Segundo o relato do Evangelho de Lucas 22, 14-23.56, que corresponde ao Domingo de Ramos, do ciclo C do Ano Litúrgico, os que passavam diante de Jesus crucificado sobre a colina do Gólgota escarneciam Dele e, rindo-se da sua impotência, diziam-Lhe: «Se és o Filho de Deus, desce da cruz.» Jesus não responde à provocação. A sua resposta é um silêncio carregado de mistério. Precisamente porque é Filho de Deus permanecerá na cruz até à sua morte.
José Antonio Pagola, teólogo espanhol, em Periodista Digital
As perguntas são inevitáveis...
Como é possível acreditar num Deus crucificado pelos homens? Que faz Deus numa cruz?
Como pode subsistir uma religião fundada numa concepção tão absurda de Deus?
Um «Deus crucificado» constitui uma revolução e um escândalo que nos obriga a questionar todas as ideias que nós nos fazemos a um Deus a quem supostamente conhecemos. O Crucificado não tem o rosto nem os traços que as religiões atribuem ao Ser Supremo.
O «Deus crucificado» não é um ser omnipotente e majestoso, imutável e feliz, alheio ao sofrimento dos humanos, mas um Deus impotente e humilhado que sofre connosco a dor, a angústia e até mesmo a morte. Com a Cruz, ou termina a nossa fé em Deus, ou nos abrimos a uma compreensão nova e surpreendente de um Deus que, encarnado no nosso sofrimento, nos ama de forma incrível.
Ante o Crucificado começamos a intuir que Deus, no seu último mistério, é alguém que sofre connosco. A nossa miséria afeta-O. O nosso sofrimento atinge-O. Não existe um Deus cuja vida transcorre, por assim dizer, à margem das nossas penas, lágrimas e desgraças. Ele está em todos os calvários do nosso mundo.
Este «Deus crucificado» não permite uma fé frívola e egoísta num Deus omnipotente a serviço dos nossos caprichos e pretensões. Este Deus coloca-nos a olhar para o sofrimento, o abandono e o desamparo de tantas vítimas da injustiça e das desgraças. Com este Deus encontramo-nos, quando nos aproximamos do sofrimento de qualquer crucificado.
Os cristãos continuam a tomar todo o género de desvios para não se depararem com o «Deus crucificado». Temos aprendido, inclusive, a levantar o nosso olhar para a Cruz do Senhor, desviando-a dos crucificados que estão ante os nossos olhos. No entanto, a forma mais autêntica de celebrar a Paixão do Senhor é reavivar a nossa compaixão. Sem isto, dilui-se a nossa fé no «Deus crucificado» e abre-se a porta a todo o tipo de manipulações. Que o nosso beijo ao Crucificado nos coloque sempre a olhar para quem, próximo ou afastado de nós, vive a sofrer.

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