Como é que o clero está a ver e ouvir o Papa Francisco? Três palavras: Presença, misericórdia e serviço
«Nos encontros que tive recentemente – com padres e bispos americanos, europeus, australianos, ingleses, africanos, asiáticos, latino-americanos e do Oriente Médio –, eu fazia esta pergunta: “Qual o impacto que o Papa Francisco está a ter no senhor?”
Muitos padres disseram que consideram Francisco como uma confirmação do que eles já estavam a tentar fazer, em termos de ser pastores próximos das experiências do povo. Mostravam-se alegres pelo facto do papa estar a tocar os corações do mundo e a chegar aos que se encontram distanciados da fé. Para eles, é disso que se trata o Catolicismo. Este entusiasmo é muitas vezes maior entre os padres mais velhos, aqueles mais ligados ao Concílio Vaticano II (1962-1965).
John L. Allen Jr., em Crux, 19-08-2016
Para outros membros do clero, especialmente os padres e bispos mais jovens que poderiam tender a identificar-se como líderes ao estilo “João Paulo II” ou “Bento XVI”, Francisco tem representando uma pequena pedra no sapato (isso acontece apesar de Francisco ter rejeitado as tentativas de o colocar em oposição a qualquer um de seus antecessores).
Praticamente todos, no entanto, afirmam que, de alguma forma, estão a tentar descobrir o que o papa quer e como pôr as suas ideias em prática da melhor maneira possível.
O que o clero acredita que o papa está a querer fazer
A palavra mais comum que ouvi foi esta: “Presença”.
Eles acham que o papa não quer que o clero seja um conjunto de burocratas, mas sim pastores. Praticamente todos com os quais me encontrei disseram estar a buscar formas de serem mais presentes junto ao povo nas circunstâncias da vida diária.
Eles acham que o papa não quer que o clero seja um conjunto de burocratas, mas sim pastores. Praticamente todos com os quais me encontrei disseram estar a buscar formas de serem mais presentes junto ao povo nas circunstâncias da vida diária.
Consequentemente, o “efeito Francisco” parece estar a incentivar os líderes eclesiásticos a saírem dos seus ambientes fechados e a passar mais tempo nas paróquias, nos inúmeros ministérios da Igreja, e nas escolas, nos hospitais, em cantinas comunitárias, em abrigos para os sem-abrigo, interagindo com as pessoas comuns e tendo uma melhor leitura de quais são realmente suas preocupações e experiências.
A segunda palavra que ouvi mais vezes: “Misericórdia”.
O clero parece ter entendido que deve projetar um rosto misericordioso, compassivo. Isso significa estar sensível a cada individuo, nas suas situações concretas. Está em aberto o debate, por exemplo, sobre o que implica o ser misericordioso e compassivo em relação aos fiéis católicos divorciados e recasados no civil.
O clero parece ter entendido que deve projetar um rosto misericordioso, compassivo. Isso significa estar sensível a cada individuo, nas suas situações concretas. Está em aberto o debate, por exemplo, sobre o que implica o ser misericordioso e compassivo em relação aos fiéis católicos divorciados e recasados no civil.
Em geral, a impressão é que Francisco quer que a misericórdia de Deus e da Igreja Católica seja palpável e tangível.
Em terceiro lugar, a palavra mais ouvida foi “serviço”.
Os clérigos disseram-me que estão a ver o papa pressioná-los no sentido de se certificarem de que a Igreja está na linha de frente da resposta às necessidades dos que sofrem e dos marginalizados, mesmo que isso signifique abrir as paróquias a famílias de imigrantes, reunir esforços para ajudar os pobres e desabrigados da comunidade, esforçar-se ainda mais para manter as escolas disponíveis a alunos de baixos rendimentos, e assim por diante.
Servir, para a Igreja, de forma alguma é novidade, uma vez que ela sempre esteve comprometida em servir, especialmente os pobres e os abandonados. O clero, no entanto, parece estar a ouvir o papa dizer que esses esforços devam ser redobrados no contexto de um mundo cada vez mais dividido e violento, marcado por aquilo que o pontífice chama de “uma Terceira Guerra Mundial travada em parcelas”.
Para os 400 mil padres e 5000 bispos ao redor do mundo, estas palavras - Presença, misericórdia e serviço - parecem representar o essencial do Cristianismo.

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