Foto: Diocese de Créteil, França
O início da “bula” sobre a Misericórdia do Papa Francisco serve de título, síntese e programa de vida para os seguidores de Jesus e para todas as comunidades nesta etapa evangelizadora: «Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai! »
Nele descobrimos a misericórdia no grau máximo, pois nele se tornou “viva, visível e atingiu o seu clímax. Com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa, Jesus de Nazaré revela a misericórdia de Deus” (n.1). Por isso, contemplar esse mistério é fonte de alegria, serenidade e paz, e ao fixar o olhar na misericórdia nos tornamos sinal eficaz do agir do Pai.
P.e Justino Martínez Pérez, missionário comboniano, do Centro de Estudos Bíblicos, Ceará, Brasil.
Vamos olhar no espelho do evangelho de Lucas e conferir suas palavras, seus gestos, e a sua pessoa. Na sinagoga de Nazaré temos o “programa” que Jesus vai seguir ao longo de sua vida pública. Proclama e confessa com palavras do profeta Isaías: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor».
Essa dedicação radical aos pobres, oprimidos e excluídos vai ser o sinal que Jesus da aos enviados por João Batista que perguntam se é ele o que devia vir ou devem esperar a outro. «Nessa mesma hora, Jesus curou muitas pessoas de suas doenças, males e espíritos maus, e fez muitos cegos recuperar a vista. Depois respondeu: «Voltem, e contem a João o que vocês viram e ouviram: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, e a Boa Notícia é anunciada aos pobres. E feliz é aquele que não se escandaliza por causa de mim! » (Lc 7,22-23).
No sermão da planície (Lc 6, 17) temos uma palavra-chave: “Amem os inimigos e sejam misericordiosos como o Pai é misericordioso”. Temos aqui dois focos significativos da mensagem de Jesus de Nazaré.
No amor Jesus mostra uma grande radicalidade e novidade: “O que vocês desejam que os outros lhes façam, também vocês devem fazer a eles... Ao contrário, amem os inimigos, façam o bem e emprestem, sem esperar coisa alguma em troca. Então, a recompensa de vocês será grande, e vocês serão filhos do Altíssimo, porque Deus é bondoso também para com os ingratos e maus”. E como o Pai mostra essa bondade? No texto paralelo de Mateus 5,46-48 a bondade do Pai se mostra assim, “porque ele faz o sol nascer sobre maus e bons, e a chuva cair sobre justos e injustos”. Portanto, “sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu”. O ideal que propõe Mateus de “ser perfeitos como o Pai” é descrito por Lucas como: “Sejam misericordiosos, como também o Pai de vocês é misericordioso”, um facho de luz que ilumina todo o Evangelho de Lucas e mostra o atuar de Jesus, seu programa, seu estilo de vida e seu projeto mais original.
Agora fica pra nós a pergunta: Como realmente é misericordioso o Pai? Vejamos como Deus se apresenta no Antigo Testamento, por exemplo, a Moisés: “Javé passou diante de Moisés, proclamando: «Javé, Javé! Deus de compaixão e piedade, lento para a cólera e cheio de amor e fidelidade. Ele conserva seu amor por milhares de gerações, tolerando a falta, a transgressão e o pecado, mas não deixa ninguém impune: castiga a falta dos pais nos filhos, netos e bisnetos”. Apreciemos nessa comparação a compaixão e o amor fiel por “milhares de gerações” não deixando impune o pecado por “três gerações”!
No Salmo 103(102) 8-13, temos outra descrição da misericórdia e do amor entranhável de Deus: “Javé é compaixão e piedade, lento para a cólera e cheio de amor. Ele não vai disputar perpetuamente, e seu rancor não dura para sempre. Nunca nos trata conforme os nossos erros, nem nos devolve segundo as nossas culpas. Como o céu se ergue por sobre a terra, seu amor se levanta por aqueles que o temem. Como o oriente está longe do ocidente, assim ele afasta de nós as nossas transgressões. Como um pai é compassivo com seus filhos, Javé é compassivo com aqueles que o temem: Porque ele conhece a nossa estrutura, ele se lembra do pó que somos nós”.
Contemplemos esse amor misericordioso de Deus expressado em três lindas comparações:
a) Como o céu se ergue por sobre a terra, seu amor se levanta por aqueles que o temem.
b) Como o oriente está longe do ocidente, assim ele afasta de nós as nossas transgressões.
c) Como um pai é compassivo com seus filhos, Javé é compassivo com aqueles que o temem.
