As raízes cristãs da Europa: verdade histórica e desafios


Europa, descobre as tuas origens, reaviva as tuas raízes, proclamou o Papa em 1999, na abertura do Sínodo[1]. Na Exortação Apostólica pós-sinodal “A Igreja na Europa”, João Paulo II lamenta “a crise da memória e herança cristãs, acompanhada por uma espécie de agnosticismo prático e indiferentismo religioso”[2].

Este nosso encontro não quer, ao intentar perceber os desafios do futuro, incorrer no erro de “delapidar o património que [lhes] foi entregue pela história”[3]. Para que as tentativas de construção europeia não reduzam a herança cristã a “vestígios do passado”, ou nem sequer queiram reconhecer a verdade histórica irei recordar esses momentos essenciais. Assim espero poder contribuir para que a “crise de memória” não conduza ao medo de enfrentar o futuro, consequência de andarmos envolvidos em confusão mental, na cultura do presente.

Pe. Carlos Azevedo nas Jornadas Missionárias nacionais de 2004.

1. A multiplicidade de raízes da memória europeia
Aquele conjunto de valores que geralmente identificam a Europa como baseada na influência do cristianismo tem múltiplas raízes. O Papa reconhece-o (n.19). O papel do cristianismo na Europa, mesmo quando avaliado nas suas perspectivas negativas, é indiscutivelmente importante[4]. Podemos brevemente elencar alguns desses elementos: a confissão da supremacia do valor da pessoa humana e da sua dignidade inalienável; o reconhecimento do carácter sagrado da vida humana e do papel central da família; a importância da instrução e da liberdade de pensamento, de palavra e de religião; a tutela legal dos indivíduos e dos grupos e a subordinação do poder político à lei; a promoção da solidariedade e do bem comum; a verificação da dignidade do trabalho; uma visão teleológica da história.

Não seria justo, ao evocar as raízes cristãs da Europa, esquecer a complexidade da questão da identidade europeia. Não há uma clara unidade identitária. Não há uniformidade mas diversidade. Se, como os outros continentes, é feita de fragmentos, a Europa é contudo peculiar porque nela os povos e as identidades relacionaram-se ou por confronto ou por união e assimilação. As diferentes culturas procuraram viver em comum, a ponto de Eduardo Lourenço falar de “sublime não-identidade” da Europa[5]. O que a identifica é a diferença plural, a mistura de seiva proveniente de diferentes raízes.

A génese da Europa tem início na Idade Média. Só com a queda do Império romano e a afirmação dos povos ditos bárbaros se alargou o que antes se circunscrevia a impérios de fronteiras restritas. É nesse momento que surge a influência do judaísmo, sobretudo veiculado pelo cristianismo. O cristianismo foi o grande motor da construção europeia, enquanto referência identificante unitária. Assim vingou uma unidade constituída por diversidade de origens. O cristianismo “como constelação cultural e social euro-asiática, unifica em si elementos judaicos, gregos, romanos e “bárbaros”[6].  Há nesta unificação, politicamente controlada pelo Imperador ou pelo Papa, uma unidade mantida na pluralidade interna, como resultado de um trabalho cultural lento e profundo do cristianismo.

Entra nesta composição o espírito da Grécia antiga, onde tem origem o pensamento reflexivo, crítico e científico que foi lançado por todo o mundo.

Da conjugação entre a ordem da romanidade e a civilização helenístico-romana se desenvolve a cultura da qual herdamos a função da formação intelectual, com a escola. O sistema educativo transmite o cânone cultural, a selecção de autores e a crítica de ideias.

Dos povos germânicos veio o espírito jurídico e administrativo, herança romana de todo o Ocidente que sublinhou a ordem, na convivência orientada por leis.

