Encontros com O ressuscitado


A fé em Jesus, ressuscitado pelo Pai, não brotou de forma natural e espontânea no coração dos discípulos. Antes de se encontrar com Ele, cheio de vida, os evangelistas falam da sua desorientação, a sua procura em torno do sepulcro, as suas interrogações e incertezas. Maria de Madalena é o melhor exemplo do que acontece provavelmente em todos. Segundo o relato de João, procura o crucificado no meio das trevas, «quando ainda estava escuro». Como é natural, procura-O «no sepulcro». Todavia não sabe que a morte foi vencida. Por isso o vazio do sepulcro deixa-a desconcertada. Sem Jesus, sente-se perdida.

José António Pagola, teólogo espanhol, comenta João 20, 1-9, em www.feadulta.com/es

Os outros evangelistas recolhem outra tradição que descreve a procura de todo o grupo de mulheres. Não podem esquecer o Mestre que as acolheu como discípulas: o seu amor leva-as até ao sepulcro. Não encontram aí Jesus, mas escutam a mensagem que lhes indica para onde devem orientar a sua busca: «Por que procurais entre os mortos o que vive? Não está aqui. Ressuscitou».

A fé em Cristo ressuscitado não nasce tampouco hoje em nós de forma espontânea, só porque o escutámos desde crianças a catequistas e pregadores. Para nos abrirmos à fé na ressurreição de Jesus, temos de fazer o nosso próprio percurso. É decisivo não esquecer Jesus, amá-Lo com paixão e procurá-Lo com todas as nossas forças, mas não no mundo dos mortos. Ao que vive tem de se procurar onde há vida.

Se queremos encontrar-nos com Cristo ressuscitado, cheio de vida e de força criadora, temos de o procurar não numa religião morta, reduzida ao cumprimento e à observância externa de leis e normas, mas ali onde se vive segundo o Espírito de Jesus, acolhido com fé, com amor e com responsabilidade pelos seus seguidores.

Temos de O procurar, não entre os cristãos divididos e confrontados com lutas estéreis, vazias de amor a Jesus e de paixão pelo Evangelho, mas ali onde vamos construindo comunidades que põe Cristo no seu centro porque, sabem que «onde estão reunidos dois ou três em Seu nome, ali está Ele».

Ao que vive não O encontraremos numa fé estagnada e rotineira, gasta por toda a classe de tópicos e fórmulas vazias de experiência, mas procurando uma qualidade nova na nossa relação com Ele e na nossa identificação com o Seu projecto. Um Jesus apagado e inerte, que não apaixona nem seduz, que não toca os corações nem contagia a sua liberdade, é um “Jesus morto”. Não é o Cristo vivo, ressuscitado pelo Pai. Não é O que vive e que faz viver.

Encontrar-nos com O ressuscitado

Segundo o relato de João, Maria de Magdala é a primeira que vai ao sepulcro, quando todavia está escuro, e descobre desconsolada que está vazio. Falta-lhe Jesus. O Mestre que a tinha compreendido e curado. O Profeta que tinha seguido fielmente até ao final. A quem seguirá agora? Assim se lamenta ante os discípulos: "Levaram do sepulcro o Senhor e não sabemos onde o puseram". Estas palavras de Maria poderiam expressar a experiência que vivem hoje não poucos cristãos: Que fizemos de Jesus ressuscitado? Quem o levou? Onde o pusemos? O Senhor em quem acreditamos, é um Cristo cheio de vida ou um Cristo cuja recordação se vai apagando pouco a pouco nos corações?

É um erro que procuremos "provas" para acreditar com mais firmeza. Não basta chegar ao magistério da Igreja. É inútil indagar nas exposições dos teólogos. Para nos encontrarmos com o Ressuscitado é necessário, antes de tudo, fazer um percurso interior. Se não o encontramos dentro de nós, não o encontraremos em nenhuma parte.

João descreve, um pouco mais tarde, Maria correndo de um lado para outro para procurar alguma informação. E, quando vê Jesus, cega pela dor e as lágrimas, não chega a reconhece-lo. Pensa que é o encargado da horta. Jesus só lhe faz uma pregunta: "Mulher, porque choras? a quem procuras?"

Talvez tenhamos de nos perguntar também a nós algo semelhante. Porque a nossa fé é às vezes tão triste? Qual é a causa última dessa falta de alegria entre nós? Que procuramos os cristãos de hoje? Que desejamos? Andamos a procurar Jesus que necessitamos sentir cheio de vida nas nossas comunidades?

Segundo o relato, Jesus está a falar com Maria, mas ela não sabe que é Jesus. É então quando Jesus chama-a pelo seu nome, com a mesma ternura que colocava na Sua voz quando caminhavam pela Galileia: "Maria!". Ela volta-se rápida: "Rabí, Mestre".

Maria encontra-se com o Ressuscitado quando se sente chamada pessoalmente por Ele. É assim. Jesus mostra-se cheio de vida, quando nos sentimos chamados pelo nosso próprio nome, e escutamos o convite que nos faz a cada um. É então quando a nossa fé cresce.

Não reavivaremos a nossa fé em Cristo ressuscitado alimentando-a apenas de fora. Não nos encontraremos com Ele, se não procuramos o contacto vivo com a Sua pessoa. Provavelmente, é o amor a Jesus conhecido pelos evangelhos e procurando pessoalmente no fundo do nosso coração o que melhor pode conduzir-nos ao encontro com o Ressuscitado.

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