Moisés viu a sarça ardente e ouviu a voz de Deus, mas, mesmo assim, teve de exercer seu ministério com muito sofrimento. Jesus reconhece não ter tido sucesso: a figueira não deu frutos. Mas, assim como o vinhateiro da parábola, o Senhor não se desencoraja. Está repleto de uma fonte inesgotável de confiança. Seu amor queima sem se consumir.
Reflexão de P.e Marcel Domergue, jesuíta francês, publicada no sítio Croire
3.º Domingo da Quaresma, do Ciclo C, referências bíblicas:
1.ª leitura: “'Eu sou’ enviou-me a vós” (Ex 3,1-8.13-15).
R/ O Senhor é bondoso e compassivo (Sl 102(103).
2.ª leitura: Relata a vida de Moisés e do povo no deserto para nos instruir (1 Cor 10,1-6.10-12).
Evangelho: “Se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo” (Lc 13,1-9).
Nas mãos de Deus
Não, os mortos na queda das torres g´rmeas de Nova Iorque não eram mais pecadores do que os outros, nem as vítimas dos terremotos e inundações ou dos bombardeamentos no Iraque ou na Síria... A morte está sempre por perto, chegando de improviso ou ao final de intermináveis agonias. A cegueira do cego de nascença, em João 9, não se devia a nenhum pecado, nem dele nem dos seus pais.
A ideia do sofrimento como punição divina é tão antiga como a humanidade. A Bíblia assume este fato e o faz passar por um tratamento que só dará frutos de verdade na hora da Paixão e Ressurreição de Cristo. É quando ficamos sabendo que Deus deixa que os homens crucifiquem Jesus sem que legiões de anjos o impeçam; que Ele se põe à mercê das nossas vontades e paixões.
Em resposta às surpresas que a Bíblia nos traz, o livro de Jó testemunha uma das mais significativas: como se dá que os justos tenham a mesma sorte que os culpados? É sempre difícil libertarmo-nos da imagem de um Deus intervencionista, que é quem decide tudo e que provoca tudo o que acontece em nossas vidas.
Deus, por certo, não está ausente, está sempre "connosco". Mas simplesmente para compartilhar o que temos de atravessar, para que todas as coisas resultem para nós em vida e em glória. Deus se põe em nossas mãos, mas é finalmente para nos tomar nas suas.
Da Lei ao amor
Mas, então, o que significa a inquietante fórmula de Jesus: "Se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo"? Todos, tanto os mais como os menos pecadores: digamos que os injustos e os justos. Até mesmo os justos, então, devem também se converter? Poderíamos responder que ninguém é verdadeiramente justo. Paulo repete que todos os homens são pecadores.
João, em suas cartas, diz que quem se pretende sem pecado é mentiroso ou, pelo menos, inconsciente. Não creio ser necessário ir mais longe: ainda supondo que um homem fosse totalmente justo, mesmo assim seria preciso que se convertesse. Não a qualquer coisa, como, por exemplo, a melhores práticas, mas a Alguém.
Converter-se é "voltar-se para". Para aquele que vem ao nosso encontro. Pôr o Cristo no centro de nossas vidas, sem esquecer que ele vem ao nosso encontro através de todo homem. Resumindo, trata-se de passar da Lei ao amor. Ao longo das suas cartas, Paulo explica que não podemos nos salvar pelas obras conforme a Lei, mas somente pela fé em Cristo.
Pôr a sua fé em Cristo é sair de si para voltar-se para o Outro. E assim direcionados, somos na verdade "justificados", tornados justos. Mas então a palavra justiça muda de sentido: designa uma conformidade com o próprio Deus, que é amor. Só não morre quem se torna "participante da natureza divina". Paradoxo: não somos justificados e "salvos" pela busca de nossa própria perfeição, mas pela busca do "Outro".
A árvore e o fruto
Quer sejam as vítimas de Siloé ou os idosos que morrem em seu leito, somos todos “da mesma maneira” destinados à morte: santos ou pecadores. A Boa Nova consiste nisto: mesmo normalmente destinados à morte, somos finalmente destinados à vida. Podemos crer ou não nisto, mas esta fé nos liberta do fardo de nós mesmos, o que já é um critério de verdade.
Crer na vida faz-nos sair de nós mesmos para que demos frutos. Com efeito, o fruto é algo que é chamado a deixar a árvore, é uma oferenda ao futuro, ao seu próprio futuro de árvore, mas multiplicando-se em expansão da vida. Encontramos aqui este impulso para fora de nós mesmos, o único que nos justifica e nos salva da morte.
Por seu fruto, a árvore desapropria-se de si mesma, mas garante a sua perenidade. Podemos ler nesta ótica a parábola da figueira estéril. Não vamos imaginar qualquer sanção divina contra a árvore sem frutos. Esta árvore, na realidade, já está morta. Resta-lhe, no entanto, uma chance: o trabalho do "jardineiro". “Jardineiro” que é o próprio Deus que, em Cristo e por Cristo, está em trabalho.
Estende a sua mão para nós, em nosso naufrágio: e agarrá-la ou ignorá-la vai depender da nossa liberdade. Deus está à nossa disposição para nos dar fecundidade. "Meu Pai é glorificado", diz Jesus em São João, "quando produzis muitos frutos" (15,8). O fruto é que salva a árvore.

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