No século IX (863-885), quando o cisma entre Oriente e Ocidente se começava a preparar, dois irmãos bizantinos cultos, santos, fiéis a Roma, cristianizaram o mundo eslavo, introduziram uma terceira língua litúrgica e criaram um terceiro ângulo cultural europeu: Roma, Bizâncio, eslavos. A tentativa cirílica representava a síntese entre o direito romano e a mística bizantina, entre a cruz-espada germânica e a cruz-amor oriental. Os dois irmãos acolheram a voz de Deus na voz do tempo. Nessa época Roma (João VIII) percebeu o “Kairós”, o sinal dos tempos e aprovou a liturgia eslava. A experiência de Cirilo e Metódio seria perseguida e esmagada pelos bispos bávaros com sangue e lágrimas, em perfeito colonialismo, em nome de Deus. Em 1970 os seus sucessores pediram perdão. Assim se atrasou o progresso cultural de todo o ocidente, impedindo o influxo de civilização grega e da cultura bizantina no território germânico. A fecundação do Oriente pelo espírito grego, efectuado na tardia Idade Média, poderia ter-se operado já no século IX e talvez se tivesse impedido a divisão entre Europa oriental e ocidental. Os Eslavos podiam ter sido os mediadores autónomos entre Oriente e Ocidente.

Se hoje o Ocidente é vítima de um profundo secularismo é porque entrou no racionalismo, sem o espírito oriental místico. Foi momento de oposição de duas concepções de Igreja: uma baseada na ideia feudal dos Francos, que valorizava o politico-jurídico do mistério cristão e outra fundada na Igreja como sacramento de salvação, submetida apenas a Deus.

A história da evangelização dos povos escandinavos é bastante atribulada. Na Dinamarca a conversão dos saxões origina uma reacção pagã que reforça as defesas contra o império carolíngio. No século IX, Ansgário (801-865), monge de Corvey, adopta diversos métodos que não conseguem a conversão dos suecos. È a época em que os escandinavos, os vikingos saqueiam a Europa ocidental. Só a conversão dos chefes escandinavos, instalados na Inglaterra ou França um século depois, vai abrir algumas portas. Nos meados do século X o rei da Dinamarca, Haraldo, recebe o baptismo. Uns anos mais tarde será Olavo (1014-1030) da Noruega. A Islândia fez-se cristã no ano 1000. A Suécia apenas no princípio do século XI e durante o século XII. A obra deve-se sobretudo a missionários ingleses. O estabelecimento de dioceses será lento e a mudança de costumes difícil. Só no século XII legados romanos normalizaram a situação.

Mas prévio a estes elementos da composição cultural europeia há um outro. É que a fé cristã só é cristã enquanto traz no coração a fé judaica. Da concepção bíblica do ser humano “a Europa tirou o melhor da sua cultura humanista”[7].  herdou um pensamento ético que parte de concepção de cada ser humano como pessoa, com dignidade inviolável e fundamenta esse princípio de dignidade no Transcendente. O cristianismo recebeu inspiração bíblica para as suas criações intelectuais e artísticas, elaborou normas de direito e promoveu a dignidade da pessoa.

A Europa seria ainda influenciada por uma outra corrente vinda do Oriente: o Islão. O mundo islâmico passou por três grandes períodos:
1) Época arabo-muçulmana (Islão clássico e brilhante do século VII-XIV)
2) Época turco-muçulmana (otomana) – Séc. XIV-XVIII.
3) Época do nacionalismo árabe e do renascimento árabe (“Nahda”) – Séc. XIX-XX.

As causas do declínio do Islão foram internas. Decorreram da decisão tomada em Bagdad pelo califa Al Qadir, em 1019. Preocupado com a efervescência intelectual fixou o credo oficial e “fechou a porta do Igma”, ou seja do esforço da procura pessoal.

A influência cultural islâmica manifestou-se principalmente no sector científico e técnico, sem esquecer os contributos no âmbito do pensamento filosófico, da linguística e da arte. É à civilização islâmica que devemos no Ocidente o conhecimento dos números, do sistema decimal, do zero e da álgebra. O Islão desenvolveu os dados científicos herdados dos gregos, através da observação e da experiência, como criador da civilização experimental. Na sua tradição histórica e na sua realidade vivida o Islão dispõe de potencialidades e recursos: espiritualidade, espírito social compatível com a afirmação do indivíduo, abertura convivial, sentido de família.

Ao despertar do islamismo - que actualmente não é uma teologia mas uma ideologia político-social, inspirada nos valores tradicionais - contrapõe-se o descrédito das ideologias ocidentais. Este fenómeno traz a carga das humilhações acumuladas desde o início do século XX e agravadas pelo conflito do Próximo Oriente. O Islão hoje acena a bandeira de emancipação cultural e do projecto global de renovação moral e política. É reivindicação de uma identidade “violada” diante da crise da modernidade.

