Em 6 de agosto de
1978, morreu Giovanni Battista Montini, o Pontífice a quem tanto deve a época
de reforma que estamos a viver. Não por acaso foi ele que, encerrando Vaticano
II, falou de uma Igreja “samaritana”, “serva da humanidade”, mais inclinada a
“remédios encorajantes” do que a “diagnósticos deprimentes”, a “mensagens de
confiança” do que “a presságios funestos”.
Há 38 anos, a
vizinha Via Ápia estava cheia de pessoas desinformadas, sedentas de férias, porque
naqueles dias sentiam, como nunca, o peso das preocupações. A tão ansiada
recuperação da economia não tinha como esperado. Quanto ao mais, desânimo e
medo predominavam:
* o terrorismo das
Brigadas Vermelhas;
* o sequestro e o assassinato de Aldo
Moro;
* uma devastadora
crise político-institucional fruto do escândalo Lockheed, que culminou com a
renúncia do então Presidente da República, Giovanni Leone (15 de Junho), ao
qual sucedeu, em 9 de Julho, Sandro Pertini.
O dia 6 de agosto
de 1978 era um domingo. Em Castel Gandolfo, a residência de verão dos papas, o
relógio marcava 21h40. Giovanni Battista Montini, Paulo VI, o 262.º sucessor de
Pedro, morreu como tinha desejado: longe dos holofotes e das vigílias do povo
que tinham acompanhado a agonia de Angelo Roncalli, João XXIII, e anos mais
tarde as últimas horas de Karol Wojtyla, João Paulo II.
«Ele tinha pedido
a Deus que lhe concedesse um adeus solitário», anotou há tempos Avvenire, o diário católico italiano: «Foi
atendido.» Mas não só. Paulo VI morreu num dia especial, carregado de
significado simbólico, o dia da Transfiguração: uma festa que ele amava a ponto
de tê-la escolhido, em 1964, para publicar a sua primeira encíclica, a Ecclesiam Suam.
O
papa esquecido
Estranho destino o
de Paulo VI. Foi primeiro criticado, depois contestado, por fim simplesmente
esquecido, posto de lado sem a menor cerimónia, tachado com qualificativos
particularmente mordazes: «O Papa da dúvida», «Hamlet», «Paulo Triste».
Revendo hoje a sua
figura com o rigor dos historiadores, o beato Paulo VI revela-se totalmente
diferente:
+ Foi o primeiro
Papa do século XX a atravessar os confins da Itália.
+ Depois de 2000
anos, fez com que Pedro voltasse à Terra Santa.
+ Viajou para a
África, para a América, para a Oceânia, para a Ásia, até quase às portas da
China.
+ Foi o primeiro
Pontífice a fazer um discurso nas Nações Unidas em Nova Iorque (falou na
segunda-feira, dia 4 de outubro de 1965, com aquele “Nunca mais a guerra”, que
muitos recordam em francês, a língua com a qual ele lançou o apelo angustiado:
“Jamais plus les uns contre les autres, jamais, plus jamais”).
+ Giovanni
Battista Montini foi até o primeiro papa vítima de um atentado, mostrado ao
vivo pela TV. Aconteceu nas Filipinas, em Manila, em novembro de 1970: Paulo VI
escapou de uma facada do artista boliviano Benjamin Mendoza, que assim mesmo o
feriu, somente graças à agilidade do seu secretário, Don Pasquale Macchi, que
empurrou para o lado o agressor.
+ Paulo VI “levou
para o mundo” a Igreja que saiu do Concílio.
+ Dialogou com a
modernidade sem fugir dela e sem a condenar a priori.
+ Enfrentou com as
armas nuas do Evangelho a Guerra do Vietname.
Hoje, o dia 6 de
agosto não é a festa litúrgica de Paulo VI. Essa é celebrada em 26 de setembro,
o dia em que nasceu.
Inspirador
de Bergoglio
É oportuno lembrar quem foi e o que fez
Giovanni Battista Montini, porque estamos a viver um tempo eclesial que deve
muito ao papa que veio de Brescia – incluindo a ênfase na misericórdia, que dá
cor ao Ano Santo em pleno andamento.
Sim, porque entre os inspiradores de Jorge
Mario Bergoglio está certamente este seu predecessor. O Papa Francisco não faz
segredo disso. Mais do que palavras, como sempre, contam os factos:
* a Igreja em saída,
* a Igreja
sinodal, ou seja, aquela do caminhar juntos,
* a Igreja que
perscruta os sinais dos tempos, sem falso otimismo mas sem fechar-se, mais
companheira de viagem do que fria preceptora, esta Igreja que hoje respiramos
todos os dias, tem em si muito de Paulo VI.
Uma gratidão
pensada, foi a que Francisco expressou em voz alta a 19 de outubro de
2014, ao proclamar Montini bem-aventurado:
«A respeito deste grande Papa, deste cristão
corajoso, deste apóstolo incansável, diante de Deus hoje só podemos dizer uma
palavra tão simples como sincera e importante: Obrigado! Obrigado, nosso
querido e amado Papa Paulo VI! Obrigado pelo teu humilde e profético testemunho
de amor a Cristo e à sua Igreja!
No seu diário pessoal, depois do
encerramento da Assembleia Conciliar, o grande timoneiro do Concílio deixou
anotado: «Talvez o Senhor me tenha chamado e me mantenha neste serviço não
tanto por qualquer aptidão que eu possua ou para que eu governe e salve a
Igreja das suas dificuldades actuais, mas para que eu sofra algo pela Igreja e
fique claro que Ele, e mais ninguém, a guia e salva» (P. Macchi, Paolo VI nella
sua parola, Brescia 2001, pp. 120-121). Nesta humildade, resplandece a grandeza
do Beato Paulo VI, que soube, quando se perfilava uma sociedade secularizada e
hostil, reger com clarividente sabedoria – e às vezes em solidão – o timão da
barca de Pedro, sem nunca perder a alegria e a confiança no Senhor.
Verdadeiramente Paulo VI soube «dar a Deus
o que é de Deus», dedicando toda a sua vida a este «dever sacro, solene e
gravíssimo: continuar no tempo e dilatar sobre a terra a missão de Cristo»
(Homilia no Rito da sua Coroação, Insegnamenti,
I, (1963), 26), amando a Igreja e guiando-a para ser «ao mesmo tempo mãe
amorosa de todos os homens e medianeira de salvação» (Ecclesiam suam, prólogo).

Comentários
Enviar um comentário