A difícil relação entre a Igreja e a Europa


A lição que o chefe de Estado italiano proferiu na quinta-feira, 18 de agosto, sobre De Gasperi, em Pieve Tesino, foi dedicada ao europeísmo do estadista católico. Ela oferece a ocasião para nos interrogarmos sobre uma fraqueza invisível da Europa, que tem que ver com a Igreja de Roma.

Alberto Melloni, historiador italiano. professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, em Bolonha, em La Repubblica, 17-8-2016. Tradução: Moisés Sbardelotto, Unisinos

A Europa projetada por três líderes que falavam alemão e pensavam em católico – De Gasperi, Schuman e Adenauer – era alimentada por uma utopia em si mesma ambígua. Eles podiam pensar a Europa das liberdades constitucionais e dos partidos democráticos, porque Pio XII, de facto, entrevia naquele projeto a revanche de uma cristandade neocarolíngia.

A um Vaticano que olhava para a democracia como para um instrumento a ser aceite só por ser realisticamente preferido "pelos povos" (uma democracia "aeuropeísta"), eles impunham a democracia como forma de uma sociedade em que o pluralismo político, ético e religioso é a substância das liberdades de todos (e, portanto, uma democracia necessariamente europeísta).

Assim, uma Igreja imatura em relação às liberdades democráticas contribuiu para dar origem, por serendipidade, a uma Europa totalmente diferente da pacelliana: uma Europa "dos direitos e das liberdades", segundo a bela fórmula do Papa Francisco, em um entrelaçamento de culturas em que, paradoxalmente, a corda "branca" se sustentou, com o benefício de todos, por muitas décadas.

O Papa Francisco recentemente perguntou «O que te aconteceu?» àquela Europa, bem sabendo que, enquanto isso, muita coisa tinha acontecido na sua casa. Primeiro, com a batalha wojtyliana pela menção das "raízes cristãs" no preâmbulo da Constituição: pedido inútil e fracassado, mas que desapaixonou a Santa Sé de uma carta que mudaria a história.

Depois, com Ratzinger, convicto de que a posição europeia sobre as pessoas gays impediria à Igreja a liberdade de declarar a homossexualidade como "uma desordem objetiva": isso favoreceu a ideologização de um debate de um porte bem diferente.

E, por fim, com a insistência bergogliana na agenda revolucionária global em matéria económico-ambiental que tornou a aspiração europeia a um papel internacional no sonho caduco de uma "avó" (não acredite nela como uma expressão afetuosa), já estéril, à qual se recomenda que cuide de refugiados e migrantes sob a chantagem dos partidos xenófobos, em vez de lhe pedir que cuide das guerras e das injustiças que os produzem.

Na retirada da Igreja em relação ao compromisso com a Europa, não podia haver compensações por parte de movimentos, cuja prioridade é a sua própria marca; nem por parte dos poucos líderes católicos dos grandes partidos europeus, que as contingências eleitorais forçam a recitar na Europa a parte mais útil para fins internos. E nem mesmo por parte das autoridade episcopais: de facto, há uma Conferência Episcopal Europeia da Igreja Católica, a CCEE, que, na realidade, é tão imperceptível que nem mesmo o papa se sentiu no dever de levar o seu presidente, o cardeal Peter Erdö, para Lesbos ou para Pantelleria; existe um órgão, a Comece, que representa 28 conferências episcopais dos países da União Europeia em Bruxelas, mas se ocupa do "diálogo estruturado"; é a mesma tarefa da KEK, a Conferência das outras Igrejas não católicas, presidida por Sir Christopher Hill, bispo da Igreja Anglicana que lutou contra o Brexit, sem um sinal de solidariedade infracristã. Havia as Assembleias Ecuménicas iniciadas pela KEK e pela CCEE em 1989, mas se esgotaram em três convocações, sem lamentos e sem desgastes.

Desprovida, assim, não por culpa sua, de uma contribuição vital, a Europa continua à espera daqueles cristãos profetizados por Francisco, que, com a água do Evangelho, saberão irrigar as raízes dos direitos e das liberdades europeias. Mas, para fazê-los, é necessário um longo tempo: como diz Dom Matteo Zuppi, a Igreja está em saída, mas parada há três anos e meio na plataforma...

Daqui até lá, a Europa continua em perigo, e também está em perigo a consciência da democracia que tornou a Europa necessária aos olhos dos estadistas do pós-guerra. Mesmo nos tempos de Schuman e De Gasperi, a verdadeira questão até da relação com o papado era o valor da democracia: hoje, em uma cultura onde a desintermediação coloca o poder a um tuíte de distância da opinião pública, a democracia se revela vulnerável por um novo tipo de instrumentalismo.

Não mais a democracia funcional a uma hegemonia católica, como esperava Pacelli, mas a democracia funcional a uma opinião pública facilmente indignável e facilmente manipulável: o que a Europa deve temer, porque já conheceu as suas versões e os seus resultados, e que poderia dilacerar o continente com desigualdades e conflitos destinados a ser regulados pela Lei de Cameron: "Se for preparado com a devida inconsciência, o pior cenário sempre encontra uma forma de se tornar realidade".

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