Presbíteros da diocese do Porto que pediram dispensa do ministério e casaram encontraram-se com bispo da diocese - crónica do encontro
Superado o estigma da “redução ao estado laical”, um grupo
de presbíteros – que tendo servido a Igreja ‘in persona Christi capitis’ e em
‘comunhão de missão’, solicitaram a dispensa da lei do celibato, a qual lhes
foi concedida em simultâneo com a “dispensa das obrigações inerentes ao estado
eclesiástico” e do exercício do ministério, sem outra alternativa – reuniu-se
na Casa Diocesana de Vilar para refletir e rezar no espírito do Jubileu
Extraordinário da Misericórdia. Alguns dos participantes estavam acompanhados
pelas esposas.
O encontro iniciou-se com um tempo de oração que elementos
do Coro Gregoriano do Porto muito enriqueceram com motetes de intensa espiritualidade.
Seguiu-se um breve diálogo entre os presentes que incidiu, nomeadamente, na oportunidade
de cada um frequentar – para atualizar – informação conciliar e pós-conciliar
sobre o ministério presbiteral no seu percurso histórico. Foi referido e aconselhado,
pela abrangência e qualidade da informação, o texto publicado sobre o tema, na
Voz Portucalense, por Adélio Abreu (VP. 14/04/2010). Pode ser lido aqui: O ministério presbiteral no seu percurso histórico
O nosso colega Dr. Justiniano Santos orientou a reflexão,
introduzindo-nos no percurso que de S. João XXIII vem conduzindo a comunidade
dos cristãos para a urgente recuperação e prática da misericórdia, “tema
fundamental para o século xxi…, mas
um tema imperdoavelmente esquecido” (Walter Kasper). O Dr. Justiniano foi
assinalando, neste percurso, desde o Vaticano II, o magistério de S. João Paulo
II, na encíclica Dives in Misericordia,
e de Bento XVI, na encíclica Deus Caritas
Est. Deteve-se na Bula Misericordiae
Vultus do Papa Francisco, destacando o apelo à conversão, através de um discurso
mais narrativo do que especulativo, aberto à realidade experimentada e sofrida por
cada um dos cristãos. Do magistério do Papa Francisco salientou ainda o apelo à
sinodalidade, à recuperação da identidade das paróquias como “igrejas locais”,
unidas no/pelo ministério episcopal à tradição apostólica; igrejas inclusivas e
sem fronteiras, de portas abertas, acolhendo a todos os que chama à conversão.
Após este suculento repasto teológico e espiritual, o
encontro prosseguiu à volta da mesa para o almoço.
D. António Francisco dos Santos, bispo do Porto, pôde estar
connosco durante a tarde. Esteve no meio de nós para nos acolher, para nos
ouvir e para nos dizer a sua palavra. Propôs-nos uma reflexão. “Em tempo de
bulimia de palavras e anorexia de gestos”, citou, “há que centrar-se cada um de
nós, continuou, na dimensão da proximidade, olhos postos no cuidar, tipificado na
conduta do samaritano da parábola”. E avançou algumas ideias-chave. “Que cada
um se sinta amado por Deus, apesar da fragilidade que marque o seu percurso, e
que cada um transmita o amor do Pai comum através do testemunho da sua vida”;
que se viva a paternidade de Deus, Pai de misericórdia, na comunhão da Igreja,
mãe que sabe acolher, escutar e ouvir mais do que falar e que sabe calar para
assim amar mais; precisamos, ainda, da certeza da fraternidade eclesial, pois
não somos filhos sós”. São gestos de acolhimento e de inclusão os que o Pai nos
oferece, dando-nos a certeza de que “o bem que se faz é o bem que perdura, já
que o amor de Deus é maior do que a nossa fragilidade”.
Sempre num tom muito pessoal e envolvente, o Senhor Bispo
lembrou as propostas que apresentou à Igreja Diocesana e que deseja que “a
todos mobilize de um modo responsável e criativo que testemunhe o espírito das
bem-aventuranças”, propostas programadas e calendarizadas em documentos: Plano
Diocesano de Pastoral – 2015/2020; Pratica a Misericórdia com Alegria! /
Caminhada de Quaresma – Páscoa 2016; Carta Pastoral Felizes os misericordiosos.
A Palavra, a Eucaristia e a comunhão com o Bispo na construção da Igreja.
Propostas estas que têm como horizonte, assinalou D. António Francisco, a
realização de um Sínodo Diocesano. Mereceu ao Senhor Bispo uma referência a
próxima visita da Virgem Peregrina à nossa Diocese com “encontros” especiais
programados para a Casa Sacerdotal e para os Hospitais.
Houve ainda tempo e disponibilidade para um diálogo franco e
aberto entre todos. Do grupo surgiu a manifestação de uma perplexidade. Muitos
de nós notam que a hierarquia da Igreja, num tempo de renovação e de inclusão,
não dá sinais de integração dos presbíteros casados nas responsabilidades
pastorais. Integração que tenha em conta a especificidade da nossa
circunstância, que não esqueça uma experiência pastoral que nos marcou para toda
a vida e que considere e aproveite a disponibilidade de muitos de nós para a
colaboração pastoral legítima e oportuna. O Senhor Bispo considerou, a
propósito, que “se abre um mundo de oportunidades para que cada um possa
colaborar com a Igreja”. Quanto a outro nível e modo de integração, acrescentou,
“vale ‘a dispensa das obrigações do estado eclesiástico’, que foi pedida e que
foi concedida em precisos termos”. Inferimos destas palavras que, mesmo no Ano Jubilar
da Misericórdia, o Código de Direito Canónico se sobrepõe às necessidades e aos
direitos do Povo Cristão.
Assim terminou esta jornada de oração, reflexo e convívio.
Todos regressámos a casa revigorados e mais disponíveis para o que o Senhor nos
sugira e a Igreja permita.
A. Teixeira Coelho
N.B: Os presbíteros, uma vez recebido o sacramento da Ordem,
são sacerdotes para sempre, não são ex-padres, nem leigos.
Alguns pedem dispensa das obrigações sacerdotais.
Sendo-lhes concedida pelo Vaticano, podem casar legalmente,
mas não podem exercer os ministérios próprios do sacerdócio: como a celebração dos sacramentos ou presidir à Eucaristia.


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