Carta do 3.º Domingo de Quaresma, por Alice Vieira, escritora: «Por sacrifício, nunca; por vontade e gosto, sempre»


A tia que me criou na infância fazia tudo por sacrifício. Até gostar de alguém era um sacrifício.
Talvez por isso, desde muito cedo eu tenha decidido que, nunca na minha vida, mas nunca por nunca, eu havia de fazer o que quer que fosse por sacrifício.
Por vontade, sempre. Por gosto, sempre.
E, sobretudo, sempre por alegria  e aí devo confessar o quanto devo à minha querida Irmã Cecília d’Orey, que até hoje (e já para lá dos 80 anos) não se cansa de repetir: “Tudo o que me dá prazer e alegria é sempre para glória de Deus!”

Alice Vieira, em Cristo Jovem | na iniciativa quaresmal ZAP

N.B.: Para ler as cartas de Quaresma do sitio Cristo Jovem,
aceder a: cristojovem.com/recursos/zap


Gosto desta época da Quaresma.
Lembra-me o tempo em que se abriam todas as janelas da casa e se faziam as grandes limpezas da primavera. Ou, como se dizia, “em que tudo de arejava”.
A altura em que nos desfazíamos de sombras e de tristezas e de ressentimentos e tudo nos dava força para recomeçarmos.

“Toda a nossa vida é feita de recomeços”, diz S. Gregório.
E às vezes é preciso coragem para recomeçar. Para tentarmos renascer e deixar nos longes do passado aquilo que ao passado pertence.
Tal como a natureza que, depois de duros invernos, volta sempre a renascer.

O Padre Tolentino Mendonça chama-nos a atenção para este tempo da Quaresma, em que não podemos ficar agarrados aos nossos invernos, em que temos de ir contra esta absurda civilização do “ter”, em que temos de nos libertar, e “criar um lugar novo sobre as coisas, criando no nosso coração zonas de disponibilidade para o que é essencial, possibilitando assim o exercício do pensamento e do discernimento, melhorando o nosso sentido de humor, e fortalecendo o nosso ser.”
Diz ainda Tolentino Mendonça (no seu livro “Um Deus Que Dança”) que neste tempo devemos sobretudo ser capazes de pedir a Deus: “ajuda-nos a fazer jejum das palavras desnecessárias, ruidosas, poluídas, das palavras que atropelam, das palavras que separam”

Parece-me ser este um caminho para os nossos jovens.
Parar.
Fazer uma pausa neste mundo de ruído que nos segue para toda a parte, neste dia a dia em que tudo se devora e atropela  e tentar olhar em volta, e tentar ouvir o som magnífico do silêncio.

Um dia, fui com a pintora Maria Keil a uma escola. A professora, entusiasmadíssima, contava-nos as inúmeras atividades de todos os meninos, o que faziam, onde iam, a que horas, etc. Até que a Maria, com aquela sua inesquecível voz calmíssima, perguntou apenas: “E quando é que eles ouvem as moscas?”

A professora riu, acho que não entendeu.
Mas é isso que temos de fazer.

Durante algum tempo, largar telemóveis, smartphones, iphones e todas essas maravilhas fatais da nossa idade — e perceber que, à nossa volta, há gente igual a nós, gente que às vezes só precisa de um aceno, de um sorriso, de uma pequena ajuda .

De uma palavra.

“Os meus netos estiveram cá o dia todo — e nem uma vez falaram comigo...” — queixava-se há dias um amigo.

E, para além disso, pararmos também todo o nosso frenesim diário e tentarmos ouvir o som magnífico do silêncio.

Porque só assim conseguimos entrar verdadeiramente dentro de nós, e reflectir, e tentar organizar a nossa vida de maneira diferente.

Um dos tais recomeços, como dizia S. Gregório .

E descobrir que, ao contrário do que normalmente pensamos e afirmamos aos quatro ventos, quando a nossa vida se esvai de correria em correria... temos sempre tempo para tudo.

Comentários

Enviar um comentário