O
papado de Francisco já se estende por quase quatro anos, e cada um dos três
primeiros anos trouxe um avanço diplomático específico: uma ajuda em evitar uma
ofensiva ocidental anti-Assad na Síria, em 2013; a restauração das relações
entre EUA e Cuba, em 2014; e um apoio moral ao acordo climático de 2015, em
Paris.
Na
segunda-feira (11-01-2016), Francisco proferiu o seu discurso anual ao corpo
diplomático acreditado no Vaticano, e muitos dos aí presentes provavelmente se
viram perguntando na Sala Regia: Qual de nós vai ser o próximo?
Certamente,
triunfos diplomáticos e políticos não crescem em árvores, e é completamente
fora da realidade exigir de um papa um triunfo a cada ano.
No
entanto, Francisco é um papa que está com pressa. Observando o cenário mundial
nesse início de 2016, aqui apresento cinco lugares onde parece, pelo menos,
possível que a sua força política consiga fazer a diferença.
Reportagem de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 11-01-2016.
Tradução de Isaque Gomes Correa, Unisinos
A
palavra-chave é “avanço”, não “empenhamento”. Há uma lista muito mais extensa de
frentes nas quais Francisco e o Vaticano estarão engajados, do conflito entre
Israel e a Palestina à Ucrânia e à China, e outros. Mas o que estamos buscando
são lugares onde as estrelas parecem alinhadas de tal modo que um aceno de
Francisco, no momento certo, poderá significar uma diferença entre a mudança
real e um retorno ao status quo.
Debates
sobre imigração nos EUA
Uma
questão pronta a figurar nas eleições americanas deste ano é a reforma migratória, com as propostas de uma reforma ampla atualmente estagnadas no
Congresso e, aparentemente, não passíveis de serem levadas em frente antes de
novembro.
As
promessas de Donald Trump de uma muralha enorme ao longo da fronteira do México
e EUA e pela proibição da entrada de todos os muçulmanos no país vêm animando a
base republicana, fazendo da percepção de ser duro nesse campo parece ser o
teste decisivo para o sucesso nas eleições.
O
Papa Francisco deve fazer uma escala no dia 17 de fevereiro na fronteira entre
os dois países, na Ciudad Juárez junto à localidade de El Paso, onde se espera
que ele, mais uma vez, manifeste o seu apoio aos direitos dos imigrantes.
O
pontífice mencionou esta sua estada em Ciudad Juárez na segunda-feira dizendo
que, na fronteira, estamos diante de uma “situação dramática”.
Não
importa o quão remoto seja a possibilidade, mas a coincidência da viagem do
papa com o período de eleições nos EUA abre uma janela na qual Francisco pode
dar um impulso aos candidatos moderados em se tratando da reforma das leis migratorias – se não no nível presidencial, pelo menos talvez em entre alguns
concorrentes ao Congresso.
Em
1987, Ronald Reagan ficou de pé em frente ao Muro de Berlim e disse aos
soviéticos: “Derrubem esse muro!” Dependendo do que Francisco dizer e fazer em
Ciudad Juárez, a sua presença aí poderá ser lembrada como o seu momento
equivalente: “Não construam este muro!”.
A
crise dos refugiados na Europa
A
Europa está se debatendo com a sua maior crise desde a Segunda Guerra Mundial,
com a Organização Internacional para as Migrações informando que, até 21 de
dezembro, mais de um milhão de refugiados e migrantes chegaram ao continente em
2015, a maior parte por mar, com a violência na Síria sendo a maior força
motriz do movimento.
As
políticas europeias, hoje, se definem pelo choque entre os representantes pró e
contra a migração, com uma tendência crescente a favor de uma política de portas
fechadas. Isso é verdade em vários países onde o catolicismo historicamente tem
sido um agente social predominante, tais como a Polónia, a Hungria e a Áustria.
Em
grande parte de seu discurso de segunda-feira Francisco dedicou a apelar pela
“recepção e adaptação” destes novos desembarques – um claro sinal de que a
crise da Europa é uma prioridade para ele em 2016.
“Por
isso, desejo reiterar a minha convicção de que a Europa (…) possui os
instrumentos para defender a centralidade da pessoa humana e encontrar o justo
equilíbrio entre estes dois deveres: o dever moral de tutelar os direitos dos
seus cidadãos e o dever de garantir a assistência e o acolhimento dos
migrantes”, disse.
Se
Francisco encontrar formas criativas de fazer estas coisas valerem em 2016, ele
poderá ter um efeito na política do continente, talvez começando pela própria
Itália.
Na
segunda-feira, o pontífice convocou os italianos a não perderem o seu
“tradicional sentido de hospitalidade e solidariedade” diante das “inevitáveis
dificuldades do momento presente”.
Uma
oportunidade para Francisco trazer novamente esta sua mensagem vai vir na
Polônia em julho, quando ele vai a Cracóvia para a Jornada Mundial da
Juventude. Um movimento de direita tem ameaçado não aceitar o compromisso de
acolher imigrantes como parte de uma ação da União Europeia, mas isso dependerá
do apoio católico, e uma vergonha papal poderá igualmente fazer a diferença.
