O Rev. William Wipfler mostra a imagem de seu último encontro com Monsenhor Romero 23 de março de 1980, na véspera do assassinato
Na qualidade de diretor do Escritório de Direitos Humanos do Conselho Nacional das Igrejas, entre 1977 e 1988, o anglicano Wipfler encontrava-se em El Salvador no dia 23 de março, véspera do assassinato do arcebispo D. Óscar Romero. Eis o seu relato das últimas horas do beato salvadorenho, onde ele próprio experimentará um gesto sublime de ecumenismo.
Alver Metalli (de Buenos Aires), em Vatican Insider News | 20/01/2016
Tradução: Orlando F. R. Almeida
O assassinato do padre Rutilio Grande marca também profundamente a “conversão” da visão ecuménica de monsenhor Romero que até então se mantivera dentro das rígidas fórmulas doutrinárias do tradicionalismo do seu tempo quanto às relações com o mundo protestante, que em El Salvador, é oportuno esclarecer, tinha o rosto agressivo das seitas pentecostais.
Os biógrafos de Romero mostram como também foram amadurecendo a partir daquele momento as posições ecuménicas de Romero, e como elas estavam centradas antes de mais nada em relações de amizade pessoal com expoentes de outras denominações próximas ou mais afastadas do catolicismo.
A este respeito há uma parte pouco conhecida dos últimos dias de monsenhor Romero. Um fragmento de tempo que agora o blogue Super Martyrio acrescenta por meio dos apontamentos de um interlocutor “ecuménico” do arcebispo de San Salvador, o sacerdote anglicano William Wipfler.
Na qualidade de Diretor do Escritório de Direitos Humanos do Conselho Nacional das Igrejas entre 1977 e 1988, Wipfler encontrava-se em El Salvador, no dia 23 de março, véspera do assassinato do arcebispo.
O relacionamento dele com Romero havia começado um tempo antes por correspondência, logo após a sua nomeação como arcebispo de San Salvador em fevereiro de 1977. Naquela época Wipfler recebeu de uma de suas fontes em El Salvador um relatório alarmado sobre o novo titular da máxima cátedra do país, descrito como conservador e nada inclinado a relações inter-religiosas.
A mesma fonte, no entanto, reviu as suas avaliações anteriores após o assassinato de Rutilio Grande, observando as reações de Romero ao trágico evento. Em um novo relatório, o informante Wipfler declarou-se “confiante de que a causa dos pobres não perdeu seu defensor”.
É nesta altura que o expoente anglicano escreve a Romero uma carta na qual expressa as suas condolências pela morte de padre Grande e lhe oferece o apoio do Conselho Nacional das Igrejas.
Um mês depois Wipfler recebe uma carta de agradecimento escrita à mão por Romero que termina com um convite a visitá-lo. A visita acontecerá pouco depois da troca epistolar que Carlos Colorado, diretor de “Super Martyrio”, traz ao nosso conhecimento. A relação Wipfler-Romero continua à distância, enquanto também se repetem as visitas. Até a última, na semana fatídica do assassinato de Romero.
Wipfler – escreve Colorado – chegou a San Salvador no dia 21 de março de 1980, integrando uma delegação de líderes religiosos que representavam 34 Igrejas protestantes e ortodoxas, com a presença também de um sacerdote católico. No sábado, dia 22, o grupo reuniu-se com colaboradores do arcebispo nos escritórios de “Socorro jurídico” e logo depois com o próprio Romero.
“O arcebispo foi cordial e acolhedor, e expressou sua satisfação com a ampla composição do grupo. Depois começou a esboçar em termos enérgicos a espiral rumo à “barbárie” em que se encontrava o seu País. Descreveu para eles as torturas de presos políticos, como cortar os dedos, lançar ácido no rosto, jogando depois os corpos nus na rua depois de torturados e assassinados, e outros indicadores preocupantes de uma sociedade cuja moral estava sendo despedaçada. Romero pediu ao padre católico do grupo que fosse celebrar a missa com ele no dia seguinte, e convidou os outros a assistirem”.
