A Carta Pastoral Pastoral e Programa para o Ano 2015-16, da diocese de Santarém, oferece pistas para meditar o evangelho do IV Domingo Comum, ano C


«Considerado um Concílio pastoral, o Vaticano II convida-nos a agir à maneira do Bom Pastor do evangelho que vai à procura dos que andam afastados, cuida dos feridos, carrega aos ombros os mais débeis. Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. Fixemos o nosso olhar no seu rosto de bondade e perdão, contemplemos os seus gestos e sinais, meditemos nas suas parábolas e aprendamos com Ele o caminho da misericórdia. É o ideal de vida que o Senhor nos coloca: “Felizes os misericordiosos porque alcançarão misericórdia” (Cf MV 9). Acolher a misericórdia e ser misericordioso é ter Jesus como referência na forma de ver, de viver e de agir. É Ele o Senhor e guia das nossas almas e o caminho da comunidade cristã. Renovar a Igreja no espírito do Concílio é cultivar um novo estilo pastoral, levando a Igreja a sair ao encontro dos afastados e feridos como sacramento de Cristo, o Bom Pastor.


Nestes cinquenta anos demos já muitos passos no processo da renovação conciliar. Mas temos ainda um longo caminho a percorrer: no desenvolvimento da união fraterna para tornar a Igreja imagem da comunhão trinitária, sua origem e referência; na saída em missão que nasce do envio do Filho e do Espírito Santo; na atenção aos sinais de Deus no mundo, ao diálogo com a sociedade e à colaboração com a justiça e a paz; na fundamentação da vida cristã na Palavra de Deus que abre a porta da fé e conduz ao encontro e à identificação com Jesus Cristo; na eucaristia convivial e festiva, manifestação mais alta da Igreja.

A situação religiosa conheceu profundas mudanças neste período do pós-concilio. Não apenas em aspetos da área moral, religiosa ou cultural. Mas uma mudança profunda e global, uma mudança de época. Deparamo-nos com uma situação nova, diferente, que coloca novos desafios e nos pede uma renovação profunda da ação pastoral. Vamos, portanto, no próximo ano pastoral 2015 – 2016, continuar a ter em vista, como horizonte de fundo, a renovação da Igreja na perspetiva do Concílio Vaticano II e na linha da Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium” que nos desafiam a repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores (Cf EG 33). Nas propostas concretas para este ano temos igualmente como fonte de inspiração a bula “Misericordiae Vultus”.

Misericordiosos como o Pai
A renovação da Igreja em chave missionária leva a “concentrar o anúncio no essencial do evangelho, no que é mais belo, mais importante, mais atraente e ao mesmo tempo mais necessário” (EG 35). E o que é mais belo e mais importante na fé cristã? O Papa Francisco responde a esta questão lembrando a afirmação de São Paulo aos Gálatas em que, antes de mais, conta “a fé que atua pelo amor” (Gal 5,6). Nessa linha, conclui o Papa, citando a propósito São Tomás, a misericórdia é a maior de todas as virtudes (EG 37). Por isso, a missão da Igreja, nas suas várias atividades, deve estar envolvida pela misericórdia: “A Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus coração pulsante do evangelho que, por meio dela, deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa…No nosso tempo… o tema da misericórdia exige ser reproposto com novo entusiasmo e uma ação pastoral renovada…A linguagem e os gestos da Igreja devem irradiar a misericórdia…”, convida o Papa Francisco na Bula da Misericórdia (MV 12). E concretiza: “Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos – em suma, onde houver cristãos –, qualquer pessoa deve encontrar um oásis de misericórdia” (MV 12).

“Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (MV 13 e 14), propõe o Papa Francisco como lema para este Jubileu Extraordinário, garantindo que é um programa gerador de alegria e paz. Na verdade, sem misericórdia a vida é seca e escura. A misericórdia faz falta e tem andado esquecida. Parece até causar mal-estar ao homem moderno que se julga dominador do mundo (Cf MV 11 e 12) e se deixa arrastar pela indiferença e pela violência. A misericórdia, porém, leva à proximidade, ao serviço, ao perdão e à reconciliação. Por isso, como afirma o Papa Francisco, é “fonte de alegria, serenidade e paz” (MV 2). É a misericórdia e não a violência que vai de encontro aos anseios e desejos profundos do coração humano. “Misericórdia é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida” (MV 2).

