O
Papa Francisco fez do ano de 2015 o “Ano da Vida Consagrada” (conclui no dia 2 de fevereiro de 2016).
Não me surpreende
que, na sua Carta apostólica às pessoas consagradas (2014), ele diga esperar
que seja sempre verdade o que já afirmou em outra ocasião (a seminaristas e
noviças): “Onde há religiosos, há alegria” (2.1). Alegria é também a nota
característica de sua primeira exortação apostólica, Evangelii Gaudium (2013),
que se inicia dizendo: “A alegria do evangelho enche o coração e a vida inteira
daqueles que se encontram com Jesus”. Pelo mesmo motivo, a Congregação para os
Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica dá à sua Carta
Circular aos Consagrados e Consagradas (2014) o título de Alegrai-vos. Toda a
carta da congregação aprofunda, biblicamente, o convite Papal à alegria.
Especialmente em Isaías e nos Salmos, a palavra “alegria” evoca a presença de
Deus na história de Israel. Da mesma forma, no Novo Testamento, o sentimento de
alegria antecede o nascimento do Salvador e acompanha a boa notícia da difusão
do Reino. Para Paulo, a alegria é fruto do Espírito (Gl 5,22). Tristeza é só
para os que não têm esperança (1Ts 4,13). A alegria é também o dom messiânico
por excelência. Como ter tristeza quando estão para se realizar “as núpcias do
Cordeiro. Felizes os convidados!” (Ap 19,9)?
No
presente artigo, gostaria de ressaltar a íntima relação entre a espiritualidade
da Vida Consagrada e a ação pastoral. É por meio do fortalecimento dessa
relação que o Papa Francisco quer dar novo rosto à Igreja.
[…]
Da
autorreferencialidade à “cultura do encontro”
Dizem
que há certo desânimo no ar. Se tanto o Papa Francisco quanto o prefeito da
Congregação para os Institutos de Vida Consagrada insistem em “alegria”, é
razoável supor que alguma nuvem de tristeza nos atingiu. Talvez a tristeza que
surge quando não há clareza sobre o caminho a seguir, ou então a que se abate
sobre nós quando perdemos de 7 a 1 em alguma competição. De fato, há muitos
motivos para preocupação, e não somente na Vida Consagrada. A Igreja toda está
como que na berlinda. Basta lembrar alguns exemplos. O impressionante avanço do
pentecostalismo é um deles. O abandono de um milhão de católicos por ano é mais
do que preocupante. Ainda não temos uma estratégia pastoral adequada para
“segurar” o nosso rebanho. Existe um sentimento generalizado entre os teólogos
e as teólogas de que é preciso mexer na doutrina do ministério ordenado, mas
qual o caminho? Predomina a falta de coragem. Um dos problemas de fundo é a
falta de sintonia entre a Cúria Romana e o senso comum dos cristãos nas questões
de fé, o sensus fidelium dos fiéis declarado “infalível” em LG 12. O Papa
Francisco encarregou-se de implementar a reforma da Cúria, mas tudo leva a crer
que, mais uma vez, nada substancioso irá ocorrer. O Concílio Vaticano II abriu
portas e janelas, mas elas foram cuidadosamente fechadas mais uma vez. Temos
dificuldade de lidar com o vento impetuoso do Espírito que deu origem à Igreja.
A
Vida Consagrada enfrenta dificuldades parecidas. Foram-se os bons tempos,
quando milhares de mosteiros europeus puderam dar sustentação a uma cristandade
em geral ávida para acolhê-los. As inúmeras obras de caridade – asilos,
escolas, hospitais, orfanatos etc. – que deram visibilidade às novas
fraternidades e irmandades religiosas surgidas na Modernidade foram, em geral,
assumidas por governos laicos. Como ser “sinal” sem obras? E as numerosas novas
congregações missionárias que encontraram espaços de atuação quando se romperam
os estreitos limites geográficos do passado? Qual missão resta quando o medo do
inferno se desfaz e a teologia do pluralismo religioso ressalta a presença
benevolente de Deus em todas as religiões? Isso sem falar da enorme onda de
secularização nos países desenvolvidos que pôs fim às vocações. Aliás, uma
secularização em fase de mundialização, à medida que o mundo todo se
escolarizar e se sujeitar à cultura urbana ocidental. Preocupações não faltam.