No domingo, 23 de março, o grupo ecuménico participa da missa na catedral de San Salvador, onde hoje está o túmulo de Romero. Chega às 8. Wipfler anota que a grande maioria dos que assistiam, “um par de miles de personas en la iglesia” (“um par de milhares de pessoas na igreja”, ndr), estava de pé. A delegação ecuménica tomou lugar perto do altar.
“Outras pessoas se reuniam na rua, onde trabalhadores estavam instalando alto-falantes para que as pessoas que não podiam entrar no templo pudessem ouvir o sermão Romero, a principal atração no domingo no El Salvador daqueles anos”.
Romero reconhece o grupo ecuménico entre a multidão, cumprimenta-os, fala deles aos fiéis que acorreram para a missa e pede um aplauso para os visitantes, que será estrondoso. “Então Romero começa o sermão com a sua habitual fórmula homilética” – registra o anglicano Wipfler. “Começou a falar sobre as leituras bíblicas do dia. Foi uma “maravillosa presentación sobre el Éxodo [bíblico] y el regreso” (“maravilhosa apresentação sobre o êxodo l [bíblico] e o retorno”, ndr), bem como do êxodo de El Salvador ” – lembra Wipfler.
Depois Romero analisou os acontecimentos na vida da Igreja e na vida nacional – a parte que Wipfler chama de “el catálogo.” Era uma ladainha “de violações de direitos humanos, com algumas considerações sobre a exigência moral ou ética de uma resposta cristã explícita nesta situação”. Era um “uso brilhante das leituras bíblicas do dia aplicadas à situação contemporânea” – observa Wipfler. “Creio que todo o pregador gostaria de ter esta capacidade de poder dizer: vejam, aqui está esta escritura de 2 mil anos atrás, e está se referindo a este exato momento”.
Romero tinha a capacidade de manter os fiéis “pendientes de cada palabra” (“pendentes de cada palavra”, ndr). Falando da situação nacional “le dió a las dos partes” (“bateu nos dois lados”, ndr) – refere Wipfler – indicando que não deixou de fora de suas críticas os guerrilheiros, denunciando um episódio em que “os rebeldes tinham surrado brutalmente um policial”.
No fim do discurso foi peremptório. Depois de ter exposto a lista das barbáries da semana, com execuções extrajudiciais do exército, Romero disse que se os soldados recebiam ordens de matar civis inocentes, deviam desobedecer porque “nenhum soldado é obrigado a obedecer a uma ordem que vai contra a lei de Deus”. Para contrapor-se a ordens deste tipo, Romero deu ele mesmo uma diretiva: “Em nome de Deus, e em nome deste povo sofredor, cujos gritos se elevam ao céu cada dia mais tumultuosos, eu vos suplico, vos imploro, vos ordeno em nome de Deus: cesse a repressão!”
A Basílica – anota Wipfler – explodiu num aplauso que durou quase meio minuto, a ovação mais longa que Romero tinha recebido durante o sermão, interrompido por aplausos 21 vezes.
Wipfler relata um detalhe emblemático da atitude de Romero.
“Surpreendeu-me o fato de que Romero fosse o único a dar a comunhão, diferentemente de outras situações em que há uma grande afluência e a comunhão é distribuída por vários sacerdotes para evitar demasiada barafunda na frente do altar”.
Depois continua: “Ele deu a comunhão a todos na igreja; demorou mais de meia hora”. Era como se Romero compreendesse que as pessoas vinham para vê-lo, algumas percorrendo grandes distâncias até à capital para estar ali. “Creio que muitos deles se sentiriam defraudados se fosse alguma outra pessoa” – registra Wipfler.
Mas há um fato ainda mais significativo que é revelado por “Super Martyrio” nas linhas seguintes
“Não sendo um católico, Wipfler achou que não poderia receber a comunhão, de acordo com as normas da Igreja, por isso usou esse tempo para ajoelhar-se em oração com os olhos fechados, enquanto Romero distribuía a Eucaristia. A um certo ponto, ouviu a voz de Romero:“Gostaria de receber a comunhão, Padre?”.
Romero tinha andado por toda a igreja para distribuir a comunhão em vários pontos e tinha chegado aonde estava Wipfler. “Respondi que sim. E deu-me a comunhão. Isso me comoveu muito. Foi um gesto incrível “ – comenta Wipfler.
No dia seguinte, 24 de março de 1980, Romero será assassinado.

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