Esquecimento da misericórdia

Onde e de que modo notamos a ausência e o esquecimento da misericórdia? Em muitos sinais preocupantes: na indiferença perante o outro; no alheamento aos sofrimentos e problemas das pessoas que nos rodeiam; na intolerância para com as falhas ou feitios diferentes; no desinteresse e irresponsabilidade perante o bem comum; na atitude de arrogância e de domínio; na agressividade e na violência. Encontramos, com frequência, nos tempos atuais, diversas expressões de intolerância e de agressividade: na vida política; na família; na escola; nas relações sociais; nos próprios membros da Igreja que se deixam tentar pelos “pecados paroquiais” ou eclesiásticos. “Deste modo, as várias espécies de egoísmo, latentes no homem, poderiam transformar a vida e a convivência humana num sistema de opressão dos mais fracos pelos mais fortes” (Carta do Papa São João Paulo II sobre a misericórdia divina “Dives in Misericordia, D in M, 14).

De facto, as expressões de agressividade e de violência geram mal-estar, incompreensão, ruturas e separações. A forma de reagir de muita gente é, com frequência, ver e defender apenas as razões pessoais caindo na condenação fácil dos outros. Face a esta situação, a Igreja deve considerar como um dos seus principais deveres, proclamar e introduzir na vida o mistério da misericórdia, revelado no mais alto grau em Jesus Cristo. “O mundo dos homens só poderá tornar-se cada vez mais humano quando introduzirmos em todas as relações recíprocas, que formam a sua fisionomia moral, o momento do perdão tão essencial no evangelho” (D in M 14).

O empobrecimento da atitude de misericórdia para com os outros está em relação com a debilidade da experiência da misericórdia de Deus. A consciência de pecado é pouca viva em muitos dos nossos cristãos. Realmente menos pessoas recorrem ao sacramento da Reconciliação. Quantos se identificam profundamente com a súplica “Senhor tende piedade de nós”, tão frequente no evangelho e na liturgia? A ilusão de autossuficiência humana conduz à perda do sentido de conversão e à consequente instalação na mediocridade. Por isso, o desenvolvimento da misericórdia nasce da escuta e adesão à Palavra de Deus que nos leva a confiar no Seu perdão.

Redescobrir as obras de misericórdia
Os efeitos negativos do esquecimento da misericórdia, mostram-nos como é importante cultivar esta virtude lutando contra a indiferença, o individualismo, a intolerância, a agressividade, a inveja e a acusação fácil dos outros; e educar atitudes interiores de misericórdia que depois se traduzam na relação cordial, no acolhimento de todos, na ajuda fraterna e num estilo de vida pautado pela estima e apreço mútuos, pela afabilidade, pelo cuidado de uns pelos outros. Estas atitudes estão concretizadas nas tradicionais quatorze obras de misericórdia. No caminho do evangelho, estas não são apenas propostas facultativas. São a referência do julgamento final, o critério decisivo da plena realização ou do fracasso da vida humana (Cf Mt 25, 31-46).

As obras de misericórdia são realmente indispensáveis para uma vida social em paz e harmonia no respeito e acolhimento das diferenças. São, igualmente, capitais na prática do evangelho de Jesus. São até decisivas para avaliar a qualidade da nossa fé pois sobre elas seremos julgados: “Vinde benditos de meu Pai… porque tive fome e deste-me de comer…”, narra São Mateus (Cf Mt 25, 34-35). Por isso, a fé cristã não é apenas uma prática religiosa de atos de culto mas a prática do amor fraterno inspirado no amor a Deus e traduzido nas obras de misericórdia. Por isso, recomenda o Papa Francisco ao povo cristão que reflita durante o jubileu nas obras de misericórdia, tanto nas corporais como nas espirituais (Cf MV 15).