Finalmente no Salmo 146 (145),7-9 aparece o atuar de Deus de modo maravilhoso: ”Ele mantém sua fidelidade para sempre, fazendo justiça aos oprimidos, e dando pão aos famintos. Javé liberta os prisioneiros. Javé abre os olhos dos cegos. Javé endireita os encurvados. Javé ama os justos. Javé protege os estrangeiros, sustenta o órfão e a viúva, mas transtorna o caminho dos injustos. Javé reina para sempre. O teu Deus, ó Sião, reina de geração em geração!”.
Esse é o pano de fundo que Jesus de Nazaré realiza de modo admirável e quer mostrar com suas palavras e com seus gestos ao convidar seus discípulos de ontem e de hoje a ser “misericordiosos como o Pai”. E como amostra grátis vai contar três parábolas, dirigidas a todos, mas especialmente aos “fariseus e escribas que murmuravam de seu comportamento:” Este homem recebe e come com pessoas de má vida!". E Jesus, na realidade, não conta três “parábolas”, mas “questiona e interpela” diretamente os seus interlocutores: eles (fariseus e mestres da lei), em caso de perder uma ovelha ou uma moeda não se comportariam também assim? “Se um de vocês tem cem ovelhas e perde uma, será que não deixa as noventa e nove no campo para ir atrás da ovelha que se perdeu, até encontrá-la?” (15,4). E logo insiste: «se uma mulher tem dez moedas de prata e perde uma, será que não acende uma lâmpada, varre a casa, e procura cuidadosamente, até encontrar a moeda? (15,8). E na terceira muda um pouco o início: “Um homem tinha dois filhos”. Mas o amor do pai abraça incondicionalmente os dois, se estão dispostos a acolhê-lo.
Jesus quer mostrar com esses três relatos o atuar compassivo e misericordioso de Deus que ele “revela na sua palavra e nos seus gestos”, e a alegria por encontrar “tudo o que estava perdido”, seja uma “ovelha”, seja uma “moeda”, seja um “filho” mesmo que na realidade, neste caso, vão ser os “dois”. Jesus diz tudo isso com sua prática de “acolher e comer com pecadores e excluídos” que é precisamente onde os “excluídos” se sentem realmente “acolhidos” por Deus e eles acodem a “escutar a Palavra”.
Fiel a essa prática de Jesus e ao seu ensinamento, o papa Francisco almeja que “nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos – em suma, onde houver cristãos –, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia” (n. 12). Por isso convida de modo contundente: “neste Jubileu, a Igreja sentir-se-á chamada ainda mais a cuidar destas feridas, aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo” (n. 15).
Nessa mesma linha prática de vida e coerência, o papa Francisco vai pedir profeticamente alguns gestos concretos neste Jubileu da Misericórdia, consciente de que para ser capazes de misericórdia, devemos primeiro pôr-nos à escuta da Palavra de Deus e assumi-la como próprio estilo de vida (O Rosto da Misericórdia, 13). Na linha do “jejum que agrada a Deus” conforme orienta o profeta Isaías (58,6-11) o papa Francisco faz um apelo a todos, mas com ênfase especial a dois grupos:
“Que a palavra do perdão possa chegar a todos e a chamada para experimentar a misericórdia não deixe ninguém indiferente. O meu convite à conversão dirige-se, com insistência ainda maior, àquelas pessoas que estão longe da graça de Deus pela sua conduta de vida. Penso de modo particular nos homens e mulheres que pertencem a um grupo criminoso, seja ele qual for. Para vosso bem, peço-vos que mudeis de vida. Peço-vo-lo em nome do Filho de Deus que, embora combatendo o pecado, nunca rejeitou qualquer pecador”.
“O mesmo convite chegue também às pessoas fautoras ou cúmplices de corrupção. Esta praga putrefata da sociedade é um pecado grave que brada aos céus, porque mina as próprias bases da vida pessoal e social. A corrupção impede de olhar para o futuro com esperança, porque, com a sua prepotência e avidez, destrói os projetos dos fracos e esmaga os mais pobres” (O Rosto da Misericórdia, 19). E na mensagem para a Jornada Mundial da Paz de 2016 o papa Francisco faz um pedido às autoridades: ”Neste contexto, desejo renovar às autoridades estatais o apelo a abolir a pena de morte, onde ainda estiver em vigor, e a considerar a possibilidade duma amnistia”.
Nada melhor, pois, para salientar esse espírito de misericórdia que o poema de José Martí, Cultivo uma rosa branca: “Cultivo uma rosa branca/em junho como em janeiro/para o amigo sincero/que me dá sua mão franca/ mas para o cruel que me arranca/ o coração com que vivo/cardo nem urtiga cultivo/ cultivo uma rosa branca”

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