Foto: Notimex
O Papa Francisco
concedeu uma nova entrevista em vídeo a um grupo de mexicanos – por meio da
agência Notimex – com motivo da visita que realizará ao México entre os dias 12
e 17 de fevereiro.
Durante a entrevista, realizada a 2 de fevereiro, o Pontífice fala a respeito de temas importantes para o país e o continente
americano. Entre eles, os motivos que o levam até lá, a importância da Virgem
de Guadalupe, sua devoção a Ela e a violência que afeta o país.
Jorge Armando: Sua Santidade, por que visitará o México? O que deseja levar
ao México?
Papa Francisco:
Sim, vou levar algo ao México, com certeza, mas eu diria que o que mais desejo
é: o que vou procurar no México? Eu não vou ao México como um Rei Mago,
carregado de coisas para levar, mensagens, ideias, soluções aos problemas. Eu
vou ao México como um peregrino, procurando que o povo mexicano me dê alguma
coisa. Estejam tranquilos – brinca – não vou para passar a cestinha, porém vou
buscar a fé que vocês têm, vou para deixar-me contagiar pela riqueza desta fé.
Tenho vontade de ir ao México para viver essa fé com vocês. Ou seja, que vou
com o coração aberto para que seja preenchido de tudo aquilo que vocês podem me
dar. Vocês têm uma idiossincrasia, uma maneira de ser que é fruto de um caminho
muito longo, de uma história que se foi forjada lentamente, com dores, êxitos,
fracassos, com buscas, mas há como um fio condutor. Vocês têm muita riqueza no
coração e, sobre tudo, vocês não são um povo órfão, porque se gloriam de ter
uma Mãe e quando um homem ou uma mulher ou um povo não se esquece de sua Mãe,
se recebe uma riqueza que não se consegue descrever”. E recorda o ditado
popular que diz que “também um mexicano ateu é um guadalupano”. Tinha sentido,
de um povo que não quer ser órfão. Esta é a grande riqueza que eu vou procurar.
Vou como peregrino de vocês e obrigado por me receber!
Julián: Papa Francisco, o que você acha da Virgem de Guadalupe?
Aarón Fonseca: Eu gostaria de saber se a Virgem de Guadalupe é tão
importante e representa muita fé e esperança em todos os mexicanos, o que
representa para si estar na Basílica, o que representa para si nossa
padroeira, a Virgem de Guadalupe?
Papa Francisco:
Estive duas vezes no México. A primeira para um encontro dos jesuítas nos anos
70 e a segunda, vinte anos mais tarde, para uma viagem de João Paulo II, quando
assinou e entregou a Exortação postsinodal Ecclesia in America - não me lembro
qual ano foi, se não me engano foi em 1998. As duas vezes visitei a Nossa
Senhora, a Mãe de Deus. A primeira vez, na Vila velha. A segunda vez, na atual
Basílica. O que sinto por ela? Segurança, ternura. Muitas vezes – confidencia –
“quando tenho medo por algum problema”, “repito a mim mesmo as palavras” da
Virgem a Juan Diego: “Não tenhas medo, não estou aqui, eu que sou a tua mãe? ”
Outra devoção da Virgem possivelmente me inspire outra coisa, mas cada vez que
me coloco diante de sua imagem e olho para ela, com esses olhos, fazendo essa
síntese cultural desse Novo Mundo que está nascendo, esperando o Menino: “Não
tenhas medo, não estou aqui, eu que sou a tua Mãe? ” E não espero tanto o
milagre das flores. Às vezes – prossegue – “me coloco diante de sua imagem e
fico ali olhando para ela”, “sinto que é Mãe, que cuida, que protege, que leva
em frente um povo, uma família”, que te acaricia com ternura e faz desaparecer
o medo: “Não tenha medo Juan Diego”, isto é o que eu sinto diante da imagem. Uma
das duas vezes que a visitei – conta – queriam me explicar a imagem, mas
preferi que não o fizessem, preferi permanecer em silêncio, olhando para ela”.
Esta imagem “diz muito, é uma imagem eloquente, a imagem de uma Mãe que acolhe,
que cuida, que está envolvida com o seu povo”. Isso é o que sinto diante Dela.
Em 2013, precisamente antes de vir a Roma para o Conclave, estava pensando em
mandar construir em Buenos Aires uma igreja dedicada a San Juan Diego, Homem
bom, mas se teve que meter em todo esse mundo de convencer ao bispo e sentiu a
humilhação, pois não acreditavam nele: “Não tenha medo, não estou aqui, eu que
sou a tua Mãe? ”. E ele confiou. O Milagre das flores, só foi possível porque a
Mãe é a grande flor do México. O que pediria é – mas como um favor de vocês
-que nesta terceira visita à terra mexicana, deixem-me rezar sozinho diante da
imagem. É o favor que eu lhes peço.
Óscar: Papa Francisco, como nos ajudaria a enfrentar esta violência pela que passamos aqui?
Papa Francisco:
Violência, corrupção, guerra, crianças que não podem ir à escola, pois seus
países estão em guerra, tráfico, fabricantes de armas que as vendem para que as
guerras possam continuar acontecendo no mundo…: mais ou menos este é o clima
que hoje vivemos no mundo, e vocês estão vivendo seu pedacinho, seu pedacinho
de “guerra” entre aspas, seu pedacinho de sofrimento, de violência, de tráfico
organizado.
