O ministério presbiteral no seu percurso histórico


Se a estrutura ministerial da Igreja é um dado adquirido na Sagrada Escritura, não obedece, todavia, aí a uma estrutura uniforme e definitiva. Antes vemos reflectido nas comunidades primitivas o modo como a própria sociedade já antes se organizava, seja através do governo colegial, que congregava os anciãos (presbíteros) nas comunidades de matriz judaica, seja na pluralidade de ministérios das comunidades de proveniência helénica, até uma provável emergência de modelos híbridos e eventualmente comuns, pela admissível fusão entre os bispos e os presbíteros, dois dos principais ministérios de cada um dos modelos. Paralelamente foi também sentida a necessidade de legitimação teológica dos candidatos, quando já não bastava a legitimação carismática dos que, inspirados pelo Espírito, se punham ao serviço das comunidades, ou a pura eleição da comunidade, não imune às ameaças de desvios e rupturas. Assim se chega à praxis que perdurou, concretizada em ministros escolhidos pelas comunidades e legitimados pelos sucessores dos apóstolos pela imposição das mãos.

Texto de Adélio Fernando Abreu, prof. da Universidade Católica, Director do Centro de Cultura Católica e da Casa Sacerdotal, em Voz Portucalense, 14 de abril de 2010 

No decurso do séc. II, a partir de Antioquia, o ministério adquiriu uma forma tripartida, supondo-se para cada comunidade um bispo, rodeado de presbíteros e diáconos. Há quem reclame neste modelo antioqueno o fim da direcção colegial das comunidades pela afirmação do episcopado monárquico. Contudo, o bispo, sendo apenas um, emerge aí rodeado dos presbíteros e dos diáconos. Aqueles rodeavam o bispo na celebração da eucaristia, talvez substituindo-o se necessário na sua presidência, e formavam o seu conselho. O séc. III conheceu já a terminologia sacerdotal, pelo menos aplicada ao bispo, em razão da presidência da Eucaristia. Estender-se-ia aos presbíteros, quando a expansão do cristianismo fez com que também a ela presidissem. A terminologia não se tornara ainda redutora, tanto mais que a precariedade da vida proporcionada pelas perseguições não tornava os ministros figuras eminentes, a distinção clero/laicado situava-se ao nível da diferenciação funcional e a unção baptismal era já entendida também como unção sacerdotal. A viragem constantiniana deu visibilidade à Igreja no quadro da vida pública, reflectindo-se sobre o papel dos bispos, responsáveis pela unidade, dedicados ao anúncio da palavra, à celebração dos sacramentos e ao governo da comunidade, protagonistas da reflexão teológica e do diálogo com o poder civil. Permaneceu, contudo, a valorização da consagração baptismal, que privilegiava o horizonte eclesial de compreensão dos ministérios.

A Idade Média trouxe novas achegas. Inicialmente desenvolveu-se a vida monástica num quadro de cristianização da ruralidade, com a consequente interpenetração entre monaquismo e presbiterado, visível para este no celibato e no ofício. As mudanças também se sentiram na percepção ritual do ministério com o eclipsar do rito bíblico da imposição das mãos e com a valorização das insígnias e das vestes, especificativas da ordem recebida. Como refere B. Sesboüé, «a imposição das mãos era um sinal de “não-poder”, visto que o bispo que ordenava pedia ao Espírito Santo que viesse conferir os dons necessários ao ministério, enquanto as novas ordenações se modelam pela transferência de cargo homem a homem». Poder, se bem que social e político, foi o que os bispos adquiriram no quadro da desagregação territorial das invasões germânicas e posteriormente da definição do feudalismo, tornando-se príncipes pela integração da ordem episcopal na ordem política. Sobre isto elucida-nos bem a nossa diocese do Porto, na qual o bispo foi o senhor da cidade cerca de três séculos, de D. Hugo a D. Gil da Alma.

A partir do séc. XII, a liberdade alcançada no termo da luta pelas investiduras e a reacção às heresias anticlericais e anti-sacramentais proporcionaram uma nova organização eclesial desenvolvida pela canonística subsequente ao Decreto de Graciano. Acentuou-se então a compreensão do ministério sob a perspectiva do poder sacerdotal, ligado à capacidade de consagrar o Corpo e o Sangue de Cristo, e à celebração dos restantes sacramentos, como evidencia o IV concílio de Latrão (1215). O concílio não pretendeu estabelecer uma teologia completa do ministério. Contudo, num tempo em que a teologia dos sacramentos se sobrepôs à eclesiologia, a reflexão teológica encarregou-se de sublinhar a perspectiva sacral do ministério, convertendo o presbítero no homem do culto e separando-o dos fiéis e das actividades seculares. Neste contexto também o episcopado foi menorizado, porquanto o poder sacerdotal do bispo relativamente à eucaristia em nada o distinguia do presbítero. Esbatida a identidade do ministério episcopal, tornou-se ambígua a sacramentalidade do episcopado, incidindo a sua diferenciação do presbiterado exclusivamente no campo jurídico e honorífico. Aliás o poder sobre os sacramentos era aquele que resultava verdadeiramente da ordenação, enquanto a proclamação da palavra e o governo da comunidade, decorrendo do poder de jurisdição, eram passíveis de atribuição a pessoas não ordenadas, dando azo à aberração tardo-medieval dum episcopado puramente administrativo e beneficial, inclusivamente prévio à ordenação, e ao governo pastoral delegado, sem presença às comunidades. O episcopado conhecerá também ministros ordenados, dotados de poder sacerdotal, mas sem comunidade, qual expressão da dicotomia entre teologia sacramental e eclesiologia. A mesma lógica atingiu o presbiterado, pela multiplicação de igrejas privadas e pelo enredo do sistema beneficial.

