(No 25 de abril) «os padres que iam estudar para o estrangeiro vinham com novas ideias, até por causa do Vaticano II», entrevista de Frei Bento Domingues ao Diário de Notícias


Foto: VISÃO (clicando sobre o azul, dá acesso a outra entrevista, de 2014)
Frei Bento Domingues vive no Convento de São Domingos de Lisboa, no Alto dos Moinhos, que só sente agitação quando há jogos na Luz.
Estava em Roma quando um amigo lhe telefonou da Alemanha a contar da revolução em Portugal. Saiu para a rua e ficou a olhar para os fóruns romanos, onde séculos, milénios de encontros dão a medida da história da comunidade dos homens. Aos 84 anos, explica que o que lhe interessou sempre mais foi a teologia, mas as circunstâncias políticas e sociais em Portugal solicitaram-no constantemente. Aprendeu com a mãe a dizer "isto não pode ser", descobriu nas viagens de estudo que "isto pode pode ser de outra maneira". Não se lembra bem como chegou a Lisboa naquele abril, sabe apenas que foi de avião para Madrid. Este homem que se ri com uma intensa alegria, que preza o humor como algo de essencial à humanidade, recorda a emoção que João XXIII lhe causava quando o ouvia em 1963, estava o dominicano "de castigo" e acompanhou dia a dia o Concílio Vaticano II. "Um dia perguntaram-lhe quantas pessoas trabalhavam no Vaticano. E ele respondeu: cerca de metade."

Ana Sousa Dias | Diário de Notícias | 25 de abril de 2016

Depois de muitas idas e vindas, em 1974 vivia em Lisboa mas o 25 de Abril surpreendeu-o em Roma. O que estava a fazer?
Fui lá ao congresso do sétimo centenário da morte de São Tomás de Aquino. Mas não fui só por causa disso, era também para ver em algumas instâncias do Vaticano como era possível dar informação no apostolado dos leigos sobre os presos políticos. Eu estava muito ligado à defesa dos presos políticos.

Fazia parte da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos.
Fazia parte da comissão, muito dinamizada pelo Nuno Teotónio Pereira. Juntava muitos outros, incluindo Henrique de Barros, que foi mais tarde presidente da Assembleia Constituinte e que era cunhado de Marcelo Caetano. Não era um movimento clandestino, mas tínhamos de atuar clandestinamente sobretudo para distribuir o boletim. Desde 1963, havia uma organização clandestina chamada Direito à Informação, fazíamos um boletim sobre a Guerra Colonial e os problemas do país. A determinada altura, passou a Boletim Anti-Colonial e funcionava na casa da Luísa Sarsfield Cabral, que foi presa porque alguém falou na prisão.

Conheceu a prisão?
Havia muita violência nas cadeias. Eu tive um dia de interrogatórios na [Rua] António Maria Cardoso [sede da PIDE em Lisboa], mas vi que não sabiam nada daquilo em que eu estava metido, prenderam-me por causa de uma homilia a crianças mas não tinha importância. A questão para mim era a Guerra Colonial e a miséria enorme que vinha de trás. Nasci em 1932 numa aldeia que só em 1980 teve estrada, telefone, luz elétrica, acima da Geira, a Estrada Romana, em Terras de Bouro. Não era uma zona de fome, havia uma economia de pura subsistência, o que vendiam não dava nada porque todos tinham o mesmo. As feiras eram mais para as pessoas se encontrarem do que outra coisa. Havia uma violência instaurada, porque confiscaram as zonas de baldio onde as pessoas tinham rebanhos. O meu pai era juiz de paz, foi regedor, mas a minha mãe foi sempre muito de afrontar essa situação. Fomos educados a não estar contentes com aquilo.

Educados para fazer perguntas?
Mais, a achar que não podia ser. Fui estudar para Espanha, França, Itália e Alemanha e comecei a ver que as coisas podiam ser de outra maneira. Quando regressei, fiquei no Convento dos Dominicanos no Porto, encarregado da juventude da Igreja do Cristo Rei. Esse foi o primeiro movimento misto dos católicos, de jovens dos 15 aos 20 anos. Todos os sábados havia debates sobre temas que eles escolhiam. Os jovens fizeram uma exposição chamada O Mundo Interroga o Concílio 1962, uma exposição que era o retrato do país, o retrato do mundo - no jornal de extrema-direita Agora, diziam que era um pavilhão soviético... No 1.º de Maio os pró-associativos organizaram uma visita à exposição. A praça estava cheia de jovens muito buliçosos. Eu tinha tido sugestões de que a PIDE ia entrar e então disse aos nossos jovens - entrai pela outra porta, vede a exposição e ide-vos embora. E no fim quem foi preso pela PIDE foram os da extrema-direita. Ficaram fulos e insistiram que eu tinha de sair de lá. Vim para Lisboa, depois houve aqui também uns problemas e tive de sair do país. Foi uma graça imensa porque fui para Roma e era a altura do Concílio Vaticano II.

