Vocações Presbiterais, prognósticos para o Futuro



Já na reta final da sua vida, em 1996, Bernhard Häring, missionário redentorista e teólogo moral, que desempenhou um importante papel na comissão de redação da Gaudium et Spes, escreveu um pequeno livro com o título «Sacerdócio em questão: um exame crítico do ministério na Igreja Católica».
Deste livro, destaco um breve capítulo dedicado ao tema «Vocações Presbiterais, Prognósticos para o Futuro» a partir do qual proponho refletirmos.

Rui Vasconcelos, no Suplemento Igreja Viva, da diocese de Braga, em 21 de Novembro de 2013

Refere-nos Häring:
«A questão sobre o futuro das vocações presbiterais pode ser extremamente dolorosa se a discussão se centrar apenas na escassez de padres, sem prestar a atenção essencial aos sinais dos tempos e à vocação fundamental de todos os cristãos. Tal perspetiva é muito estreita, até prejudicial à missão da Igreja. Deste modo, insisto que devemos dirigir um novo olhar à vocação fundamental de todos os cristãos». E continua: «A diferença entre aqueles que convicta e conscientemente vivem o exemplo do batismo de Jesus no Jordão no espírito e no sangue e, por outro lado, aqueles “católicos de berço” que são mais ou menos seguidores passivos é muito mais relevante do que a diferença entre o sacerdócio ministerial e o sacerdócio universal.»

A necessidade de reconhecer e valorizar a vocação batismal de todos os cristãos fornece a chave para uma renovação dos ministérios na Igreja; nesse sentido constata Häring: «Nunca na história da Igreja houve um tão grande número de homens e mulheres preparados e qualificados ao nível teológico. No tempo presente, a Igreja tem mais pessoas preparadas do que teve nos dezoito séculos anteriores juntos. Porque devemos então queixar-nos da falta de vocações cristãs na Igreja?»

Ao longo do capítulo podemos ainda ler o seguinte: «Se das nossas celebrações eucarísticas não brota uma força e uma determinação a viver o testemunho radical da justiça, da paz e da não-violência, então deveremos tristemente concluir que demasiadas vocações cristãs, ministeriais e laicais, não são suficientemente autênticas. Para mim, esta é uma preocupação infinitamente maior do que o número de padres celibatários. Quanto mais as nossas preocupações se tornarem estreitas e paroquiais, mais dificilmente nos preocuparemos nas questões mais essenciais e abrangentes.» Deste modo, a questão da vivência do ministério presbiteral deve ser colocada no âmbito mais alargado da renovação pastoral da Igreja e da valorização da vocação batismal de todos os cristãos – vocação ao serviço na comunidade e vocação à construção da Justiça no mundo. De modo nenhum Häring desvaloriza a vocação presbiteral: é a formação de comunidades cristãs adultas que conduzirá necessariamente os presbíteros ao essencial da sua missão, valorizando-os no seu ministério.

O autor, presbítero e religioso, conclui o livro com uma belíssima ação de graças pela sua vida, dedicada à re-descoberta da vocação dos cristãos à liberdade. Uma oração que, espero, todos os presbíteros terão a alegria de pronunciar. «Senhor Jesus Cristo: Ao longo destes cinquenta e seis anos permitiste-me que servisse a milhares de homens que comigo partilham a vocação presbiteral, através do ensino, da direção espiritual, da exortação, e do consolo. Juntos, aprendemos e, espero, continuaremos a aprender como humilde e corajosamente te havemos de seguir, a ti o Servo e Profeta de Yahweh, e como reverenciar e servir a todos os membros do teu povo sacerdotal, por todo o mundo.»

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