Eu te seguirei, Senhor


Jesus tomou a firme decisão de partir para Jerusalém (Lucas 9, 51-62). Sabe o que está à sua espera naquela cidade. Foi sem dúvida o que escolheu e assumiu, mas o relato da sua «agonia» em Getsêmani, entre outros textos, mostra que teve muito medo deste lamentável e doloroso final.

P.e Marcel Domergue, SJ, em 

Jesus sabe que irá ressuscitar, mas para uma vida totalmente diferente, num «outro lugar». Ele está, de facto, numa situação análoga à nossa. A estrada para a Vida exige a morte de todo o passado: e esta é uma necessidade que está presente em toda a Bíblia. A começar por Génesis 2, 24, onde lemos que o homem deverá deixar seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher. Da mesma forma, o mundo começará de novo com Noé, depois que o dilúvio engoliu a antiga criação. Cenário análogo se dará com respeito à torre de Babel. E, mais tarde, Abraão terá de deixar o seu país e a sua família, a fim de tomar a estrada rumo a um futuro desconhecido. Na Bíblia, sempre tudo está em movimento.

A caminho para um “outro lugar”
A vida está sempre num outro lugar, mais distante. Na primeira leitura (1Reis 19,16.19-21), vemos Eliseu queimar tudo o que fez parte do seu passado, para partir e seguir Elias, rumo ao desconhecido. Partir, seguir, rumar: tudo em ordem a Deus...

O caminho da liberdade
No Evangelho (Lucas 9, 51-62), Jesus não força ninguém. Se os samaritanos se recusam a recebê-lo, vai para outro lugar. As suas cidades não serão «punidas»; não virá o fogo do céu para as destruir.
O que fazem os homens constrangidos e forçados não conta, pois só podemos ser nós mesmos fazendo-nos imagem e semelhança de Deus, que é soberanamente livre. Abandonar tudo o que foi nosso passado é também uma libertação.
É nesta perspectiva que é preciso ouvir as palavras de Jesus aos três homens que dizem querer segui-Lo. Não fiquemos chocados pelo que Jesus responde ao homem que deseja segui-lo, mas só depois de enterrar o pai: «Deixa que os mortos enterrem os seus mortos...» O passado é que está morto! A nossa própria morte é o fim do nosso passado; é então que o abandonamos realmente, junto com este corpo recebido do nosso pai e de nossa mãe e que agora nos escapa. 

Podemos ler nesta perspectiva, de evasão do passado, o que Paulo diz aos Gálatas na segunda leitura (Gálatas 5, 1.13-18): as pessoas têm dificuldade para mudar de regime, para passarem de um culto à Lei, ou seja, da confiança depositada naquilo que fazem, à confiança depositada num Outro. 

A cada instante, temos de nos deixar animar pela novidade do Sopro de Deus, o Espírito (cf. João 3). No nosso corpo, temos um sinal: cada respiração vem substituir a que lhe precede.

O caminho da Vida
Não podemos receber a vida que Jesus nos dá, se não O seguimos para onde Ele vai. Dar a própria vida não tem forçosamente o caráter trágico de ser levado à morte. Só podemos chegar até aí através da fé no triunfo da vida, de uma vida que não economiza a morte, mas a supera. E isto é crer na omnipotência do amor encarnado em Cristo, é segui-Lo no único caminho que, paradoxalmente, nos conduz à Vida.

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