Há no Islão os “modernistas” que propõe um “Neo-Islão”, menos religioso. Outros agudizam a intolerância, o isolamento, o estado teocrático sem vozes discordantes, o integrismo como versão redutora do Islão.

Na Europa domina a componente sunita (em cerca de 85% a 90%), mas os muçulmanos europeus têm origens sociais e geográficas variadas. Há também europeus convertidos ao Islão. A repartição dos muçulmanos na Europa segundo a origem geográfica pode ser descrita deste modo: na Alemanha, Áustria e nos países escandinavos a presença dominante é turca e balcânica. Na França e na Espanha a presença maioritária é magrebina e africana. Na Bélgica e nos Países Baixos, a grande maioria é magrebina e turca. Na Itália, a comunidade imigrada dominante é magrebina, senegalesa e egípcia. Quanto à Inglaterra a presença paquistanesa e bangladeshiana é largamente maioritária.

Como se verifica a comunidade de imigração não é monolítica e sofre muitas clivagens.

A estas influências, algumas com antiga sedimentação, acrescem novas e sedutoras propostas. O budismo está progressivamente a conquistar o estatuto de religião europeia. Novos praticantes crescem fascinados por uma tradição religiosa chegada à Europa nas variadas culturas da Ásia: Zen, tibetano, Theravada etc. Há uma multidão de ramificações e escolas com diversas posições relativamente à fé a à prática. As três maiores famílias budistas são: Theravada, Mahayana e Vayrayana. O budismo na sua longa história tem revelado notável capacidade de inculturação. Na Europa aparece mais como estilo de vida do que com aparato de verdade ou instituição com uma hierarquia.

Há evidentemente o perigo do sincretismo ou do abandono da fé cristã para abraçar o budismo. Há também a possibilidade de se integrar uma influência budista sem cair no sincretismo.

Diante de todo este caudal de múltiplas correntes religiosas e culturais o que fez e deve fazer o cristianismo?

2. A função do cristianismo na unificação europeia
Estas várias inspirações tiveram na cultura judaico-cristã “uma força capaz de as harmonizar, consolidar e promover”. De facto, na complexa história europeia, o cristianismo não é elemento único, mas é central e qualificador, consolida sobre base firme a herança clássica e os numerosos contributos fornecidos pelos diversos fluxos étnico-culturais, verificados ao longo dos séculos. A história da cultura europeia acontece por uma série de interacções ou de recepções e por isso por mediações. Não podemos considerar a evolução cultural um processo estático, mas que progride por um dinamismo de influências, de recepções, que são sempre processos hermenêuticos de selecção e interpretação.

O mundo helenístico-romano contradizia, em boa parte, o mundo cristão. Basta recordar a doutrina politeísta, antropomórfica e eclética em assuntos religiosos e sua explicação mitológica do mundo. Mas, com novos conteúdos, o cristianismo transmitiu uma sabedoria de pensamento, literatura e artes. Os relatos europeus do mundo greco-romano dependeram, de forma muito substancial, da recepção cristã. Aliás a reconciliação do cristianismo com a tradição clássica converte-se numa tarefa grandiosa e difícil no conjunto da história humana. Opera-se até uma revolução tecnológica, com a passagem do rolo ao códice, do papiro ao pergaminho.

O “rosto espiritual da Europa foi-se transformando graças aos esforços de grandes missionários, ao testemunho de santos e mártires e ao trabalho incansável de monges, religiosos e pastores”[8].

Segundo alguns, o nome Europa provém da expressão púnica (fenícia) EREB, que quer dizer “treva”. Assim era visto pela Ásia e África o continente europeu antes de Cristo. Ereb-treva tornou-se Europa-luz, através do Evangelho. A igreja ensinou os bárbaros europeus a ler e a escrever, a construir e a pintar, nas escolas dos bispos e dos mosteiros e por isso S. Bento é padroeiro da Europa.