Há muito mais perguntas do que respostas. É neste clima eclesial um tanto
quanto desanimado ou estressado que o Papa Francisco foi eleito. Mas o Papa não
parece estar desanimado ou então percebe o “desânimo pastoral” (EG 82) e está
em busca de uma reversão. Sua primeira exortação, Evangelii Gaudium, é um grito
forte de alegria e esperança (n. 1 a 13). Quem realmente crê que a Igreja é
guiada pelo Espírito só tem motivo para “estremecer de alegria” (Lc 10,21).
Nunca cabe “cara de funeral” (EG 10).
Qual
é o ponto central ao qual o atual sucessor de Pedro dedica toda a sua atenção?
Para quem analisa com cuidado o que tem escrito e falado nestes primeiros anos
de seu pontificado, não pode haver dúvida: a Igreja deve superar a sua
autorreferencialidade e, com confiança no Espírito, adotar, decididamente, a
“cultura do encontro”. O Papa quer uma Igreja decididamente missionária, uma
Igreja em atitude de “saída”, isto é, na rua, na sociedade, nas “periferias
existenciais” (Carta apostólica, n. 2.4) do povo, em especial do povo pobre. Na
exortação EG, ele faz dessa ideia-chave o fio condutor do documento, até certo
ponto dando sequência aoDocumento de Aparecida, em parte obra de suas mãos.
Fazendo suas as palavras de João Paulo II, observa que a atividade missionária
ainda hoje representa “o máximo desafio” da Igreja e “a primeira de todas as
causas” (Redemptoris Missio, n. 40 e 86). É “o paradigma de toda a obra da
Igreja”, complementa (n. 15). Já no primeiro capítulo fala da Igreja em saída
(n. 20). A comunidade missionária deve “ir ao encontro, procurar os afastados
e… convidar os excluídos” (n. 24). Ela deve constituir-se “em estado permanente
de missão” (n. 25; cf. DAp 201). O Papa diz “sonhar” com uma Igreja dedicada
“mais à evangelização do mundo atual do que à autopreservação”, uma Igreja
livre de qualquer “introversão eclesial” (n. 27). “Um coração missionário…
nunca se refugia nas próprias seguranças… ainda que corra o risco de sujar-se
com a lama da estrada” (n. 45). “Mas a quem a Igreja deveria privilegiar?
Sobretudo aos pobres e aos doentes… àqueles que não têm com que te retribuir”
(n. 48; cf. Lc 14,14). Encerra o primeiro capítulo da seguinte forma: “Mais do
que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas
estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em
juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora
há uma multidão faminta e Jesus nos repete sem cessar: ‘Dai-lhes vós mesmos de
comer’“ (n. 49; cf. Mc 6,37).
Especialmente
no segundo capítulo, o Papa pede uma Igreja que – em oposição à “globalização
da indiferença” e à “espiritualidade sem Deus” – vá “ao encontro”. São muitas
as passagens: n. 54; 63; 70; 74; 78; 87-92. Particularmente os(as) agentes
pastorais são convidados(as) a abandonar os “espaços pessoais de autonomia” (n.
78), o “pragmatismo cinzento da vida cotidiana” (n. 83), o “veneno amargo da
imanência” (n. 87), como também o “neopelagianismo autorreferencial” (n. 94), o
“mundanismo espiritual” e o “funcionalismo empresarial” (n. 95). O Papa percebe
certa “falta de cuidado pastoral com os mais pobres” e a “inexistência de um acolhimento
cordial nas nossas instituições” (n. 70). É preciso redescobrir a “mística” de
viver juntos (n. 87), “abraçar o risco do encontro com o rosto do outro” e
praticar “a revolução da ternura” (n. 88), longe de qualquer “autocomplacência
egocêntrica” (n. 95). “Deus nos livre de uma Igreja mundana sob vestes
espirituais ou pastorais!” (n. 97).
