«Quando nos esquecemos de nós mesmos para fazer com que os outros vivam é que começamos a existir» - comentário ao evangelho deste 12.º domingo comum
Confessar que Jesus é o Messias de Deus implica num caminho que não é como os outros: um caminho que nos leva a perder a própria vida, para salvá-la.
Reflexão de P.e Marcel Domergue (SJ), em Croire. Tradução de Francisco, João Bosco e José Lara.
A passagem do evangelho que lemos neste domingo (Lucas 9,18-24) situa-se entre a multiplicação dos pães, que prefigura a última Ceia, e a Transfiguração, em que Jesus discute com Moisés e Elias a respeito «de seu êxodo que se consumaria em Jerusalém».
Mais adiante, no versículo 51, veremos Jesus «tomar resolutamente o caminho de Jerusalém», onde será crucificado. Isto significa que a atual leitura, que inclui o primeiro anúncio da Paixão, se situa numa guinada do Evangelho de Lucas.
Antes da sua última viagem, Jesus informa aos discípulos sobre o que O espera e sobre o que os espera. Mais uma vez, surge a questão: «Quem eu sou?» A resposta de Pedro é ambígua: de facto, o Messias é considerado «filho de David», herdeiro da sua realeza e da sua glória. David é célebre por seus feitos de guerra e por ter estabelecido o povo eleito em Jerusalém.
Jesus não quis que os discípulos ficassem a repetir que ele era o Messias, por causa do mal-entendido quase geral, a respeito do sentido desta palavra e da missão deste «Messias». E, também, a respeito da sua identidade profunda: este filho de David deverá ser reconhecido como o Filho de Deus.
Deus connosco, até o fim.
Digamos que, por Cristo e em Cristo, Deus desposa o destino do homem até o fim. «Fim» que é a rejeição, o ser lançado fora da Humanidade, de que tantos homens padecem. Alguns, como se diz, é porque ‘aprontaram’, ou, ao menos, deram pretexto para esta exclusão. Mas Cristo foi mais longe: sem razão alguma é que foi «suprimido».
No seu caso, o totalmente justo, o justo pela justiça de Deus foi quem sofreu a sorte do injusto. E assim cumpriu-se a soberana injustiça, o excesso insuperável do que chamamos de «pecado» e que equivale a destruir, em nós e nos outros, a imagem - o ícone - de Deus. Esta culminância do pecado veio chocar-se com a culminância do amor.
Odiado sem haver qualquer razão, será sem razão que o Cristo irá amar até ao ponto de entregar o que querem lhe tirar: a própria vida. O gesto, portanto, de tirar-lhe a vida será de toda forma desarmado: pois não há necessidade de se apoderar daquilo que é dado.
Em Génesis 3, o ser humano tenta apoderar-se do «ser como Deus» enquanto isto mesmo lhe fora dado, quando Deus o criara «à sua imagem e semelhança» (Génesis 1). Jesus anuncia, portanto, aos seus discípulos, que irá encontrar-se com o homem em sua pior aflição. Aonde quer que possamos ir, até mesmo na pior decadência, Cristo permanecerá sendo Emanuel, o Deus consosco.
Viver é dar a vida
O amor absoluto ultrapassa-nos, porque os nossos diversos amores não chegam nunca até ao de Jesus. Ele, no entanto, convida-nos a unirmo-nos a Ele no dom da vida: «Se alguém Me quer seguir, tome sua cruz cada dia e siga-Me».
«Cada dia», diz Jesus. Esta precisão faz-nos compreender que não se trata forçosamente de oferecer-nos a uma morte violenta: ninguém pode ser morto «cada dia». Mas podemos cada dia viver para os outros, consagrar a nossa inteligência e as nossas forças para fazê-los existir e até mesmo, simplesmente, facilitar-lhes a existência.
Quando nos esquecemos de nós mesmos para fazer com que os outros vivam é que começamos a existir.
Um pai, uma mãe, torna-se pai, torna-se mãe, torna-se cada qual ele mesmo, tão somente pela geração do outro, que é o seu filho.
Jesus diz que guardar a própria vida para si, que viver em torno de si mesmo, equivale a um suicídio. Sair de si mesmo para ir até aos outros é uma libertação: só existimos através das relações.

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