A organização da Igreja passou por três grandes mudanças, no ambiente da Europa latina ocidental.
1. Inicialmente o cristianismo teve uma conotação judaica, hebraica, sem grandes bases filosóficas e assim cresceu até à morte de Estêvão, primeiro mártir. Depois desse facto os judeus cristãos fogem, dispersam-se e difundem o Evangelho até às fronteiras do mundo de então, que se identificava com o Mediterrâneo. A língua hebraica ou aramaica não servia, os símbolos tinham de ser actualizados. O Antigo Testamento passou a antigo por causa de aparecer o Novo, a lei da graça. Depressa as observâncias judaicas deixaram de ser exigidas. É o I Concílio. A religião judaica do tempo de Jesus ganhou esclerose, com legalismo, imobilismo, dogmatismo. A isso o espírito humano reagia de dois modos: com a hipocrisia cínica farisaica ou com o quase materialismo laxista dos saduceus. Ambos caíram na interpretação de Deus segundo os seus esquemas. Jesus reagiu a estes grupos: afirmou a superioridade da graça e do amor.
Este perigo permaneceu latente: o legalismo impõe-se com o dogmatismo e com o imobilismo espiritual e missionário. Quando sufocado, o coração humano ou se engana na hipocrisia ou se desfaz no laxismo.

Haverá ainda resíduos judaicos?
2. No Mediterrâneo, graças ao elemento espiritual da mensagem de salvação, cria-se uma estrutura visível actualizada helénico-latina, que perdura até à migração dos povos (séc. V-VI). É um período de florescimento do pensamento e da santidade: filósofos, teólogos, exegetas, monges e monjas...

A forma filosófica desta cultura cristã é prevalentemente platónica, a língua é grega e para o fim, a latina. No Oriente cristão surgem igrejas locais com línguas, culturas, ritos indígenas, em rico pluralismo na unidade da fé.

A hegemonia política do Império romano e o alto nível do Direito romano, baseado na lei natural, imponha a todos, no ambiente mediterrâneo, uma ordem de vida segundo os usos romanos e abafava os costumes locais. O que não era latino nem helénico, mas asiático e africano (intuição, mística, magia...) não era considerado “humano”, mas “bárbaro”. A “humanitas” reduzia-se ao Mediterrâneo, a cultura ao helenismo. A língua oficial até ao II Concílio do Vaticano era a latina, na liturgia e nos documentos. Imaginemos o esforço do mundo eslavo. O rito terminou por ser exclusivamente romano, seco e árido de gestualidade. O direito canónico eclesiástico partia das concepções romanas generalizadas para todos os cristãos.

A espiritualidade ocidental reduzia-se a um raciocínio estático e silogístico, enquanto as igrejas orientais adoptavam expressões corporais e adoração do mistério.

As culturas não ocidentais eram toleradas. O II Concílio do Vaticano compreendeu os tempos antecipados pelos missionários bizantino-eslavos Cirilo e Metódio (863-885), também proclamados patronos da Europa.

3. Depois do desmembramento do Império romano e da migração dos povos germânicos (séculos V-VI), a forma visível helenística da Igreja desagregou-se. Santo Agostinho chora ao ver o vandalismo e teme o fim da Igreja romana latina. Sucede uma crise, de quase cem anos, até começar a surgir no norte de França a estrutura feudal latino-germânica dos Francos. Baseava-se no autoritarismo centralizador e infiltrava-se na actualizada forma exterior da Igreja ocidental A estrutura de uma única autoridade central civil: imperador rodeado da nobreza estabelecida no território, correspondia de modo análogo a autoridade sacra central, o Papa com os bispos dependentes dele estabelecidos no território. A crise dá-se quando o imperador pretende fazer dos bispos seus príncipes. O resto dos cristãos era súbdito e recusar a autoridade era recusar a Deus. Os perigos eram devastadores:

O cristianismo como religião oficial do Estado é propagado, protegido e ajudado pelo poder civil, estatal e pode aparecer como estatizado, normalizado e absorvido pelo Estado e não já evangélico, livre. Perde dinamismo espiritual, perde confiança dos humilhados e dos pobres.

No campo doutrinal, os centros culturais escolásticos (universidades, mosteiros, ordens religiosas novas) procuram criar visões globais, sistemáticas acerca do ser humano, do mundo. Nascem as escolas teológicas e grandiosos sistemas: augustinismo platónico, tomismo aristotélico, scotismo franciscano, molinismo e suarismo jesuíta... Mas estes sistemas transformaram-se em “fortalezas”, digladiando-se, pedidos em prisões intelectualistas. Mais uma vez o Evangelho estava esquecido...