Estando tão ligado à oposição em Portugal, sabia que estava em preparação o 25 de Abril?
Havia pessoas que tinham informação de que aquilo estava mesmo para rebentar. Eu não sabia a data, mas sabia que havia movimentações. Tinham-me dito: isto vai cair. Mas acho que houve um drama. A ditadura prolongada levou a que não houvesse alternativas de governação. Os partidos só podiam existir na clandestinidade. Havia o PCP, os da extrema-esquerda e o último a organizar-se foi o Partido Socialista. Havia um perigo grande: se não houvesse alternativas, a extrema-direita podia de novo tomar conta.

Como soube do 25 de Abril, em Roma?
Um ex-padre jesuíta, que também estivera ligado ao Boletim Anti-Colonial, estava na Alemanha e telefonou-me para Roma - olha já há uma revolução lá! Eu morava na Universidade de São Tomás de Aquino em frente aos fóruns romanos, e fui para lá passear, olhar para aquilo. Soube que não podíamos entrar, fui de avião para Madrid e depois de uns dias vim.

Como veio?
Não me recordo bem porque foi um baralhanço total. O que aconteceu para mim de surpreendente foi o 1.º de Maio, foi uma experiência má. Pensava: isto é um país de revolucionários, de repente! Um dos meus ofícios era ajudar pessoas a sair do país, e era uma trabalheira porque eram raros os que se comprometiam. De repente estava tudo na rua. Aqui há batota, pensei.

Foi convidado para vários partidos - o PPD, o PS, o MES.
Nunca entrei em partido nenhum. A relação com o Sá Carneiro era muito amiga, ele estava na Ala Liberal que tinha outros amigos meus do Porto, como o Pinto Machado. Mas eu ali não me via. O Sottomayor Cardia repetia-me muito: nós sabíamos o que não queríamos, mas ninguém sabe o que quer neste momento. Havia uma convulsão enorme, mas conseguiu-se fazer a Constituição. As pessoas não refletem no que foi o tempo longo da ditadura.

Diz isso porquê?
Porque fez que não se preparassem alternativas. As pessoas esperavam - só quem tinha uma organização clandestina muito forte é que se aguentava - mas não se pensava em termos de país. Havia o grupo ligado à chamada Primavera do Marcelo Caetano, um conjunto de bons técnicos, mas esses tecnocratas ficaram um bocado neutralizados a seguir ao 25 de Abril, porque tinham colaborado. As pessoas que não tinham experiência de governação eram as que tomavam a iniciativa, que se organizavam; as que tinham alguma experiência estavam queimadas. Foi um período difícil.

E na Igreja?
No campo católico foi algo também trágico. O cardeal Cerejeira estava sempre no palco, ao passo que o cardeal [António] Ribeiro soube sair do palco e ajudar, tinha uma boa relação com o Mário Soares. O problema católico era o mesmo, era gente muito nova das associações, dos sindicatos e naquele frenesim o que se queria era entrar na política. As assembleias dos cristãos eram muito agitadas. Uma vez vi uma pessoa tão agitada que dizia que era necessário pendurar os bispos nos candeeiros. Não era um tempo de aprofundamento das coisas. Quando vi o 1.º de Maio, pensei que significava que o país saiu da cadeia. Era o que se sentia. No 25 de Abril o que aconteceu de essencial foi que o país já não era uma cadeia. Só que depois era necessário organizar a vida livre.

Isso demorou mais?
E com muitas dificuldades. A Constituição foi aprovada mas havia uma coisa estranha, parecia que ela não servia a ninguém. Recordo-me de ter dito: ainda hão de chorar por ela. Ela vinha pôr ordem nas instituições, era o mínimo entendimento e isso era muito importante. O próprio catolicismo tinha sido moldado pelo cardeal Cerejeira e pelo desentendimento dele com o bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes. O cardeal Cerejeira nunca se importou que ele estivesse no exílio, creio que achava bem.

