Na estrutura do pontificado do Papa Francisco – conforme já se disse várias vezes –, a liturgia tem um lugar, não de um “discurso direto”, mas de uma “prática indireta”. Isso porque o papa é um “filho do Concílio”, o que ele incorpora de modo flexível e concreto.
Andrea Grillo, teólogo italiano,
professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua,
em artigo publicado por Blog Pray Tell, 09-02-2016. Tradução de Isaque Gomes Correa, Unisinos
Nas suas missas na Casa Santa Marta, nas suas audiências gerais às quartas-feiras e nas suas homilias de domingo, bem como nos seus principais discursos e medidas litúrgicas específicas (por exemplo, a modificação das rubricas para o Lava-pés da Quinta-Feira Santa), fica claro que Francisco celebra a liturgia com “a alegria do Evangelho”.
E há mais: o texto “programático” de Francisco, Evangelii Gaudium, apresenta uma visão eclesial de uma Igreja em missão – como um “hospital de campanha” – de um modo que atrai uma renovada atenção à relação entre liturgia e vida, e entre liturgia e cultura. Essa visão se manifesta na intenção do papa em descentralizar o poder curial, confiando uma competência aos episcopados regionais que é até mesmo doutrinal em seu caráter. A apropriação de uma tal descentralização dentro do ensino da própria Evangelii Gaudium já é algo altamente significativo.
Tudo isso está em contrariedade fundamental com o que tem vem acontecendo na área da liturgia dos últimos 15 anos, desde a promulgação da Quinta Instrução “Para a correta implementação da Constituição sobre a Sagrada Liturgia”, Liturgiam Authenticam (2001). Esse documento estagnou com eficácia no nível universal todo o esforço na inculturação autêntica da liturgia.
A Liturgiam Authenticam convidou a uma reconstrução universal da liturgia baseada em seu protótipo latino – inevitavelmente estático e fechado – favorecendo uma tradição obstinada e escolasticamente literal e fingindo que as línguas vernáculas carregam a mesma estrutura e os mesmos elementos retóricos que o latim. Ele tem sido, desde o início, um projeto que carece de qualquer fundamentação sólida, não só na simples experiência humana, mas também na tradição da Igreja.
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Depois de um reinado conturbado de quinze anos, a Liturgiam Authenticam chegou ao final da linha. Ele não só tem críticas legítimas feitas desde o começo, seja do ponto de vista doutrinal, seja do ponto de vista pastoral, mas também os fatos o demonstraram ser, ao longo dos anos, simultaneamente falho na teoria e praticamente inaplicável na prática.
Os bispos hoje, ao redor do mundo, encontram-se numa situação difícil: eles querem continuar a “obedecer o que vem de Roma”, é claro; mas também querem e devem servir à fé das pessoas. Eles sabem muito bem que a obediência em Roma significa produzir textos inutilizáveis. Mas também sabem que promover um verdadeiro crescimento de suas igrejas significa que precisam se desviar substancialmente dos “critérios romanos”. A única solução possível é “parar tudo”. Não pedir nada a Roma, a fim de evitar tropeçar num processo de controle central distorcido, pelo medo de que a evolução venha a se tornar uma involução e de que a obediência venha gerar ainda mais confusão, encorajando apenas os espíritos mais sectários.
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O documento Evangelii Gaudium visualiza uma Igreja em missão, capaz de uma liturgia autêntica. Mas não pode haver uma liturgia autêntica até que rejeitemos a postura sem vida e defensiva do Liturgiam Authenticam, que somente nos dará uma Igreja fechada e trancada em seu próprio passado, onde a liturgia se torna um “museu diocesano”, com ar-condicionado e vidros à prova de balas.
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Creio que uma redescoberta da nossa “vocação à alegria” só pode acontecer se essa congregação for capaz de adotar, finalmente, uma nova instrução. Muito tempo e energia já foram gastos ao longo dos últimos quinze anos em esforços para se evitar aplicar princípios que são inaplicáveis, tanto em teoria como na prática.
No estágio atual da nossa história, não precisamos de lamentações litúrgicas; precisamos de canções à alegria. Sei que muitos especialistas, teólogos e pastores estariam prontos e dispostos a colaborar na preparação de uma instrução que traduza a Evangelii Gaudium em orientações práticas para uma área tão importante como a liturgia.
Em resumo, precisamos de um texto que ponha em prática a Sacrae Liturgiae Gaudium! E precisamos pôr um fim a essas contorções disciplinares e institucionais que apenas resultam em paralisia e perda de tempo, e que não se baseiam na alegria, mas no medo; elas não se fundamentam na esperança, mas na resignação.
Em vez de criarmos “irrealidades” – como línguas artificiais baseadas no latim que não existe e que jamais existirá, mesmo por decreto de uma congregação romana –, ouçamos o convite a dar primazia à realidade, a verdadeiramente darmos um passo para o lado de fora dos muros que construímos ao nosso redor, a respirarmos um ar puro, falar línguas vivas, estarmos entre os nossos irmãos e irmãs, inalar o cheiro: escrevamos, agora, uma nova instrução. Essa é a única maneira em que seremos capazes de restaurar um pouco de senso comum.

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