«A diplomacia de Francisco. A misericórdia como processopolítico» é o título de um longo artigo do padre Antonio Spadaro no último
número da revista La Civiltà Cattolica.
Em entrevista a Alessandro Gisotti, da Rádio vaticana, o diretor da revista dos jesuítas aborda o papel da misericórdia na geopolítica do Papa Francisco.
Num momento em que se
vivem grandes contraposições, até mesmo muito profundas, você escreve que
olhando, justamente, para o Papa Francisco, vê-se que "a misericórdia
desmonta a máquina narrativa dos fundamentalismos".
Sim. De fato, o Papa Francisco, diante das tragédias dos
atentados de Paris, mas também da Shoá, como vimos na sua viagem à Terra Santa,
diante de tudo isso, nasce a perturbação, não a inclinação. Ele quer desmontar
por dentro, certamente, as máquinas narrativas do chamado Estado Islâmico, mas
certamente também de posições que existem dentro da Igreja e que gostariam de
iniciar "guerras santas". O papa nunca fala de guerra, ele fala de
terrorismo: o fundamentalismo é um câncer da religião, não é expressão da
religião.
Você também tentar
buscar e encontrar as raízes da visão bergogliana, e emergem daí algumas
figuras: algumas que conhecemos, conhecidas na vivência de Francisco, como o
Bem-aventurado Fabro e Dostoiévski, mas também outras personalidades, talvez
menos conhecidas do grande público.
É interessante e fascinante entrar no mundo bergogliano das
referências, das leituras e dos aprofundamentos. A visão diplomática de
Bergoglio se formou através de fontes não habituais: escritos místicos,
escritos literários e escritos de um teólogo como Przywara, que foi mestre de
Hans Urs von Balthasar. Fabro certamente vê o mundo como um lugar em que é
preciso rezar por todos, portanto, indiferentemente por todos aqueles que
também estão envolvidos em lutas políticas. Dostoiévski desequilibra a lógica
das inclinações: para ele, como escreve em Memórias do subsolo, 2 + 2 pode ser
5, e, portanto, requer uma lógica muito flexível, muito dinâmica, não rígida.
Certamente, Przywara é uma figura talvez pouco conhecida na Itália, mas muito
importante para compreender o Papa Francisco: ele postula o fim da era
constantiniana, rejeitando radicalmente a ideia da implementação do Reino de
Deus na terra, que, aliás, era a base do Sacro Império Romano e, portanto,
todas as formas políticas e institucionais semelhantes ou relacionadas com o
Sacro Império Romano, até mesmo em termos de partido e, portanto, de políticas
católicas. A Igreja deve ser em saída: essa é a chave de leitura.
A misericórdia, ato
político por excelência: aqui você também encontra no P.e Tonino Bello quase um
precursor, em alguns aspetos, daquilo que vemos agora com o Papa Francisco.
Sim, porque o P.e Tonino Bello, como o Papa Francisco, mas
também muitos outros, na realidade, não distinguem de maneira clara a sacristia
ou o templo daquilo que é o compromisso. Há um serviço político que expressa
uma caridade profunda: também disseram isso os papas, e Papa Francisco repetiu
isso. A sua abordagem à paz, porém, não é uma abordagem pacifista: a paz, para
Bergoglio, significa agir nos quadrantes mais delicados da política
internacional, mas em nome dos descartados, dos mais fracos. O Papa Francisco
se concentra nisso e se dá conta de como as tensões do mundo nascem porque há
desequilíbrios, desequilíbrios também e acima de tudo de caráter económico.
Portanto, todas as iniciativas de paz dessa dramática "terceira guerra
mundial em pedaços" deve, ser ligadas aos tempos sociais que preocupam o
papa, porque o papa está muito atento aos descartados.

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