Com o advento da Idade moderna, o ministério eclesiástico sofreu uma profunda contestação teológica por parte dos reformadores protestantes. Sublinhando a dimensão humana e funcional do ministério, recusando a dimensão sacrificial da eucaristia e prescindindo da relação entre esta e sacerdócio, Lutero eximiu ao ministério qualquer dimensão sacerdotal distinta do sacerdócio baptismal. O ministério, centrado na palavra de Deus, não possuía qualquer poder espiritual resultante dum sacerdócio diferente do baptismal. Esta contestação reflectiu-se na réplica dada pelo concílio de Trento: o Novo Testamento testemunha a existência de um sacerdócio visível e externo, distinto do baptismal; a ordem é um sacramento instituído por Cristo; a ordenação imprime carácter, mantendo-se para toda a vida, e vincula o ordenado ao ministério, independentemente da sua eleição ou aceitação pelo povo. A visão parcelar de Trento marcou significativamente a reflexão posterior, que fez residir a especificidade do ministério na função sacerdotal, referindo-o ao culto e ao altar. É certo que, ao nível disciplinar, Trento não esqueceu o anúncio da palavra e o governo pastoral. Remeteu-os, porém, para o âmbito disciplinar. Enveredando a teologia pelo acento sacerdotal, foi a dimensão cultual a que mais pesou, com consequências sobre o modo como o ministério foi sendo compreendido posteriormente: um ministério ligado ao culto e à piedade eucarística, em detrimento da sua dimensão profética; um sacerdócio considerado mais em si mesmo do que na sua relação com a Igreja; um ministério que não distingue sacramentalmente o episcopado do presbiterado; um ministério em que a identidade sacerdotal, do foro teológico, pôde eventualmente subalternizar a santidade de vida e a acção pastoral, consideradas apenas nos decretos de reforma, contribuindo como possibilidade para uma dicotomia entre teologia e espiritualidade.

Apesar destes limites, Trento e o disciplinamento que dele emanou fizeram muito por um ministério ordenado formado e digno. De facto, se uns o contestavam teologicamente, outros reconheciam que a sua situação carecia de reforma. Nas áreas em que o protestantismo não vingou, o catolicismo romano possuiu um clero muito abundante, mas nem por isso capaz de fazer face às exigências pastorais. Aliás não era difícil encontrar limites na vida dos presbíteros, relacionados com a observação do celibato, a enorme ignorância ou o apego aos bens. Assim paralelamente à afirmação do sacerdócio na sua dimensão sacramental e ontológica, também emergiram algumas notas pastorais, relacionadas com a necessidade do pastor, levando uma vida irrepreensível, conhecer o seu povo e residir no seu seio, nutri-lo com a palavra e os sacramentos, e amá-lo nos membros mais débeis.

A teologia do ministério não sofreu alterações significativas nos séculos seguintes, se bem que não tenham deixado de emergir especificidades ao nível da formação, da espiritualidade e da relação com a sociedade. No quadro de hostilidade proporcionado pelo ideário das luzes e depois mais manifesto na sociedade liberal, a Igreja tendeu a voltar-se sobre si mesma em atitude defensiva, e os quadros eclesiásticos não estiveram frequentemente à altura dos desafios. O afastamento repercutia-se no processo formativo em internato e pouco permeável aos novos ventos do pensamento, ou até no traje eclesiástico já requerido aos candidatos. Eram educados para uma separação similar à que se requeria à Igreja na sua relação com o mundo. Obviamente que houve excepções nesta atitude maioritária, cada vez mais visíveis à medida que a Igreja dava sinais de abertura e reconciliação com a modernidade. A teologia passou também por um processo de renovação, que permitiu um novo quadro eclesiológico para a compreensão dos ministérios, ao mesmo tempo que os presbíteros iam respondendo aos desafios de uma pastoral especializada de proximidade aos fiéis, visível, por exemplo, no contexto da Acção Católica.

Assim chegamos ao II concílio do Vaticano. Sendo este predominantemente eclesiológico, não enveredou por uma reflexão sobre o ministério ordenado a partir da teologia sacramental. Situou-o no contexto eclesial e elegeu a missão como paradigma de compreensão, partindo da missão de Cristo e da Igreja para chegar ao ministério episcopal e presbiteral. Numa busca de equilíbrio, não prescindiu da consagração. Declarou-a, contudo, em ordem à missão profética, sacerdotal e pastoral.

Esta nova compreensão do ministério ordenado reveste-se de significado nomeadamente a dois níveis. Reequaciona a relação entre ministério e Igreja, porque o ministério já não se justifica a partir dum poder sagrado recebido, mas foi re-situado na Igreja ao serviço do povo de Deus, através da palavra, dos sacramentos e da caridade pastoral. Mas reequaciona também a relação entre ministério pastoral e mundo. Na verdade, olhando o ministério a partir da missão, a atitude do bispo ou do presbítero para com o mundo já não pode ser de separação, mas de presença e testemunho, num sempre difícil equilíbrio entre inserção e distinção, porque a presença não significa conversão ao mundo, mas certamente também interpelação ou testemunho profético. Nas referidas Jornadas de Teologia, B. Sesboüé expressou enorme apreço por esta presença, aliás diversificada, aos referir-se aos padres comprometidos com o mundo do trabalho ou da ciência e do saber, e ao mostrar-se convicto de que a resposta à crise vocacional dos nossos dias não passa pela recuperação do ministério tridentino, mas pela procura de uma figura nova, a esboçar na fidelidade à tradição e na resposta aos desafios do nosso tempo. Partilhamos também nós inteiramente desta sua convicção. 

Comentários