Vida Consagrada:
não deixar morrer a profecia!
Gostaria
de voltar, antes de tudo, à perspectiva antropológica. Ela está recuperando
espaço na teologia, mas ainda de forma muito tímida. Se nos limitarmos às
grandes tradições religiosas, vejo que todas ressaltam três dimensões
fundamentais: 1) vivenciar e testemunhar o que é mais essencial na tradição
religiosa; 2) estar a serviço das necessidades religiosas da população; 3)
levar a riqueza da tradição religiosa a quem dela sinta falta. Em cada tradição
religiosa, as três dimensões estão presentes numa variedade imensa e sempre
sujeitas às transformações culturais do tempo. Não é difícil perceber que a primeira
dimensão corresponde ao que, no cristianismo, conhecemos como “Vida
Contemplativa”, a segunda como “Vida Ministerial” e a terceira como “Vida
Religiosa Apostólica ou Missionária”.
Não
sou especialista na área, mas creio que as três dimensões mencionadas estejam
presentes também nas “pequenas” tradições religiosas em qualquer lugar do
mundo, hoje e sempre. Por quê? Porque as três são indispensáveis à felicidade
humana, tanto a individual quanto a coletiva. Na tradição judaico-cristã (e
islâmica), tem-se dado prioridade, por séculos e mais séculos, à doutrina, à
“ortodoxia”. Esta nunca foi desligada, porém, do objetivo maior da “vida plena”
(Jo 10,10), almejada por Jesus. Hoje, especialmente nas questões de moral e
ética, é importante ressaltar que o objetivo maior da vida cristã não é a
fidelidade a uma doutrina, mas a fidelidade à felicidade humana. Formulações
doutrinárias estão presas às linguagens e compreensões das épocas, a felicidade
humana não. Esta tem sua “permanência antropológica”. Ora, cabe à Vida
Consagrada – nas suas três dimensões – demonstrar que a completa felicidade
humana não se encontra nesta terra. A pregação de santo Agostinho continua
válida: somente em Deus o coração humano encontra repouso. Não basta o humanismo
secular. Bem que Bento XVI dizia: “O humanismo que exclui Deus é um humanismo
desumano” (CV 78).
Há
algo que a nossa pastoral latino-americana costuma esquecer: a lição
fundamental da “secularização”. Num país secularizado, especialmente no seu
viés ocidental, as vocações à Vida Consagrada quase que desaparecem por
completo. O Brasil já deu forte arrancada nesse processo de secularização. No
mundo ocidental, hoje fortemente laicizado, em grande medida, apenas os bens
materiais são valorizados, disponibilizados e propagados. Neste mundo, os
mosteiros dedicados a Mamon, os sacerdotes do Mercado e os missionários da
espiritualidade secular estão onipresentes. E quais são os(as) agentes
pastorais capacitados(as) para “reverter” a situação? Creio firmemente que não
serão os poucos religiosos ou religiosas que “sobram”. Será, em primeiro lugar,
a própria “insatisfação antropológica” que possibilitará a reversão. A vida
exclusivamente materialista não satisfaz. Ao contrário, apesar de sua atratividade
passageira, repugna. Na nossa modernidade avançada, os primeiros sinais da
reversão já estão presentes. Hoje, até os ateístas mais militantes já
reconhecem que alguma forma de espiritualidade se faz necessária.