Foi uma paragem moral, cultural e religiosa, com a provocação de desprezo de não católicos. O mundo laico libertou-se da feudalização política há dois séculos, com revoluções intelectuais e políticas.

3. E agora, como revitalizar as raízes cristãs da Europa?
Sobre que bases culturais e espirituais se fundará a Europa do futuro? Eis a grande questão. A auto-certificação cultural é uma consideração de realismo político: só perduram sociedades que tenham uma ideia de si próprias. Uma política apenas baseada em questões de interesse não é política real, uma vez que esquece que só as ideias imprimem direcção e duração aos interesses.

O futuro da Europa unida dever-se-á à consciência das suas bases culturais e espirituais. O futuro será de diversidade a conviver em diálogo construtivo e realista.

O filósofo Karl Jaspers, em 1945, em conferência intitulada “acerca do espírito europeu”, escreveu: “o que sucederá ninguém poderá sabê-lo. Nos horizontes indefinidos do futuro europeu, cada um pode contudo perguntar-se onde está e o que quer. Ninguém pode perceber a totalidade. Estamos sempre dentro, não fora nem acima. Em que medida cada um pode modificar o curso das coisas, ninguém o sabe. Ninguém pode pretender saber qual o instrumento que está nas mãos de Deus (...) A nossa tarefa é acolher, no universo que não podemos abraçar com o olhar, tudo o que é possível”[9].

Estou convencido que o cristianismo nunca contribuiu como poderá vir a contribuir para a identidade europeia neste milénio. Mantém uma missão para a Europa: converter-se ao Evangelho; humanizar a face visível do Corpo Místico; unir todos os disponíveis a Cristo, Redentor do ser humano. O Humanismo reduziu-se a esqueleto em “hominismo”, absoluto individualismo. A absoluta autonomia de cada indivíduo ou grupo, feito lei suprema acabará em solidão. A Europa parece renunciar às grandes questões sobre o verdadeiro e o bom, em favor do mero interesse pelo produtivo e pelo prático. Não aparece no horizonte o desenvolvimento íntegro do espírito humano. O puramente prático e produtivo não pode ser fonte de esperança verdadeira, nem por isso fonte de paz. O pragmatismo puro acaba por levar ao cinismo ético, unido à falta de fé e de esperança transcendentes. Em quem se pode crer? O que é que se pode esperar?

É fundamental para a Europa do futuro “revitalizar as raízes cristãs que lhe deram origem”[10].

Há mais de cem anos, Nietzche prognosticou o futuro da Europa: o desenvolvimento cultural ocidental criará um tipo de pessoa que, fechada na sua monodimensionalidade e trivialidade, conduzirá a uma vida sem conhecer nada de si; que, como diz Nietzche, perdeu a sua estrela. Esta tornou-se a orientação determinante, segundo a qual muitos hoje vivem, a pura terrestridade que se reduz à presente existência hedonista, que perdeu de vista significados e esperanças.

Este processo de terrestridade avança sempre. As perguntas sobre as realidades últimas são estranhas e incompreensíveis, cada vez para mais gente. Subsistem fora dos muros das igrejas, nas seitas, nos grupos pseudo-religiosos, no esoterismo, no ocultismo, no espiritismo e em pitoresca miscelânea.

O cristianismo europeu encontra-se entre o secularismo e o novo pluralismo religioso. Que desafios a que tarefas despontam?

A Igreja lança, neste novo milénio, alguns desafios.
1. Narrar de novo a verdade sobre o mundo e a vida humana
Não se pode pressupor que a Europa já compreendeu o elementar da fé cristã. Há que começar do princípio. Sem esquecer os dois mil anos de evangelização, mas sem descansar na herança recebida. Há que tornar presente de novo o Ressuscitado para cada contemporâneo, pela Palavra, pelos sacramentos e a pela caridade.

O cristianismo proporciona um relato comum, uma história comum. O cristianismo “concorreu para difundir e consolidar aqueles valores que tornaram universal a cultura europeia”[11]. O que é comum às culturas europeias não é o racionalismo e a ilustração, não aceites se não de mau grado pela Rússia e pelo mundo eslavo. Não é a latinidade e a romanidade que não é partilhada pelas culturas bizantinas e algumas eslavas, linguisticamente afastadas. Não é com certeza o mundo carolíngio, com seu núcleo germano-franco, não aceite por povos cuja luta contra ele deixou o impressionante testemunho literário de Chanson de Roland, ainda que tenha contribuído para a uniformização. Não será o neoplatonismo veiculado por Agostinho e por isso corrente filosófica dominante na Europa durante muitos séculos e que sobreviverá depois da Idade Média, em importantes recepções, como a do petrarquismo e a poética romântica, com todas as continuações.