Era um alívio para ele?
Um bocado, porque o D. António não era fácil de torcer. Em 1966 ou 1967, numa conferência que fiz no Porto, foi a primeira vez que o Sá Carneiro se pronunciou publicamente e o problema que ele pôs foi o regresso do bispo.

Como é que o frei Bento se dava com a hierarquia da Igreja?
Eu não tinha jurisdição em diocese nenhuma do país, mas o meu provincial, que era canadiano e era um bom jurista, defendia-me. Eu pedia a jurisdição e não respondiam. E ele interpretava: não respondem, tens direito. Eu queria ajudar as pessoas que queriam sair do país, que queriam fugir à Guerra Colonial, que eram perseguidas. Mas isso era uma necessidade. O que me interessava era fazer Teologia, e estava à frente do Instituto Superior de Estudos Teológicos, uma escola democrática, fantástica, que funcionava na Estrada da Luz, na casa dos franciscanos. Estavam lá várias congregações religiosas, até os alunos do Seminário dos Olivais foram para lá quando houve uma crise. A Universidade Católica ainda estava a começar. O cardeal Cerejeira, que era contra a universidade, foi lá dizer que era um milagre. Ele fez todos os possíveis para que aquilo não abrisse... mas ele era assim, um retórico.

Como era o cardeal Cerejeira?
Era uma pessoa admirável, um sedutor. Queixavam-se muito de mim por causa das minhas posições, sobretudo teológicas. Ele chamou-me e aí começou uma coisa tremenda, porque ele chamava-me sempre "meu filho" e depois vinha com as queixas. Uma vez disse-lhe: "Isto não vai continuar, estas conversas não levam a nada. Vem-se queixar do que eu faço, tem uma pessoa que eu sei que me vigia para dar informações ao Patriarcado, mas não estou a ver que isto dê qualquer coisa." Depois houve um episódio em que ele ignorou uma conferência que eu fiz com ele presente, mas chegámos ao lanche e ele: "Ah frei Bento, como eu gosto de ti, mas tens uma teologia muito parecida com a teologia sem Cristo." E eu: "As pessoas dizem que o senhor foi um grande intelectual mas agora passou a ler dos livros apenas os prefácios, porque dizer uma coisa destas é de uma ignorância enorme."

Como era a relação dele com Salazar?
Estudaram os dois em Coimbra na mesma república e eram sinceramente amigos. Só que o Salazar era um frio e ele era um quente. Ele era de explosões de aleluias e o Salazar sabia que podia manobrá-lo afetivamente. Nas Memórias do Franco Nogueira, vê-se isso nas cartas, absolutamente embevecidas em relação ao Salazar. No final da vida, o Cerejeira disse numa carta: "Temos de nos aconchegar à lareira porque agora nem no Patriarcado gostam de nós." Havia arrufos, a partir dos problemas que houve com a JOC [Juventude Operária Católica], com a LOC [Liga Operária Católica], com o [padre] Abel Varzim, com o bispo do Porto, com o Seminário dos Olivais. Começou a haver muita coisa. Quando o Papa Paulo VI foi a Bombaim [1964], o Franco Nogueira fez cá uma manifestação pública a dizer que aquilo era uma afronta, por causa de Goa, mas os bispos não disseram nada. Depois o Paulo VI veio a Fátima [13 de maio de 1967], houve aquela manobra para não passar por Lisboa, aterrou na base aérea de Monte Real e foi direto. Mas trazia uma rosa de ouro para oferecer, um bocado por causa da afronta de ter ido à Índia.

Paulo VI também recebeu os líderes dos movimentos de libertação [em 1 de julho de 1970, Agostinho Neto, Marcelino dos Santos, Amílcar Cabral].
E isso foi o mais insuportável para o regime, ele receber os chefes dos guerrilheiros! A ligação da Igreja ao regime vinha de uma banalidade. Durante a I República houve imensos atritos, a partir da lei da separação da Igreja e do Estado de 1911, que se foram normalizando a partir do Sidónio Pais. Quando vem o Salazar, não lhe vão pedir muita coisa. Basta que a perseguição acabe. Que o Salazar continuasse no governo, isso já era uma graça divina. Ele era mesmo interpretado como enviado de Deus para salvar o país, como disse o Cerejeira. É uma igreja agradecida, no seu conjunto, porque ele é um dom.

