O Dr. Shigeaki
Hinohara, do Japão, tem 104 anos. É um dos médicos e educadores mais idosos do mundo ainda a exercer a sua profissão. Desde 1941, trabalha no Hospital Internacional São Lucas, em Tóquio, e leciona na Faculdade de Enfermagem São Lucas.
Os seus conselhos para uma vida longa e
saudável, reunidos nos 15 livros publicados desde que completou
75 anos, são:
A energia vem do nosso bem-estar, e não de
comer bem ou dormir muito. Todos nós nos lembramos de quando éramos crianças,
quando estávamos nos divertindo, muitas vezes esquecíamos de comer ou de
dormir. Eu acredito que podemos conservar essa mesma atitude depois de adultos.
É melhor não cansar o corpo com tantas regras, como horário para comer e
dormir.
Todas as pessoas que vivem muito, independentemente
de nacionalidade, etnia ou género, têm uma coisa em comum: não estão acima do
peso. No café da manhã, eu bebo café, um copo de leite e um pouco de suco de
laranja com uma colher de sopa de azeite de oliva diluído. O azeite de oliva é
excelente para as artérias e mantém a pele saudável. O almoço é leite e alguns
biscoitos. Ou nada, se eu estiver muito ocupado para comer. Eu nunca sinto fome
porque fico muito focado no trabalho. Para o jantar, como verduras, um pouco de
peixe e arroz e, duas vezes por semana, 100 gramas de carne magra.
Planear sempre. A minha agenda já está lotada por três anos, com palestras e o meu trabalho normal no hospital. Em 2016, vou divertir-me um pouco. E quero assistir às Olimpíadas de Tóquio 2020!
Não existe necessidade de se aposentar.
Porém, se houver, deve ser muito depois dos 65 anos. Hoje,
no Japão, há 36 mil homens e mulheres com mais de 100 anos. Dentro de 20 anos, teremos cerca de 50 000 pessoas centenárias.
Partilhem o que sabem. Eu dou 150
palestras por ano, algumas para 100 crianças do Ensino Básico, outras para 4500
executivos. Eu normalmente falo durante 60 a 90 minutos em pé, para manter-me
forte.
Quando um médico lhe recomendar certos
exames ou cirurgias, pergunte-lhe se ele faria a mesma sugestão ao seu cônjuge
ou a um filho dele. Ao contrário do que se pensa, médicos não conseguem curar
todo o mundo. Então, porquê causar dores desnecessárias com cirurgias?
Acredito que música e terapia com animais ajudam bem mais do que muitos colegas
meus imaginam.
Para manter-se saudável, prefira sempre as
escadas e carregue você mesmo as suas coisas. Eu subo escadas de dois em dois degraus para manter meus
músculos em forma.
Minha inspiração é o poema Abt Vogler, de Robert Browning, que meu pai costumava ler para mim. Ele nos encoraja a fazer da vida uma arte com excelência, não gatafunhos. Diz para tentarmos desenhar um
círculo tão grande que não haja como terminá-lo enquanto vivermos. Tudo o que
vemos é um arco, o resto está além da vista, mas está lá, na distância.
A dor é algo misterioso, e divertir-se é a
melhor maneira de esquecê-la. Se uma criança tem dor de dente e você começar a
brincar com ela, ela imediatamente esquecerá a dor. Os hospitais devem atender
às necessidades básicas dos pacientes: todos nós queremos nos divertir. No
Hospital São Lucas, temos música, terapia com animais e aulas de arte.
Não tenha como objetivo acumular coisas
materiais. Lembre-se que você não sabe quando será chamado o seu número, e você
não pode levar nada junto para o seu próximo destino.
Hospitais devem ser projetados e estar preparados
para grandes desastres, e devem acolher todos os pacientes que baterem às suas
portas. O São Lucas foi concebido de forma que possa ser utilizado em todas as
áreas. Podemos prestar socorro no porão, nos corredores, e na capela. A maioria
das pessoas pensou que eu estava maluco ao preparar o local para catástrofes
porém, em 20 de março de 1995, infelizmente, eu provei que estava certo. Foi
quando membros do grupo fanático religioso Aum Shinrikyu realizou um ataque
terrorista no metro de Tóquio. Nós recebemos 740 vítimas e, em duas horas,
compreendemos que tinham sido intoxicadas com gás Sarin. Lamentavelmente, uma
das vítimas não resistiu, mas salvamos 739 vidas.
A ciência, sozinha, não é capaz de curar e
ajudar as pessoas. Ela nos coloca todos juntos, porém, a doença é algo
individual. Cada pessoa é única, e as enfermidades estão ligadas aos seus
corações. Para conhecer as doenças e poder ajudar as pessoas, necessitamos das
artes liberais e visuais, e não apenas das artes médicas.
A vida é cheia de incidentes. Em 31 de março
de 1970, quando tinha 59 anos, embarquei no Yodogo, um voo de Tóquio para
Fukuoka. Era uma linda manhã de sol e, quando avistamos o Monte Fuji, o avião
foi sequestrado pela facção japonesa da Liga Comunista-Exército Vermelho. Passei
os quatro dias seguintes algemado na minha poltrona, sob um calor de 40 graus. Como
médico, encarei tudo aquilo como uma experiência e fiquei fascinado ao
constatar o quanto o corpo humano fica mais lento durante momentos críticos.
Encontre um
modelo e proponha-se a ultrapassá-lo. Meu pai foi para os Estados Unidos em
1900, para estudar na Duke University, na Carolina do Norte. Ele foi um
pioneiro e um dos meus heróis. Mais tarde, encontrei mais guias e, quando não
sei o que fazer, eu me pergunto como eles lidariam com o problema.
É ótimo ter uma vida longa e generosa. Trabalhamos para a nossa família, para alcançar os nossos objetivos e devemos também esforçar-nos para contribuir para a sociedade. Dedico 18 horas semanais para trabalhos voluntários, e adoro cada minuto
desse tempo.

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