A mulher que ensinou o Papa Francisco a rezar

Passava pouco do meio-dia. Rosa Vassallo Bergoglio, de 45 anos, aguardava, de pé, segurando uma mala, entre outros 877 passageiros, o desembarque do transatlântico Giulio Cesare em Buenos Aires, na Argentina. A italiana, pequena, de cabelos e olhos castanhos, grandes, sobressaía entre a multidão. Vestia um casaco comprido, com uma gola de pele de raposa. Parecia indiferente ao calor. Não estava, mas não tinha alternativa – no forro da peliça escondia as poupanças de uma vida. 
Ia começar o ano 1929 num país novo. Ela e o marido, Giovanni, queriam para o filho, Mario, então com 21 anos, um futuro sereno e abastado. Parecia possível: os três irmãos de Giovanni criaram, na cidade de Paraná, uma empresa de pavimentação. Até já tinham comprado um bloco residencial – o único com elevador na cidade. 

Joana Carvalho Fernandes, revista SÀBADO

Daí a sete anos, nasceria o primeiro neto de Rosa, Jorge Mario Bergoglio, de quem ela seria madrinha. Acabaria eleito Papa, em 2013. Em parte, por culpa da avó. Ensinou-o a rezar, contou-lhe histórias de santos, levou-o a procissões. O primeiro livro sobre a história da mulher que transmitiu a fé a Francisco – Rosa dos Dois Mundos, da jornalista Lucia Capuzzi – foi editado em português, pela Paulinas Editora, em 2015. [Rosa dos Dois Mundos]


Começar do zero, várias vezes 
A vida de Rosa recomeçou do zero diversas vezes. Muito antes do desembarque na América do Sul, com 8 anos, esta filha de camponeses mudou-se para casa de uma tia em Turim, para poder estudar, a conselho do padre da aldeia, impressionado pela inteligência e pela perspicácia da miúda. Em casa, em Piana Crixia, no Norte de Itália, Rosina e os irmãos chegaram a passar fome. 

Mesmo com a ajuda dos tios, e apesar de ser boa aluna, deixou de estudar aos 12 anos e foi aprender costura. Casou-se aos 23. Depois, suportou a morte de seis filhos recém-nascidos. O único sobrevivente, o pai do Papa Francisco, morreria aos 53 anos, de ataque cardíaco. 

Em Asti, para onde se mudou quando casou, entrou na elitista Acção Católica. Aí aprendeu um pouco de francês (espanhol só na Argentina, e sempre com pronúncia italiana) e tornou-se uma apreciada – e destemida – conferencista. Uma vez, a polícia política fechou a sala onde ia falar. Rosa subiu a uma mesa e discursou na rua. 

Quando a doença lhe tirou a lucidez, só reconhecia o neto mais velho. Morreu ao seu lado, com 90 anos. Em testamento, deixou apenas palavras. O Papa Francisco tem-nas no seu breviário. Afirma que são uma oração.

As frases de Rosa 
Nas homilias, Francisco repete ensinamentos da avó 
Numa missa de domingo, na Praça de São Pedro, em Roma, reflectindo sobre a ganância, o Papa Francisco lembrou que a avó dizia aos netos que as mortalhas não têm bolsos, para explicar que não faz sentido dedicar a vida a trabalhar para acumular bens materiais. 

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