Redescubramos, portanto, as obras de misericórdia corporais: dar de comer aos famintos; dar de beber aos sedentos; vestir os nus; acolher os peregrinos; dar assistência aos enfermos; visitar os presos; enterrar os mortos (acompanhar os que sofrem o luto). Temos muitas pessoas sensíveis, atentas e dedicadas a ajudar nestas necessidades; temos igualmente instituições de solidariedade competentes e credíveis que socorrem estas carências. Mais difícil e de menor consenso é a prática das obras de misericórdia espirituais, devido ao individualismo, relativismo e autossuficiência hoje reinantes. Mas, mesmo por isso, não é menos importante redescobri-las e encontrar a forma adequada de as realizar: dar bom conselho; ensinar os ignorantes; corrigir os que erram; consolar os tristes; perdoar as injúrias; suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo; rezar a Deus pelos vivos e pelos mortos.

Educar para as obras de misericórdia

Educar para a fé cristã é educar para o sentido da misericórdia de Deus e para as obras de misericórdia com o próximo. O cristianismo é sobretudo uma prática e não tanto uma doutrina. Hão-de conhecer que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros como eu vos amei, disse Jesus. Deste modo, aprender a vida cristã é aprender a misericórdia de Deus que nos ama e sempre nos perdoa. Esta experiência leva-nos à prática das obras de misericórdia. Por isso, é tão oportuno o conselho do papa Francisco para redescobrirmos a sua atualidade.

Comecemos pela forma de olhar e julgar os outros: procuremos que a misericórdia ilumine a nossa mente e o nosso coração para vermos com olhos de misericórdia, à altura do olhar de Deus que sabe ver o lado bom e sempre acredita na conversão; com um coração de misericórdia que a todos presta atenção sem ninguém excluir.

Que a misericórdia nos leve a abrir as nossas mãos e nos torne generosos em partilhar os nossos bens, vencendo a tentação de os considerarmos como propriedade individualista, só para nosso bem pessoal. Porque, na verdade, são-nos dados para administrarmos para o bem de todos, para partilharmos e ajudar os necessitados, ou seja, têm uma dimensão social e fraterna. Não podemos fechar-nos na fruição egoísta dos bens do mundo. Educar para a vida cristã é educar para o dom e para a partilha.

Que a misericórdia guie os nossos pés e nos leve ao encontro dos doentes, dos que sofrem solidão, dos que estão excluídos. Visitá-los é como visitar o Senhor. “Estive doente e me visitaste”. Levemos a todos uma palavra e um gesto de consolação (MV 16)

Que a misericórdia se traduza no acompanhamento que fazemos àqueles que precisam de cuidado, de ajuda, de proximidade solidária, de aconselhamento. Muitas pessoas sentem-se perdidas e desorientadas, caminham na escuridão, sem objetivos nem rumo, não encontram quem os ouça e compreenda ou acompanhe: crianças deixadas entregues a si mesmas, à televisão, computadores e jogos; redes sociais e meios de comunicação que, frequentemente, isolam as pessoas do convívio familiar impedindo o diálogo e a partilha, olhos nos olhos, pois cada um entretém-se com o seu “brinquedo informático”. Por isso, vemos tantos adolescentes em solidão; jovens sem objetivos; casais jovens que não se entendem nem têm tempo para os filhos mas encontram-no para as redes sociais; famílias sem comunhão e desencontradas. Tanta gente que necessita de quem os acompanhe, de quem se faça próximo, escute, descubra o problema e dê uma palavra amiga para discernir e fazer caminho. São as obras de misericórdia espirituais hoje tão necessárias.

A profundidade do encontro com os outros está associada ao encontro com Deus. Aproximando-nos de Deus, Pai de misericórdia, aprendemos a ver os outros na luz de Deus, como irmãos, e a expressar o nosso amor nas obras de misericórdia. Assim, educar para a misericórdia, é também educar para encontrar Deus na Palavra das Sagradas Escrituras e nos sacramentos do Seu amor.