Mais comum é o apreço pelo sentido plural do texto, decisivo costume intelectual. Será o cristianismo capaz de recontar, de narrar de novo a própria verdade? Certamente que sim. Mas não se pense que será por adaptação ao espírito da época ou por uma estratégia de enclausuramento em gheto que se resolverá a presença cristã no nosso tempo.

Há que centrar a tenção no primário. A evangelização depende do vigor da vida da fé, que se alimenta de palavra fielmente proclamada, dos sacramentos festivamente celebrados e da caridade criativamente praticada.

2. Contribuir para abrir a Europa ao mundo
O fenómeno da multiculturalidade, se esquecer o iter histórico-cultural da Europa, pode abandonar esse relato constitutivo que encerra valores verdadeiramente essenciais (basta pensar no conceito, eminentemente cristão, de pessoa). Ora a laicidade imperante não pode pretender constituir uma visão metodológica, porque é altamente ahistórica. A falta de memória quer para os cristãos quer para os laicos seria desastrosa.

É que só ao tomar consciência dos limites históricos se pode abrir para a necessidade da criação da consciência do futuro possível, sempre a melhorar e a transformar.

O cristianismo é a religião da não-etnicidade. A multiplicidade de tradições regionais, nacionais, culturais e religiosas sem totalitarismos é uma riqueza da Europa. João Duque chamou-lhe “universalismo na articulação das diferenças”[12]. De facto, a cultura do diálogo marcou a história da Europa, pelo diálogo interno e externo, com traições, não por destino, mas por corresponder à mais profunda identidade espiritual.

O mundo pluri-etnico, pluri-cultural e pluri-religioso requer um salto de qualidade proporcional à situação. A proposta cristã é de abertura com os seguintes passos:
- conversão, de pessoas e grupos, à simpatia uns pelos outros;
- acolhimento dos outros, nas diferenças;
- presença do Espírito, para além dos limites da Igreja – “mistério de unidade”, fundamento de diálogo inter-religioso.

Há uma origem comum, um destino comum, uma salvação universal, uma universalidade do Reino de Deus pela abertura à acção do Espírito. Todos os passos neste espírito encaminham para a plenitude do Reino, em ordem à nova humanidade querida por Deus.

A Igreja una e universal pode contribuir de modo “único para a edificação duma Europa aberta ao mundo. Segue o modelo de unidade essencial na diversidade das expressões culturais”[13] (). O diálogo é o instrumento da nova empresa do anúncio de Jesus Cristo aos europeus de hoje: o diálogo com a cultura e com a sociedade, através de instituições adequadas (universidades, Centros sociais, presença política, diálogo ecuménico, diálogo interreligioso). Este diálogo tem bases: assenta na verdade e na compreensão recíproca.

Descentrar-se de si, não pretender dominar os outros, os diferentes de nós – sacrificando pessoas aos ideais –, é acolher um futuro que nos é dado para construir. A fragilidade de não ser dona será para a Europa a sua força. E, já que não é dona de si, dar-se-á aos outros. É a força da Kenose, cerne do cristianismo, cruz-dom até ao fim por amor. Não por destino, mas por liberdade. A cristã abertura aos diferentes conduz a Europa à doação de si mesma pelos outros, em radical liberdade humana. Essa é uma das características da identidade cristã.

3. Recuperar a utopia, em doação radical ao Senhor da história
O que significa recuperar a matriz cultural da Europa? Não significa certamente repetir os tempos da cristandade medieval ou os seus substitutos científicos ou estatistas.

Recuperar a utopia no sentido escatológico e no sentido histórico, no interior da tradição judaico-cristã, como marco identitário da Europa, significa considerar os acontecimentos únicos como caminho para uma plenitude que nos espera e que acolhemos como dom gratuito do Senhor da história.