Vou ao México para
receber o melhor de vocês e para rezar com vocês, a fim de que os problemas de
violência, de corrupção e tudo o que vocês sabem que está acontecendo, se
solucionem, porque o México da violência, da corrupção, do tráfico de drogas,
não é o México que deseja nossa Mãe, e, é obvio que eu não quero ocultar nada
disso, muito pelo contrário, desejo exortar-vos a lutar a cada dia contra a
corrupção, contra o tráfico, contra a guerra, contra a divisão, o crime
organizado, contra o tráfico de serem humanos.
Parece uma
contradição, mas devemos lutar pela paz todos os dias! É preciso lutar a cada dia
pela paz, não pela guerra. Semear mansidão, entendimento, semear paz. São
Francisco rezava: “Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz”. Queria
ser no México um instrumento de paz, mas com a ajuda de todos vocês. É óbvio
que sozinho não poderei, seria uma loucura se eu dissesse isso, mas com todos
vocês, serei instrumento de paz. E, como trabalhamos pela paz? A paz é um
trabalho artesanal, um trabalho de todos os dias que se amassa com as mãos, que
se percebe “na maneira como educo uma criança ou como acaricio uma criança.
Estas são todas sementes de paz. A paz nasce da ternura, da compreensão”. E
ressalta a importância do diálogo, a palavra chave da paz: diálogo entre os
dirigentes, com o povo e dentro do povo”. Tanto na família como nos bairros –
adverte – é necessário dialogar, ser abertos em falar uns com os outros, ouvir
as razões dos outros, deixar-se corrigir. Mas é possível dialogar com um
delinquente? Podemos dialogar com quem pode transformar o coração deste
delinquente, responde. Francisco exorta ainda a não entrar em tramoias para
ganhar dinheiro, o que me torna escravo por toda a vida, em uma guerra interna
que me tira a liberdade, pois a paz dá a liberdade. Temos a mesma Mãe, falemos
um momento com ela, exorta. Francisco encoraja então a pedir a Virgem de
Guadalupe o dom da paz, “a paz de coração, da família, da cidade, de todo o
país.”
Maria de Lourdes
Mejía: Gostaria de lhe perguntar o que
desejaria de nós e o que espera de nós?
Papa Francisco:
Dizem que a sabedoria fala do coração dos anciões bons idosos. E nos desejos
expressos José Ranulfo assinalou esse desejo de renovação espiritual que
poderia acontecer através da minha visita. E Rubén havia dito, antes, que não
fôssemos cristãos de igreja dentro, católicos de templo e fora do templo. Essas
duas intervenções me impressionaram muito: que nos ajude a ser católicos de
verdade, a expressar e a viver nossa fé dentro e fora do templo. Isso é o que
vocês esperam. E eu vou para vos servir, para ser um servidor de vossa fé,
porque é por este motivo que me tornei sacerdote, para servir, porque senti
esta vocação para servir a vossa fé, a fé do povo. Esta fé - reitera – deve aparecer e colocar-se na vida
de todos os dias, uma fé pública. E a fé se torna forte sobretudo nos momentos
de crise. É verdade – constata – que hoje existe uma crise de fé no mundo, mas
ao mesmo tempo temos uma grande bênção e um grande desejo de que a fé saia, que
a fé se faça missionária, que a fé não seja engarrafada como em uma latinha. A
nossa fé não é uma fé de museu, a Igreja não é um museu, a nossa fé nasce do
contato, do diálogo com Jesus, nosso Salvador e Senhor; é uma fé que deve sair
pelos caminhos, pelos nossos lugares de trabalho, tem que sair no entendimento
com outros, essa fé tem que expressar-se no diálogo, na compreensão, no perdão,
no artesanato cotidiano de combater pela paz e não somente para uma procissão,
deve chegar nos lugares de trabalho, em minha família, nas coisas que faço na
universidade, no colégio. Vocês têm mártires em sua história, que deram sua
vida por seguir este caminho. A fé deve estar em caminho como Jesus.
Se eu perguntasse
para vocês: Em que lugar Jesus passou mais tempo de sua vida? Na rua! Pregando
o Evangelho, dando testemunho. Eu lhes digo: Na vida pública, na vida familiar,
no templo, mas depois saiu dele. Pois a nossa fé nos impulsiona a sair, não
devemos permanecer trancados com o nosso Jesus e não deixá-lo sair, porque
Jesus sai connosco, se nós não saímos, Ele também não sairá. Por isso, devemos
renovar a fé, torná-la “em saída, em caminho, sem medo dos conflitos, mas
procure solucionar os conflitos familiares, escolar, sociais, económicos. A fé
deve ser a minha inspiração para envolver-me com as pessoas e isto comporta
riscos, perigos”. Gostaria de terminar
citando as palavras da Mãe e que através de mim Ela diga a cada um de vocês:
“Não tenham medo de sair, não tenha medo meu filhinho, minha filhinha, não estou
aqui, eu que sou a tua Mãe”.

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