Torna-se uma Igreja submissa?
Sim, e ao mesmo tempo os movimentos da Ação Católica eram muito ativos, sobretudo a partir dos anos 1950. O padre espiritano Joaquim Alves Correia foi posto num avião e morreu no exílio, outros padres foram mandados para fora. Alguns católicos, como o João Gomes e o Manuel Serra, que tentaram o golpe da Sé e depois o de Beja, mas eram exceções. Havia um grupo mais alargado que assinava documentos, sobre a Guerra Colonial, sobre a imprensa. Mas não podiam ir muito longe porque o episcopado estava com o Salazar, e os outros calavam-se. Havia uma Concordata, mas a concordata dava alguns benefícios. É espantoso: apesar de tudo, Salazar consagrou a separação da Igreja e do Estado, não fez como em Espanha um Estado católico.

Isso não era só formal?
Era mais do que isso. Nas eleições do Humberto Delgado [1958], ele fez um discurso que dizia: a frente unida foi rompida. E era rompida pelos católicos e pelos monárquicos. Porque o Salazar dizia: "Português, logo católico." Ao mesmo tempo, formalmente, havia a separação para ele poder ameaçar: se os bispos não sabem pôr ordem na Ação Católica, vou encarregar-me disso. O Salgado Matos tem razão ao dizer que quando o Marcelo perdeu o apoio dos católicos já não tinha hipótese de seguir. Mas as coisas tinham as suas subtilezas e as suas grosserias. Para uns parecia um casamento, para outros parecia que estavam com arrufos.

Essa submissão da Igreja ao regime e as críticas que faziam às suas ideias teológicas nunca o afastaram da fé?
Ah não, nunca. Era ao contrário. O que eu tinha estudado, o que eu tinha aprofundado, o que eu refletia, era a incompatibilidade da fé com o regime. Nunca entrei em nenhum partido, não era essa a minha função na Igreja nem na sociedade. Era testemunhar como Jesus testemunhou no meio do seu povo, para mim era isso. Por isso estive ligado à Teologia da Inculturação em África e à Teologia da Libertação na América Latina. Como é que se podia ser cristão, católico, e ao mesmo tempo apoiar uma guerra, não haver condições de vida decente para a população? Como era possível ter uma visão tão tacanha do país? Ele dizia-se católico, o Salazar, mas nem sequer queria que existisse a Universidade Católica.

Porque tinha medo?
Tinha medo. Só consentiu a Universidade Católica quando viu que os padres que iam estudar para o estrangeiro vinham com novas ideias, até por causa do Vaticano II. Então ele disse - o melhor é formá-los cá. Foi por causa dessa rebelião.

Como é que o cardeal Cerejeira reagiu ao Vaticano II?
Fez uma manobra muito engraçada. Eu ria-me, outras vezes indignava-me. Ele dizia: nós já estamos muito mais avançados do que o Vaticano II. Fazia uma ultrapassagem pela esquerda.

Que não tinha sustentação?
Nenhuma. Não levaram teólogo nenhum para o Vaticano II, estavam muito impreparados porque não havia cá ensino superior de Teologia. Era um mundo fechado, não provocava investigação, reflexão. Os bispos da América Latina levaram vários ao Vaticano II para terem a experiência daqueles debates. Os grandes teólogos centro-europeus davam-lhes quase aulas. No caso português não. "Já estamos muito mais longe do que isso...", dizia Cerejeira. Era de um ridículo enorme. E depois proibiram que se discutissem os documentos do Vaticano II sem a presença de uma autoridade eclesiástica. Por isso é que quando veio o 25 de Abril os católicos debandaram para a política: dentro da Igreja Católica não havia debate. Havia muitas coisas em torno da paz, e têm sido escritas obras muito boas sobre os católicos na preparação do 25 de Abril, houve coisas admiráveis. A Universidade Católica estava a começar, até ter uma tradição teológica, no sentido de escola, leva tempo.

O que mudou nestes 84 anos que já viveu é extraordinário.
E tudo me deu muito riso. Era um país, do ponto de vista cultural, muito ridículo, fechado. Tivemos um Fernando Pessoa e outras pessoas fantásticas, mas eram indivíduos. Havia tertúlias, grupos de amigos, mas não havia uma forma de cultura ativa. Rio-me um bocado disso. Conheci a Agustina, fascinei-me com a escrita dela. E a Sophia - estávamos juntos na Comissão de Socorro aos Presos Políticos e acompanhei-a muito nos últimos anos. Ri-me imenso com ela, tinha um humor fantástico.