II

A PALAVRA DE DEUS BASE DA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ

Aprendemos a Misericórdia escutando a Palavra de Deus
A prática da misericórdia, na linha do evangelho, pede uma verdadeira conversão: em vez de viver para si mesmo, viver para Deus e para os outros. E a conversão nasce do encontro com Cristo e do seguimento da Sua Palavra: “Para sermos capazes da misericórdia devemos primeiro pôr-nos à escuta da Palavra de Deus. Isso significa recuperar o valor do silêncio para meditar a Palavra que nos é dirigida” (MV 13). De facto, pela Sua Palavra, Deus vem ao nosso encontro, ilumina o nosso agir e convida-nos a seguir o caminho da misericórdia. As obras de misericórdia são motivadas pela fé que age pela caridade, não são fruto espontâneo dos nossos sentimentos. Uma Igreja de misericórdia é uma Igreja de discípulos missionários que escutam o Senhor, se convertem ao Seu evangelho e O seguem, participando na missão.

Tendo presente esta convicção, vamos continuar, no programa pastoral deste ano, a formação dos fiéis segundo o perfil do “discípulo missionário”, a identidade do cristão que prepara o futuro. Nesta preocupação, o primeiro passo é exercitar os nossos fiéis na escuta da Palavra de Deus. No princípio está a Palavra: “In principio erat Verbum”. No início ou no reinício de um percurso da fé está sempre a escuta, meditada e rezada, da Palavra de Deus que leva à experiência do encontro e ao seguimento de Cristo.

Igreja de discípulos missionários

Cuidemos zelosamente desta base da vida cristã que, em geral, está muito frágil nos nossos fiéis. “Ensinar os ignorantes”, é também ajudar os católicos a vencer a ignorância bíblica. É uma recomendação que vem já do Concílio Vaticano II e na qual precisamos de continuar a insistir em ordem a preparar a Igreja de discípulos missionários. Alguns passos se deram: as leituras bíblicas da liturgia são mais cuidadas; as homilias melhor preparadas, mais relacionadas com as leituras e com a vida real dos participantes; a catequese fundamenta-se na Sagrada Escritura. Mas precisamos de progredir de modo a levar todos os fiéis ao contato assíduo com a Palavra de Deus. Que esteja perto da boca e do coração dos católicos e não apenas de um pequeno número, de modo a tornar-se uma fonte de água viva onde todos podem matar a sede. Para isso, temos de nos esforçar por multiplicar grupos de reflexão e oração bíblica.

Da escuta meditada da Palavra de Deus podemos, segundo a promessa do Senhor, esperar frutos muito ricos e abundantes: a Palavra de Deus aquece o coração, vence o desânimo e as trevas; ilumina o caminho, oferece sabedoria para nos orientarmos na estrada da vida e critérios para discernir o bem e o mal; converte e liberta das dependências que escravizam; proporciona o encontro interior com Deus que dá “encanto e alegria ao coração” (Jer 15, 16). Estudemos e assimilemos na nossa ação pastoral o capítulo VI da Constituição Conciliar Dei Verbum. De facto, afirma logo no n.º 21: “é tão grande o poder e a força da Palavra de Deus que constitui o sustento e o vigor da Igreja, firmeza da fé para os seus filhos, alimento da alma, fonte límpida e perene de vida espiritual”.

Encontros ao redor da Palavra

Notamos hoje em muitos sinais dos tempos, o desafio a promover, em todas as comunidades paroquiais ou não paroquiais, grupos que se encontrem ao redor da Sagrada Escritura para se formarem na escuta da Palavra Viva que traz calor, luz e esperança à vida humana. Na verdade, muitas pessoas anseiam por espiritualidade, procuram a unidade interior, necessitam de encontros onde se possam sentir em comunidade e partilhar o que lhes vai na alma. A Palavra de Deus presente na Bíblia pode tornar-se um manancial de água viva nestes tempos de desertificação espiritual. Como afirma o Papa Francisco: “A evangelização requer a familiaridade com a Palavra de Deus e isto exige que as dioceses, paróquias e todos os grupos católicos proponham um estudo sério e perseverante da Bíblia e promovam igualmente a sua leitura orante pessoal e comunitária” (EG 175).