Frente ao fundamentalismo e fanatismo, qual reverso do indiferentismo e relativismo totais, importa afirmar os valores da pessoa, defender os direitos humanos e os valores basilares da paz, justiça, liberdade, tolerância, participação, solidariedade.

Com base na fé cristã poderá haver um empenhamento por uma Europa humana e social, na qual o valor dos direitos humanos seja alto. Concretizam esse compromisso: o respeito pela vida, pela família, a opção preferencial pelos pobres, a disponibilidade para o perdão-misericórdia.

Urge formar cristãos europeus com utopia evangélica, seiva de permanente esperança e fonte de ousadia para arriscar a inovação, mesmo sem estruturas ideológicas a definir o caminho do bem. Dar transparência vital às bem-aventuranças é a marca evangélica que a Europa precisa.

O testemunho evangélico é uma linha forte da evangelização, expressa em caridade generosa, contemplação cristã como experiência de Deus, gozo da esperança, vivência do sentido da história. A sociedade pede sinais claros, testemunho directo. Só pelo testemunho “os habitantes da Europa poderão descobrir que Cristo é o futuro do ser humano”[14]. Apresentar claramente o caminho da santidade cristã é “requisito prévio essencial para uma autêntica evangelização, capaz de dar de novo esperança. Fazem falta testemunhos fortes, pessoais e comunitários, da vida nova em Cristo”[15]. O grande contra não é a secularização, mas a mediocridade de vida dos cristãos e das comunidades.

O testemunho deve aparecer numa fé consciente e coerente. Com plena convicção de que Cristo é o único Senhor, que não veio anular os verdadeiros sinais, mas levá-los à plenitude. Cristo não é apenas o “mediador da salvação, mas a fonte de salvação”[16]. Todos os baptizados são convocados para este compromisso no processo de santidade, parte integrante da evangelização. Testemunhas de uma caridade sem exclusão. Isso sim tem eficácia evangelizadora[17].

Se a situação é adversa e difícil, é em situações de hostilidade e adversidade que se requer o testemunho firme dos mártires.

4. Descobrir o sentido da contemplação
A Igreja na Europa é convidada a descobrir sentido do mistério, através da contemplação mística. A contemplação cristã oferece uma específica experiência de Deus. Os que crêem em Cristo ressuscitado encontram-se pessoalmente com ele no louvor a Deus, reconhecem a sua supremacia absoluta e exaltam-no com fé gozosa.

Quem faz a experiência humilde de Deus em Cristo vive na gratidão e celebra a salvação, transmite alegria sincera e contagiante por uma vida que é culto espiritual[18].

Para narrar de novo a verdade quanto silêncio interior não requer? Abrir-se ao outro quanta escuta não precisa, quanta firmeza interior e solidez de convicções não exige? Recuperar a utopia com radicalidade nasce de um guardar no coração os desígnios de Deus, encontrar palavras e vida para lhes dar todo o ser, união profunda com o Senhor da vida e do universo.

Que todos nos convençamos que a Europa se revitaliza se os cristãos se comprometerem em cheio na missão. Em todas as circunstâncias, quem vive de Deus atrai outros para a fé. Se reflectirmos nas atitudes quotidianas  o anúncio do Evangelho irradiaremos amor, esperança, alegria. Ser fermento e transformar por dentro a cultura é tarefa dos amantes de Deus.

[1] Cf. IGREJA CATÓLICA. Papa, 1978-  (João Paulo II) – Ex. Apost. A Igreja na Europa, n.120.
[2] Ibidem, n.7.
[3] Ibidem.
[4] Cf. DUQUE, João – Cultura contemporânea a cristianismo. Lisboa: Universidade Católica Editora, 2004, p. 86.
[5] Europa desencantada. Lisboa: Gradiva, 2001, p.240.
[6] DUQUE – Cultura, p. 90.
[7] A Igreja na Europa, n.25.
[8] Igreja na Europa, n. 25
[9] Vom europäischen Geist (1946-1947). Würburg, 1979, p.21
[10] A Igreja na Europa, n. 25
[11] Ibid.
[12] DUQUE – Cultura, p. 99.
[13] A Igreja na Europa, n.25.
[14] A Igreja na Europa, n.20.
[15] Ibid., n.49.
[16] A Igreja na Europa, n. 20.
[17] Cf. Ibid. 84.
[18] Cf. Ibid. 69

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