E viveu muito fora de Portugal, também.
Depois dos dez anos que passei ligado a África, depois dos dez anos na América Latina, penso: ao fim e ao cabo, andava de espanto em espanto. Aconteciam sempre coisas novas, via sempre coisas novas, havia sempre algo que fecundava a inteligência e as relações humanas. São muitas as calamidades mas há gente fantástica por todo o lado, em todos os momentos. Havia muitas coisas que me davam vontade de rir.

Ainda hoje?
Ainda hoje, imensas. Às vezes chorava de alegria nas audiências do Papa João XXIII. Achava-lhe uma graça enorme porque era como se os que lá iam fossem todos paroquianos, ele tinha amigos por todo o lado, "leva um abraço a este ou àquele". De repente eu vi: mesmo a Igreja - não só o Evangelho, não só Jesus Cristo, não só a presença da graça de Deus neste mundo - tem manifestações.

Como era o Papa João XXIII?
Era uma pessoa excecional e tinha muitas saídas divertidas. Perguntaram-lhe como lhe veio a ideia de fazer o Vaticano II e ele respondeu: "Estava a fazer a barba." Outra vez, perguntaram-lhe quantas pessoas trabalhavam no Vaticano e ele respondeu: "Mais ou menos metade." Era sempre uma alegria de pessoa. Depois veio o inverno, com o Paulo VI, notabilíssimo, mas era um assustado. Era mesmo um homem assustado, no meio da ponte, não sabia se devia ir para ali ou para o outro lado. Enganaram-no com a Humanae Vitae [Encíclica, 1968] e todas essas coisas. Depois veio um papa fantástico que me dava imensa vontade de rir, o João Paulo I. Distraiu-se, começou a chamar Pai e Mãe a Deus, tinha muito humor. Dizia que ia fazer uma reforma. A feição do humor é muito importante nas pessoas. O João XXIII tinha criado esse ambiente. Quando desaparece o humor, tudo o resto fica descolorido. Depois veio a exuberância com o João Paulo II, tenho imensas fotografias porque estava na Universidade São Tomás de Aquino em ano sabático, logo no ano a seguir a ele ser eleito. Ele era uma irradiação enorme. Depois fiquei muito triste com as posições dele. O Bento XVI era um grande teólogo, um homem brilhante, mas não tinha humor nenhum, por isso condenava a Teologia da Libertação, a teologia asiática, a teologia africana, a teologia centro-europeia, condenava tudo, ficava só ele. Não tem graça. Uma pessoa não se pode rir sozinha.

A chegada do Papa Francisco foi o regresso ao humor?
O Papa Francisco tem características muito originais, é um homem em conversão permanente, em mudança permanente. Teve também um tempo duro mas depois foi-se abrindo e todos os dias lhe vem uma ideia nova, um gesto novo. Parece muito severo e depois começa a rir. Mesmo quando diz as coisas mais terríveis, que nunca ninguém disse, por exemplo, que tem encontrado ateus muito melhores do que homens religiosos, diz isso mas depois desata a rir. Ele tem o sentido do limite, nunca se arma em papa infalível. Diz: "Parece-me, mas isto depois tem de ser examinado." Ainda agora este documento colossal da Alegria do Amor é um bocado também a alegria do humor. Porque ele remeteu para as pessoas, para as dioceses - pensem, eu tenho esta ideia mas isto tem de ser revisto por todos. E a teologia também deve ser revista, essa teologia de gabinete, fria.

A própria infalibilidade do papa?
É isso que eu queria dizer. Ele mesmo se ri dela. Há portanto algo que me parece que é muito importante. Havia muito humor em relação ao Salazar mas eram anedotas inócuas porque eram sempre entre os mesmos. O humor tem de ser entre as pessoas. O humor de resistência é necessário mas é curto. O humor de vida é a alegria. E encontrei sempre pessoas absolutamente extraordinárias que tinham um sentido de humor! Há uma passagem na Bíblia em que se diz: "E Deus ri." E acho que tem grandes motivos para rir, porque algumas coisas saíram-lhe muito mal. Mas enfim, a vida é assim.

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