“A Palavra de Deus está na base de toda a espiritualidade cristã autêntica”, afirmou Bento XVI na Exortação Apostólica “A palavra de Deus” (Verbum Domini, VD), fruto do Sínodo de 2008 sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja (VD 86). Na verdade, a espiritualidade cristã tradicional assenta numa grande riqueza de devoções, relacionadas com a religiosidade popular, mas nem sempre dá o devido relevo à Palavra de Deus presente nas Sagradas Escrituras. Por isso, “o (referido) Sínodo insistiu sobre a exigência de uma abordagem orante do texto sagrado como elemento fundamental da vida espiritual de todo o fiel” (VD 86).

A leitura orante supõe uma preparação prévia que desperte o gosto e aplane o caminho da leitura. Antes de mais, para bastantes católicos, é preciso começar por aprender a manusear a Bíblia; depois o contato com alguns textos, acompanhado por um animador capaz de ajudar a descobrir como Deus fala hoje pela narrativa bíblica; assim, através de exercícios, se vai penetrando na linguagem das Escrituras e progredindo na leitura orante, meditada e partilhada.

Algumas iniciativas

“O lugar privilegiado da leitura orante da Sagrada Escritura é a Liturgia, particularmente a Eucaristia” (VD 86). Aqui encontra o seu ambiente próprio de comunhão eclesial. Nesse sentido, é indispensável cuidar da preparação dos leitores. Se eles não entendem nem saboreiam o que estão a ler, como poderão entender os ouvintes? Muitas vezes acontece perder-se a mensagem por impreparação dos leitores. Deveriam ser estes os primeiros a cultivar a leitura meditada e orante da Palavra.
A homilia é outro momento decisivo para descobrir a encanto e sabedoria das Escrituras: Como diz o papa Francisco: ”A homilia pode ser realmente uma experiência intensa e feliz do Espírito, um consolador encontro com a Palavra, uma fonte constante de renovação e crescimento” (EG 135).
Incutir o gosto e o hábito da leitura bíblica na catequese, sobretudo na preparação próxima para o Crisma. Terminada a catequese, é o contato com a Sagrada Escritura que dá suporte à formação permanente.
Procurar que em todos os encontros de formação (Movimentos, serviços pastorais) haja um tempo de leitura meditada (preparada com antecedência e se possível partilhada) da Sagrada Escritura.
Proporcionar exercícios espirituais (oração, retiros…) que promovam uma experiência de encontro com o Senhor, despertem o gosto da leitura meditada da Bíblia e incentivem a seguir o evangelho.
Convidar pessoas e despertar-lhes o interesse pela escuta e meditação da Sagrada Escritura segundo a pedagogia da “lectio divina”. Precisamos de relançar grupos que se reúnam para escutar e partilhar o Evangelho. Podemos designá-los como “encontros ao redor da Bíblia”.
Preparar animadores para estes encontros levando-os a fazer uma experiência pessoal de encontro com Deus através da Palavra. Não se trata tanto de uma preparação técnica mas de exercitar a capacidade de escuta e o jeito para animar e coordenar a partilha de grupo.
Parece-nos notar hoje um apelo do Espírito Santo a congregar grupos ao redor da Palavra de Deus. Há condições, há abertura e há necessidade. As pessoas procuram a espiritualidade, têm sede da Palavra sempre nova que vem de Deus, da Sua luz e da esperança que infundem no coração humano. Apreciam igualmente o encontro cordial de um grupo de pessoas amigas e interessadas, em que partilham, em ambiente de confiança mútua, a beleza descoberta no texto bíblico e experimentam no grupo um fermento da Igreja, comunhão eclesial congregada pela Palavra de Deus. A vida adquire horizontes mais largos e positivos: “Como afirmava Santo Ambrósio, quando tomamos nas mãos com fé, as Sagradas Escrituras e as lemos com a Igreja, a pessoa humana volta a passear com Deus no paraíso” (VD 87).
III

