunidade crente» (G. Boselli).
Ao entrar na igreja e particularmente nas procissões (ex. hoje no início do Jubileu da Misericórdia, no Domingo de Ramos, na entrada da missa dominical), somos convidados a cantar bons e nos maus momentos (GS 1 e GS 40). O homem deve estar no centro de toda a vida económica e social (GS 63).
Convida-nos também a iluminar esse olhar o mundo com a Boa Nova de Cristo. Proclama a sublime vocação do homem, e afirma que nele está depositado um germe divino. Assim, o homem é o fulcro de toda a exposição desta constituição: o homem na sua unidade e integridade: corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade (GS 3). A finalidade fundamental das atividades humanas não deve ser o mero aumento dos produtos, nem o lucro ou o poderio, mas o serviço do homem; do homem integral (GS 64).
Os desafios que coloca aos cristãos são inúmeros, e são colocados no nosso dia-a-dia: desde o de servir efectivamente quando o outro vem ao nosso encontro, quer seja o ancião, abandonado de todos, ou o operário estrangeiro injustamente desprezado, ou o exilado (GS 27), até à participação política, numa ótica de serviço ao outro (GS 75). Pois essa atividade individual e colectiva, aquele imenso esforço com que os homens tentam melhorar as condições de vida, corresponde à vontade de Deus (GS 34).
«Levantai, ó portas, os vossos umbrais; alteai-vos pórticos antigos e entrará o rei da glória» (Sl 24,7). Nalgumas celebrações (Batismo, Matrimónio, Exéquias) os fiéis são recebidos às portas da igreja marcando pois uma fronteira entre o que se vê e o mistério que se celebra.
O Papa Francisco, di-lo de uma forma mais viva: «À nossa frente está a porta, mas não só a porta santa, a outra: a grande porta da Misericórdia de Deus — e é uma porta bonita! — que recebe o nosso arrependimento oferecendo a graça do seu perdão. A porta é generosamente aberta, e devemos ter um pouco de coragem para cruzar o limiar. Cada um de nós tem dentro de si situações que pesam. Todos somos pecadores! Aproveitemos este momento que chega e cruzemos o limiar desta misericórdia de Deus, que nunca se cansa de perdoar, nunca se cansa de nos esperar! Observa-nos, está sempre ao nosso lado. Coragem! Entremos por esta esta porta!» (audiência geral 18.11.15).
2. A Porta da Misericórdia do bom Samaritano: No dia 8 de dezembro, toda a Igreja foi com-vocada para (re)entrar pela Porta Santa da Misericórdia e prosseguir na abertura do Espírito: «ao cruzar a Porta Santa, queremos também recordar outra porta que, há cinquenta anos, os Padres do Concílio Vaticano II escancararam ao mundo.
Esta efeméride não pode lembrar apenas a riqueza dos documentos emanados, que permitem verificar até aos nossos dias o grande progresso que se realizou na fé. Mas o Concílio foi também, e primariamente, um encontro; um verdadeiro encontro entre a Igreja e os homens do nosso tempo. Um encontro marcado pela força do Espírito que impelia a sua Igreja a sair dos baixios que por muitos anos a mantiveram fechada em si mesma, para retomar com entusiasmo o caminho missionário. Era a retomada de um percurso para ir ao encontro de cada homem no lugar onde vive: na sua cidade, na sua casa, no local de trabalho... em qualquer lugar onde houver uma pessoa, a Igreja é chamada a ir lá ter com ela, para lhe levar a alegria do Evangelho e levar a Misericórdia e o perdão de Deus. Trata-se, pois, de um impulso missionário que, depois destas décadas, retomamos com a mesma força e o mesmo entusiasmo.
O Jubileu exorta-nos a esta abertura e obriga-nos a não transcurar o espírito que surgiu do Vaticano II, o do Samaritano, como recordou o Beato Paulo VI na conclusão do Concílio. Atravessar hoje a Porta Santa compromete-nos a adoptar a misericórdia do bom samaritano» (Papa Francisco, Homilia 08.12.15).

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