O Papa do diálogo inter-religioso


O Papa dos marginalizados, dos rejeitados, dos pobres: ler Compromisso com os marginalizados: o papa entre os pobres de Santo Egídio; claro, Bergoglio é tudo isso, mas seria parcial considerar o Pontificado de Bergoglio “sozinho” neste sentido. As peças do quebra-cabeça que o Papa criou em frente ao diálogo inter-religioso são cada vez mais significativas e, em alguns casos, surpreendentes.

Francesco Peloso, em Vatican Insider, 19-01-2016. Tradução de Evlyn Louise Zilch.

Depois da Sinagoga de Roma: ler Enquanto Francisco visita sinagoga de Roma, seis questões tencionam os laços católico-judaicos, o Papa deverá em breve visitar a Grande Mesquita de Roma: ler O Papa recebe o convite oficial para visitar a Grande Mesquita de Roma; ele vai tornar-se o primeiro pontífice a visitar o templo.

O gesto acontecerá no contexto do Jubileu da Misericórdia e adquirirá um significado muito importante, porque converterá Roma na capital pacífica das três grandes religiões monoteístas, a cidade de convivência inter-religiosa possível e praticada.

Além disso, é preciso lembrar que a mesquita de Roma, a maior da Europa, é por tradição sunita e que a Arábia Saudita promoveu sua construção. E a maior parte das comunidades de imigrantes ou cidadãos muçulmanos que chegaram à Itália buscando trabalho e paz, fugindo da guerra ou da pobreza, segue a tradição sunita.

O Jubileu e o diálogo com o judaísmo e o islamismo

O diálogo inter-religioso forma parte do “programa” jubilar. Na Bula Papal, afirma-se que “a misericórdia tem um valor que ultrapassa os limites da Igreja. Ela nos relaciona com o judaísmo e o islamismo, que a consideram um dos atributos mais qualificadores de Deus”. “Israel antes de todos – prossegue o texto – recebeu esta revelação, que permanece na história como o início de uma riqueza incomensurável a oferecer à toda humanidade. Como temos visto, as páginas do Antigo Testamento estão entrelaçadas de misericórdia porque narram as obras que o Senhor realizou por seu povo nos momentos mais difíceis da sua história.”

E depois acrescenta: “O Islão, por sua parte, entre os nomes que atribui ao Criador está o de Misericordioso e Clemente. Esta invocação aparece com frequência nos lábios dos fiéis muçulmanos, que se sentem acompanhados e sustentados pela misericórdia em sua debilidade diária. Eles também acreditam que ninguém pode limitar a misericórdia divina porque as suas portas estão sempre abertas.”

Ali nasce justamente um desejo que está começando a tomar forma: “Que este Ano Jubilar na misericórdia possa favorecer o encontro com estas religiões e com as outras nobres tradições religiosas; que nos torne mais abertos ao diálogo para conhecermos e compreendermos melhor uns aos outros; que elimine todas as formas de impasse e desprezo, e que afaste qualquer forma de violência e discriminação.”

Rohani visita o Papa

No dia 26 de janeiro, Francisco receberá no Vaticano o presidente do Irão, Hassan Rohani. Será mais um evento de grande importância, um ato diplomático e polaco de primeira ordem, mas sem esquecer que o Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso sempre manteve durante estes anos uma linha de diálogo em nível teológico com Teerã, capital do Islão xiita, e às vezes a teologia e a diplomacia seguem os mesmos caminhos.

Tendo em conta o papel de ator protagonista que o Irão assumiu na crise no Oriente Médio, principalmente no Iraque, na Síria e na Terra Santa, e também a nova fase em que se encontram as relações económicas e policiais entre Teerão e as capitais ocidentais, pode-se compreender o quão significativa será esta reunião no Vaticano.

E tampouco devemos esquecer que a Santa Sé apoiou as negociações sobre a energia nuclear entre os Estados Unidos e o Irão, que concluíram de forma positiva e cuja consequência resultou no fim das sanções económicas impostas ao Irão, fato que já está tendo repercussões na economia global.

Bangui, Istambul e Sarajevo

Também temos que ressaltar que o papa, além da eventual visita à mesquita de Roma, já esteve, em novembro do ano passado, na mesquita de Bangui, na República Centro-Africanana. Nessa ocasião a comunidade e as autoridades islâmicas locais o agradeceram pela mensagem de paz e esperança que ofereceu com seu gesto em um país abalado por conflitos internos também alimentados pelas diferenças religiosas, para disfarçar a clássica luta de poder e controle dos recursos naturais do território. Como também aconteceu com Bento XVI, Bergoglio visitou a Mesquita Azul de Istambul (em 2014), outro centro importante do islamismo sunita (em 2001 João Paulo II visitou a mesquita em Damasco, na Síria).

Francisco voltou a impulsionar o diálogo teológico entre as três grandes religiões do Livro: em primeiro lugar com o judaísmo, como ele mesmo disse durante sua visita à sinagoga de Roma, no domingo 17 de janeiro.

Os motivos são complexos e muito simples ao mesmo tempo: em um discurso que tocou nas raízes comuns das três religiões monoteístas do Mediterrâneo, o sentido profundo da fé em um Deus da vida, segundo a expressão que utilizou o Papa no Grande Templo de Roma, contrapõe-se à religião transformada em um instrumento de morte, na ideologia fundamentalista; Bergoglio promove, assim, uma divisão entre a fé e o poder, entre o Deus do amor e o fundamentalismo que usa a religião para justificar violências inéditas ou para construir muros no coração da Europa.

Uma reflexão deste tipo começou graças ao João Paulo II, mas na atualidade a questão é crucial para afrontar os conflitos compatriotas. Não é por acaso que o Papa visitou a Terra Santa, assim como a Turquia e Sarajevo; todas elas etapas fundamentais de uma viagem pelo coração dos territórios que têm uma pluralidade de culturas, religiões e tradições espirituais, e cujo equilíbrio sempre corre grandes riscos devido às guerras ou à vontade de padronizar cada uma destas realidades. Um pouco o oposto do mundo poliédrico imaginado por Bergoglio, em que as diferenças são uma riqueza e uma oportunidade de colaborar e crescer juntos.




Comentários