A MISERICÓRDIA COMO ESTILO DE VIDA

A relação fraterna numa Igreja de misericórdia
A misericórdia não consiste apenas na prática das obras. É um estilo de vida que se cultiva e manifesta em todas as dimensões da existência humana, na forma de entender, de se relacionar e de proceder. “A misericórdia torna-se um elemento indispensável para dar forma às relações mútuas entre os homens, em espírito do mais profundo respeito por aquilo que é humano e pela fraternidade recíproca” (D in M 14). Por isso, a Igreja deve ser um sinal e um instrumento de misericórdia. As relações entre os fiéis precisam de mostrar e irradiar misericórdia. “Recomendo-vos que vos comporteis segundo a maneira de viver a que fostes chamados: procedei com toda a humildade, mansidão e paciência; suportai-vos uns aos outros com caridade; empenhai-vos em manter a unidade do espírito pelo vínculo da paz” (Ef 4, 1-3).

Não atingimos facilmente esta forma de vida. É um trabalho lento e árduo que exige um combate interior para vencer as tendências dos pecados capitais enraizados no coração humano. São, de facto, segundo a tradição da Igreja, como sete raízes sempre prontas a desabrochar se não forem constantemente vigiadas: soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça. Sete portas para o mal que temos de fechar cuidadosamente.

A vida comunitária confronta-se, portanto, continuamente com vários obstáculos provenientes do individualismo e da vaidade do ser humano em geral, bem como de várias “tentações dos agentes da pastoral” (Cf EG 76-109). Notamos essas dificuldades nos “pecados paroquiais” (expressão do Papa Francisco) que se manifestam em todos os membros da Igreja (clero, religiosos e leigos).

Quatro princípios para a boa convivência           

Para vencer estes pecados que muitas vezes desacreditam e empobrecem a ação pastoral parece muito oportuno refletir de forma prática nos “quatro princípios que orientam ao desenvolvimento da convivência social” e que são apropriados também para a evangelização (Cf EG 221-237). Temos a boa semente do evangelho, a dedicação e zelo dos operários da messe, a abertura das pessoas à graça mas há pedras e espinhos que é necessário arrancar para que a vinha do Senhor dê fruto. Contornar e ultrapassar estes obstáculos, é praticar uma obra de misericórdia corrigindo os que erram com humildade e caridade.

Primeiro: Privilegiar o tempo e não o espaço (Cf EG 222-225)

Domina na nossa cultura e chega também aos agentes de pastoral uma tendência auto-referencial que conduz cada um a julgar-se o centro de tudo e a procurar o protagonismo pessoal. A auto-referencialidade traz como consequência, na ação pastoral, a ânsia de relevo pessoal. Em vez de nos apagarmos para realçar a ação da graça de Jesus, somos tentados a procurar a nossa glória humana em vez da glória de Deus. Ora, no trabalho do evangelho, todos devíamos, com a nossa forma de proceder, confessar como João Baptista: “Ele é que deve crescer e eu diminuir” (Jo 3, 30). Na realidade, em muitas atitudes dos agentes de pastoral, diz o Papa Francisco, manifesta-se a pretensão de “dominar o espaço da Igreja”, em vez de “sair à procura dos que andam perdidos ou das imensas multidões sedentas de Cristo” (EG 95).

Por isso, é importante atender a este primeiro princípio que nos leva à preocupação em iniciar processos e não em possuir espaços; em privilegiar o tempo do processo lento da conversão, do amadurecimento das consciências, das etapas de desenvolvimento da vida espiritual, em vez de querer mostrar resultados imediatos ou alcançar relevo pessoal; a confiar mais na ação da Providência e na força do Espírito Santo do que nos meios humanos ou nas capacidades pessoais. Pede também este princípio que façamos a opção de ser semeadores e semente que cai na terra e morre para dar fruto e não realizadores de eventos espetaculares.

Segundo: Enfrentar os conflitos desenvolvendo a comunhão nas diferenças

A união de almas e corações deveria marcar a vida e a imagem da Igreja. De facto, a nossa missão é construir a paz e ser, num mundo de muitas divisões e conflitos, sinal e fermento de unidade, construindo pontes numa sociedade dividida. Esta missão só é possível e eficaz se começarmos pela própria casa da Igreja. “Enquanto no mundo especialmente nalguns países, se reacendem várias formas de guerras e conflitos, nós cristãos, insistimos na proposta de reconhecer o outro, de curar as feridas, de construir pontes, de estreitar laços e de nos ajudarmos a carregar as cargas uns dos outros” (EG 67).