Qual
a mensagem do Papa Francisco à Vida Consagrada? Na sua Carta apostólica às
pessoas consagradas, diz: “Vós não tendes apenas uma história gloriosa para
recordar e narrar, mas uma grande história a construir!” (introd.; cf. Vita
Consecrata, n. 110). E o prefeito atual da Congregação para os Institutos da
Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica acrescenta, na Carta
Circular: No Ano da Vida Consagrada, são esperadas “ousadas decisões
evangélicas” (n. 1). É preciso “sair do ninho” (n. 10) e “perguntar-nos: como
está a minha fecundidade espiritual e a minha fecundidade pastoral (n. 12)?” Aí
entra o que parece ser uma das ideias-chave do pontificado e da carta do Papa
Francisco: o que mata a Igreja em geral, e a Vida Consagrada em especial, é a
“doença da autorreferencialidade” (n. 2.3). A Igreja não foi feita para si
mesma, muito menos a Vida Consagrada, seja qual for a sua dimensão. A luz que
deve brilhar diante dos homens não pode ser colocada “debaixo do alqueire” (Mt
5,15). Não adianta “fazer arqueologia”, diz o Papa, ou “cultivar inúteis
nostalgias” (n. 1.1). É preciso retornar sempre de novo à “centelha
inspiradora” dos(as) fundadores(as) (n. 1.1) e, mais ainda, à do próprio Jesus
Cristo.
O
Papa não se limita a criticar a autorreferencialidade, mas também aprofunda o
seu oposto: viver a “mística do encontro” (n. 1.2). “Tal como Jesus… comunicou
a sua palavra, curou os doentes, deu o pão para comer, ofereceu a sua própria
vida, assim também os fundadores se puseram ao serviço da humanidade, à qual
eram enviados pelo Espírito, servindo-a dos mais diversos modos… A inventiva da
caridade não conheceu limites” (n. 1.2). Uma Igreja “em saída” exige “viver com
paixão (alegria!) o presente”. Há necessidade de “procurar juntos o caminho, o
método” (n. 1.2). Para “fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão” (n. 2.3;
cf.Novo Millennio Ineunte, n. 43), “os diferentes institutos… devem sair das
fronteiras do próprio instituto para elaborar em conjunto, a nível local e
global, projetos comuns de formação, de evangelização e de intervenções
sociais” (n. 2.3).
Ocasionalmente
parece que o Papa Francisco interpreta a opção preferencial pelos pobres numa
linha puramente assistencial. Sem dúvida não concebe a Igreja cristã sem
“sinais” claros de presença junto àqueles e àquelas que se encontram “à
margem”. Não deixa de ver, porém, a limitação inerente a essa opção. O quarto
capítulo de Evangelii Gaudium é inteiramente dedicado à questão. Diz o Papa com
todas as letras:
Os
planos de assistência, que acorrem a determinadas emergências, deveriam
considerar-se apenas como respostas provisórias. Enquanto não forem
radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia
absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas
estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e,
em definitivo, problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais (n.
202).
E
segue: “Qualquer comunidade da Igreja… sem se ocupar criativamente nem cooperar
de forma eficaz para que os pobres vivam com dignidade… facilmente acabará
submersa pelo mundanismo espiritual, dissimulado em práticas religiosas,
reuniões infecundas ou discursos vazios” (n. 207).
Tudo
isso é válido para leigos(as), ministros ordenados ou qualquer outro(a) agente
pastoral, mas, em especial, para a Vida Consagrada. Lembro, mais uma vez, a
posição do prefeito da já citada congregação: o “algo especial” da Vida
Consagrada está intimamente ligado à “linha profética”. E o Papa diz: “a nota
característica da vida consagrada é a profecia”, e “um religioso deve jamais
renunciar à profecia” (n. 2.2). Dom Helder Câmara, em suas últimas palavras,
confidenciou a um amigo: “Não deixem morrer a profecia”. Parece-me este o
grande desafio que o Papa apresenta à vida contemplativa, ministerial e
apostólica: superar a autorreferencialidade e ir, com alegria e esperança, ao
encontro da sociedade, do mundo. Essa pastoral, tão essencial, não é possível
sem profunda “espiritualidade samaritana”. Que o Ano da Vida Consagrada nos
inspire a beber mais copiosamente dessa fonte da nossa própria tradição
religiosa e enriquecer-nos também com outras tradições religiosas para ir, em
conjunto e mais decididamente, ao encontro das pessoas deitadas à beira da
estrada.

Comentários
Enviar um comentário