Colômbia
As
negociações de paz em Havana visando terminar com mais de cinco décadas de
conflito na Colômbia estão programadas para serem reatadas na quarta-feira (13
de jan.), e o presidente colombiano Juan Manuel Santos recentemente
comprometeu-se que elas permanecerão em “sessão permanente” até que um acordo
seja feito, com o desejo de se chegar a um desfecho até março.
O
governo das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, ou FARC, já chegaram a
acordos sobre reforma agrária, participação política, drogas e plantio, e uma
reparação às vítimas da violência. O último ponto dessa agenda diz respeito à
implementação de um cessar-fogo bilateral permanente, incluindo um baixar armas
por parte das FARC.
Francisco
tem um interesse pessoal nessas negociações, reconhecendo, em resposta a uma
pergunta durante o encontro com os jornalistas a bordo do seu avião em setembro passado quando
voltava dos EUA, que havia falado duas vezes por telefone com Santos sobre o
assunto.
Antes
ainda, em sua escala em Cuba, o pontífice diretamente abordou as negociações
durante uma missa na Praça da Revolução de Havana, dizendo que “não temos o
direito de nos permitir outro fracasso na Colômbia”.
Dada
a conexão latino-americana e o fato de que tanto o governo Santos quanto as
lideranças das FARC vêm pagando tributo pelo apoio que Francisco lhes tem dado,
é inteiramente possível pensar que, se eles chegarem a um impasse, bem poderão
se voltar ao pontífice em busca de ajuda.
Se
sim, e um acordo de paz for alcançado e implementado, Francisco poderá, mais
uma vez, ser chamado de um jogador fundamental nas relações internacionais.
República
Centro-Africana
A
primeira rodada de votação das eleições presidenciais na República
Centro-Africana em 30 de dezembro foi, em grande parte, pacífica, uma surpresa
para muitos em um país que tem sofrido com uma onda de violência entre milícias
muçulmanas e cristãs rivais.
O
segundo turno ocorrerá em 31 de janeiro. Supondo que a calmaria relativa se
mantenha e dependendo de como ela terminar, o país poderá ter condições de
iniciar a sua reconstituição.
Francisco
ganhou bastantes amigos na República Centro-Africana com a sua visita de dois
dias em novembro passado. Um momento-chave veio quando visitou uma mesquita em
uma região da capital nacional, Bangui, dominada por forças jihadistas, apesar
dos apelos em cancelar o evento, uma vez que se configurava como muito
arriscado.
Alguns
analistas creditam a visita do papa e a sua mensagem de reconciliação com essa
mudança na atmosfera do país.
“Ela
desempenhou um papel definitivo em acalmar os ânimos diante das eleições”,
disse Alex Fielding, analista da Max Security Solutions.
Dificilmente
está escrito nas estrelas que as eleições terão um final feliz, visto que, pelo
menos, 20 dos 30 candidatos à presidência no primeiro turno denunciaram a
contagem dos votos como uma farsa.
Mas
se elas forem bem-sucedidas, Francisco receberá muitos créditos aqui também,
especialmente se ele, hoje, concordar em fazer algo mais, talvez dar um
telefonema diplomático, algo que tem feito a diferença.
Iraque
e Síria
Obviamente,
Francisco não tem condições de pôr abaixo o ISIS por si mesmo, especialmente
depois que o grupo islâmico radical vem repetidamente ameaçando o Vaticano,
inclusive postando uma imagem da Praça de São Pedro na capa de sua revista
online em novembro numa advertência nem um pouco sutil.
O
que Francisco pode fazer, no entanto, é encorajar os países ocidentais a se
comprometerem na pressão contra o grupo extremista, principalmente em termos de
proteção das minorias vulneráveis da região, incluindo a pequena porém
significativa presença cristã no Oriente Médio.
De
certo modo, seria uma postura contraintuitiva vindo de um “Papa da paz”, mas
Francisco está sendo encorajado pelos seus próprios bispos na região, os quais
vêm insistindo que os seus rebanhos enfrentam o risco de um “genocídio”. O
pontífice trouxe esse assunto em seu discurso de segunda-feira.
“Também
aqui penso nos cristãos do Médio Oriente desejosos de contribuir, como cidadãos
de pleno direito, para o bem-estar espiritual e material das respectivas
nações”, declarou.
Em
dezembro, uma pesquisa feita pela agência Gallup mostrou que, pela primeira
vez, uma minoria de americanos, 53%, apoia uma guerra contra o ISIS e está
provavelmente será uma questão presente nas eleições deste ano também.
Francisco
já disse que “é legítimo deter um agressor injusto”. Uma nova dose de exortação
moral por parte do papa poderia ajudar a colocar os pedidos por uma ação mais
incisiva no topo das prioridades, e não somente nos EUA.

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