O jornal semioficial do Vaticano, L’Osservatore Romano, no seu suplemento feminino de Fevereiro, publicou uma série de artigos recomendando que se dê às mulheres a possibilidade de proferir a homilia durante a celebração da Eucaristia. A insistência não passou despercebida. Terá sido um pré-anúncio do que virá, depois de o Papa Francisco ter, por mais do que uma vez, advogado para as mulheres papéis de maior destaque na Igreja, mesmo reiterando a proibição da ordenação sacerdotal?
P.e José Mendes Rebelo, em Além-Mar, maio de 2016
A pregação tem sido uma prerrogativa masculina, reservada ao clero durante quase 800 anos, desde que o Papa Gregório IX, no início do século XIII, como parte do movimento de consolidação do poder do papado e do clero, efectivamente vedou aos leigos – homens e mulheres – o exercício desse ministério, especialmente em matérias teológicas e doutrinais, consideradas terreno reservado aos clérigos instruídos.
O Código de Direito Canónico, promulgado por João Paulo II em 1983, estabelece que «entre as formas de pregação destaca-se a homilia, que é parte da própria liturgia e se reserva ao sacerdote ou diácono». A instrução Redemptionis sacramentum de 2004 reiterou a mesma doutrina. Tem havido excepções. A mais conhecida aconteceu em 1973, ano em que Paulo VI concedeu à Conferência Episcopal Alemã permissão, por um período experimental de oito anos, para que os leigos – na sua maioria mulheres – pudessem pregar.
Enzo Bianchi, fundador e líder da Comunidade Ecuménica de Bose, nas periferias de Milão (Itália), diz no seu artigo que seria um «passo decisivo» para responder aos apelos – incluindo do papa – para encontrar maneiras de atribuir às mulheres um papel mais relevante na Igreja. Para o conhecido autor, assim como para os outros articulistas, seria o retorno à tradição do primeiro milénio de Cristianismo, a uma época em que as mulheres eram regularmente autorizadas a pregar perante padres, bispos e mesmo do papa. Aliás, Maria Madalena era frequentemente referida como «o apóstolo dos apóstolos» porque, na manhã de Páscoa, Jesus encarregou-a de transmitir aos discípulos a mensagem da ressurreição.
A homilia é, frequentemente, alvo das queixas dos católicos. Não é raro ouvir os fiéis a lamentarem a pobreza e irrelevância do que os padres dizem – quando conseguem ouvi-los –, presume-se que por falta da devida preparação. O Papa Francisco, em A Alegria do Evangelho, reconhece que «muitas vezes, tanto eles (fiéis) como os próprios ministros ordenados sofrem: uns a ouvir e os outros a pregar». Por isso mesmo lhe dedicou um capítulo.
É cada vez mais comum encontrar religiosos e leigos, incluindo mulheres, bem preparados a todos os níveis, envolvidos na liderança de grupos de oração e reflexão, na condução de retiros e na direcção espiritual. Seria difícil conceder-lhes a oportunidade (através de um mandato conferido pelo bispo local) de partilhar o «pão da Palavra» que faz parte das suas vidas com a assembleia dos crentes na missa? Sondei alguns missionários veteranos e todos se mostraram favoráveis.
Além da componente doutrinal e de ensino, a homilia tem uma componente exortativa que será tanto mais efectiva quanto mais se basear na experiência pessoal. Ora, em matéria de vivências, é difícil rivalizar com as mulheres. Portanto, quem melhor do que elas para dar uma perspectiva diferente dos textos sagrados, alimentar a reflexão da comunidade e inspirar novas atitudes de compromisso? Conferir o ministério da pregação aos leigos enriquecerá certamente a vida da comunidade cristã.

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