Por isso, é tão oportuno este segundo princípio que nos orienta a dar mais importância ao que nos une do que ao que nos separa (EG 226.230). Sem ignorar ou iludir os conflitos. Sempre existiram e existem. Provêm, antes de mais, das perspectivas e sensibilidades diferentes, aumentadas pela auto-suficiência, inveja, crítica malévola, agressividade e azedume. Como vencer estes sintomas negativos em nós e à nossa volta? Se aos conflitos correspondemos com uma atitude fechada de quem tem toda a razão, é a espiral do mal que cresce. Só pela bondade, pela misericórdia e pelo perdão podemos vencer as origens e os rebentos dos conflitos.

Não podemos vencer as discórdias sem uma atitude de tolerância e compreensão e um diálogo respeitador e humilde que nos permita, primeiramente, ouvir as razões e reconhecer e apreciar o que têm de positivo as diferenças; depois, acrescentar outros aspetos diversos que alargam e enriquecem a perspectiva. E colocando sempre em primeiro, o respeito pela dignidade de todos e pelas opiniões diferentes.

Terceiro: Considerar a realidade mais importante do que a ideia

Outra tentação forte na cultura atual e que influencia a vida social, política e eclesial, é a tentação de interpretar a realidade de acordo com as ideias ou conveniências próprias. De modo frequente, na vida política, o mesmo facto é lido e apresentado de forma diferente por cada partido. Em vez do todo, realçam-se algumas partes que favorecem a própria ideologia e interesses; em vez da realidade vêem-se apenas alguns aspetos; em vez da verdade apresentam-se meias verdades que são também meias mentiras. Esta tentação, mais visível talvez nos partidos políticos, mostra-se também naturalmente, na vida social e eclesial.

No cristianismo, este terceiro princípio fundamenta-se na “Encarnação da Palavra e no seu cumprimento e é essencial à evangelização (…). Por um lado, leva-nos valorizar a história da Igreja como história de salvação (…). Por outro lado, impele-nos a pôr em prática a Palavra, a realizar obras de justiça e de caridade nas quais se torne fecunda esta Palavra” (EG 233). As ideias, e designadamente a mensagem do evangelho, têm força de transformação quando apresentadas em exemplos concretos, em frutos visíveis que mostram a qualidade da árvore. É o que descobrimos na tradição da Igreja e nas vidas dos santos.

Este critério, além de nos desafiar a vencer a perspetiva parcial e partidária que interpreta a realidade segundo a ideologia ou as conveniências do grupo, convida-nos também a ler e a pregar o evangelho numa relação constante com a realidade, experiências e questões concretas dos destinatários. Para ser fiéis à pedagogia da Encarnação devemos apoiar a pregação em sinais e testemunhos da vida real. (Cf EG 231-233).

Quarto: Considerar o todo como superior à parte

Somos muito condicionados por pormenores correndo o risco de nos basearmos neles para julgar as pessoas esquecendo o conjunto das suas qualidades; por outro lado, concentramo-nos em partes da realidade a que estamos afetivamente ligados esquecendo o todo que dá sentido e consistência às partes (exemplos: uma paróquia que se fecha no seu território e não tem presente as diretivas da Igreja diocesana; um pároco que esquece que a paróquia é uma célula do organismo diocesano no qual encontra a sua eclesialidade; um Secretariado ou um Movimento que não cuida da comunhão diocesana; um grupo paroquial que entende a pastoral restrita à sua atividade).

Este princípio desafia-nos a não perder de vista a visão global e procurar, ao mesmo tempo, o sentido da realidade local para “caminhar com os pés na terra” (EG 234-237). Tem, portanto, ampla aplicação pastoral: a comunidade é superior ao ministério, este existe em função da comunidade e não vice-versa. O bem e as propostas da Igreja (diocese) são mais importantes do que os programas pessoais ou paroquiais: o bem comum deve estar acima do bem individual.»

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