Humanidade e gestos concretos de um simples cristão. Artigo de Andrea Riccadi, fundador da Comunidade de Santo Egídio


Osservatore Romano/Pool photo via AP

Durou poucas horas a viagem do Papa Francisco em Lesbos, mas foi rica de mensagens. O papa moveu-se sem protagonismos entre o Patriarca Bartolomeu e o arcebispo ortodoxo grego Hieronymos. Ele indicou um via à política europeia, bloqueada pelo medo dos populismos. Ele abordou o jogo ambíguo de uma política, tencionada a descarregar refugiados sobre os outros, porque fazem perder votos.

Andrea Riccardi, Comunidade de Santo Egídio, em Corriere della Sera, 17-04-2017.

Francisco não compartilha a rejeição dos refugiados (muçulmanos) em nome da defesa da identidade cristã, como ocorre no Leste Europeu, nem como mostra a atitude pré-eleitoral da Áustria no Brenner, ou o acordo da União Europeia com a Turquia para bloquear migrantes e refugiados em troca de vantagens político-económicas. 

Francisco levou um forte apoio à Grécia em crise, sobre a qual se descarrega grande parte dos refugiados rumo à Europa. O papa se moveu como um simples cristão com humanidade e gestos concretos. Acima de tudo, ele encontrou-se com os refugiados e escutou-os, lembrando com um tuitter «os refugiados não são números, mas pessoas». Ele visitou Moria, um campo de refugiados de triste aspecto.

A declaração conjunta dos "três anciãos" afirma: «A Europa hoje se encontra diante de uma das mais sérias crises humanitárias desde o fim da Segunda Guerra Mundial.» É uma catástrofe mundial. Nela, a Igreja Grega se moveu com generosidade, distanciando-se de outras Igrejas temerosas dos muçulmanos.

O papa conhece as preocupações das pessoas diante de uma ''invasão". O convite, porém, foi: não ser prisioneiros do medo ou do "sono da indiferença". Bartolomeu teve uma expressão estupenda para os refugiados: «Aqueles que têm medo de vocês não veem os rostos de vocês e dos seus filhos.»

Francisco tomou como paradigma a atitude dos habitantes de Lesbos (em parte descendentes de refugiados da Anatólia). Ele o propôs à Europa «uma humanidade que não quer construir pontes e se refugia na ilusão de levantar cercas para se sentir mais segura».

As barreiras criam divisões e, depois, confrontos. E aqui se coloca o gesto concreto do papa: trazer no avião como seus hóspedes, 12 refugiados sírios (muçulmanos), um fragmento da torrente de quatro milhões e meio de refugiados da Síria na Turquia, Líbano e Jordânia.

Uma família vem de Deir el-Zor, cidade do deserto sírio ocupada pelo Daesh. A cidade, desde 1915, foi desembarque de muitos arménios deportados (depois, em parte, mortos).

O papa tomou, como seus hóspedes, seis crianças que trazem nos olhos as imagens da guerra e nunca conheceram a paz. Assim, convida a não ter medo dessas pessoas. O acolhimento não ameaça a Europa: para o papa, a integração é o caminho. É a lógica da "ponte", que responde também à necessidade demográfica do Velho Continente.

Os "três anciãos" – disseram – quiseram falar ao mundo em nome dos refugiados. O gesto de Francisco concretiza as suas palavras. Está alinhado com o apelo dirigido às comunidades católicas europeias em setembro de 2015, quando pediu a cada uma para acolher uma família de refugiados. A resposta não foi excelente, não por falta de disponibilidade, mas pelas amarras civis e eclesiásticas.

O papa pediu que a Europa, "pátria dos direitos humanos", esteja à altura da sua história. O sonho dos "três anciãos" é despertar – disse Hieronymos – "um movimento mundial de conscientização" sobre o drama.

Bartolomeu acrescentou com autoridade: «O mundo será julgado pela forma como tratou vocês.»

O papa, de volta entre os seus "irmãos", aceitou ser ajudado por outros líderes cristãos. Ele coloca a máquina organizativa vaticano – incluindo o trabalho do sostituto Becciu e da Secretaria de Estado – a serviço de uma obra ecuménica.

A amizade entre Bartolomeu e Francisco desempenha um papel de propulsão. Houve muito atraso apenas em um diálogo ecuménico, que se tornou ideológico. Há – como defende o padre Marco Gnavi – um ecumenismo que parte dos pobres, que chamam os cristãos à unidade.

Neles – disse Francisco – vê-se a presença de Jesus, como ensina o Evangelho de Mateus. Os "três anciãos" de Lesbos enviam uma mensagem aos cristãos para que comecem novamente a partir dos pobres. Eu me pergunto se não é necessário, também por causa das diferenças entre cristãos europeus sobre a acolhida (em todas as Igrejas), realizar um sínodo ou uma reunião de líderes cristãos europeus sobre uma problemática tão vital.

Os "três anciãos" denunciaram a guerra, "mãe" da tragédia dos refugiados: "Acima de tudo, é necessário construir a paz onde a guerra levou destruição e morte, e impedir que esse câncer se espalhe para outros lugares."

A viagem a Lesbos foi um hino, certamente doloroso, ao serviço do amor: "Esse é o verdadeiro poder que gera a paz...", disse Francisco. É o seu desafio pacífico para a Europa e para o mundo. Ele o levou à extrema fronteira europeia, pedindo para abrir uma "ponte". De sua parte, ele mesmo abriu uma porta, dizendo aos refugiados que eles não são estranhos para nós.

Ler mais:
Declaração conjunta de Sua Santidade Bartolomeu I, Patriarca Ecuménico de Constantinopla, de Sua Beatitude Hieronymos, Arcebispo de Atenas e de toda a Grécia e do Papa Francisco

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