“O clericalismo instaura-se onde os pastores não vivem a proximidade com o povo”


O Papa Francisco, quando recebeu os máximos representantes da Conferência Episcopal Latino-Americana, em fins de maio, começou a reflexão com um comentário irónico sobre os leigos: «Há 50 anos, que se vem dizendo que ‘esta é a hora dos leigos’, mas parece que o relógio foi parado...»

Foi uma brincadeira que Guzmán Carriquiry (na foto) - advogado e professor do Uruguai, o primero leigo que ocupou o cargo de vice-secretário num dicastério da Santa Sé, o dos Leigos - considera que, de maneira alguma, se deve deixar passar. «É óbvio que os bispos reconhecem e apreciam os ensinamentos do Concílio Vaticano II sobre a dignidade e responsabilidade dos leigos como um dos conteúdos fundamentais da renovação. E também é sabido que os leigos estão presentes em todas as partes, como corresponsáveis, na edificação das diversas comunidades cristãs, em associações, movimentos, em uma imensa quantidade de serviços. Não há dúvida que temos muitos bons pastores que começam seu ministério “de joelhos” - como recomenda frequentemente o Papa -, pessoas simples, próximas ao povo, cheias de zelo apostólico...

Entrevista de Alver Metalli, em Religión Digital, 27-8-2016. Tradução do Cepat.

Então, a que se deve esta avaliação?
Impressiona que o Papa tenha enfrentado novamente, e de maneira tão decidida, o “clericalismo” na América Latina. Já havia feito isso no início de seu pontificado, no Rio de Janeiro, diante da cúpula do CELAM. E agora faz o mesmo em uma carta de muita importância enviada ao cardeal Marc Ouellet, presidente da Pontifícia Comissão para América Latina, a cuja redação se dedicou de forma muito pessoal, apesar de suas inúmeras ocupações. É preciso prestar atenção. O Papa não se refere aos resíduos de clericalismo dos tempos tardo-tridentinos do “pré-concílio”, mas aos sinais que se manifestam hoje, sob as aparências de uma Igreja “pós-conciliar”.

Se não me engano, o definiu como “uma das maiores deformações que a América Latina deve enfrentar”.
O clericalismo se instaura lá onde os pastores não vivem suficientemente essa proximidade misericordiosa, evangelizadora e solidária com as próprias pessoas, que o papa Francisco está reivindicando insistentemente, com suas palavras, e mostrando com gestos concretos.
Quando não expressam a alegria de estar no meio de seu povo, quando não conhecem a fundo a experiência viva e concreta daqueles que lhes foram confiados, porque falta essa compenetração afetiva que dá o amor, quando não sentem a urgência e a paixão de responder com o Evangelho os sofrimentos e esperanças de seus povos. 

Por isso, nesta recente carta à PCAL, repete que o Santo Povo de Deus é “o horizonte ao qual somos convidados a olhar e a partir de onde refletir (...). É a quem como pastores somos continuamente convidados a olhar, proteger, acompanhar, sustentar e servir. Um pai não entende a si mesmo sem seus filhos (...). Um pastor não se concebe sem um rebanho ao qual é chamado a servir. O pastor é pastor de um povo, e ao povo só pode ser servido a partir de dentro (...). Olhar o Santo Povo de Deus e nos sentir parte integrante do mesmo nos posiciona na vida”, salva de abstrações, de meras especulações teóricas, de intermináveis planos pastorais, de fechamentos funcionais. 

Inclusive mais: “quando nos desenraizamos como pastores de nosso próprio povo, nos perdemos”. Nos perdemos em fechamentos e refúgios clericais – se poderia bem prosseguir –, se ficamos afastados de nossas gentes, se não abraçamos com amor misericordioso a todos, evitando discriminações preventivas, precondições morais e exclusões, se não tocamos a carne dos pobres e as feridas que tantos sofrem no corpo e na alma.

Também há um clericalismo dos leigos, não acha?
Há uma correlação entre clericalismo dos pastores e clericalismo dos leigos que se observa na medida em que existe o que o Papa chama de “tendência à funcionalização do laicado”, tratando-o como se fosse um “mandadeiro”. A tal ponto que alguns leigos começam a considerar mais importante para sua vida cristã, para sua participação na missão da Igreja, caso tenha ou não voto consultivo ou deliberativo em tal ou qual organismo eclesiástico, se podem ou não exercer tal ou qual função pastoral, que o fato de ter que tomar todos os dias decisões importantes na vida familiar, de trabalho, social e por que não política. Correlativamente, os sacerdotes acabam considerando os leigos mais como meros colaboradores paroquiais e pastorais, quando deveriam, ao contrário, buscar as modalidades mais adequadas para educar, valorizar, acompanhar e apoiar, junto com toda a comunidade cristã, sua presença no mundo, sua presença “secular” para construir formas de vida mais humanas. 

Não se trata, obviamente, de desprezar a muito positiva e generosa corresponsabilidade dos leigos na edificação das comunidades cristãs, mas de se deixar interpelar pelo que o papa Bento XVI disse em seu discurso inaugural de Aparecida e que, depois, foi retomado pelo Episcopado latino-americano em seu documento conclusivo (cuja redação ficou a cargo do então cardeal Jorge Mario Bergoglio): há “uma notável ausência no âmbito político, comunicativo e universitário de vozes e iniciativas de líderes católicos, de forte personalidade e de vocação abnegada, que sejam coerentes com suas convicções éticas e religiosas”.

Como se faz para superar o clericalismo? Há, realmente, uma forma de superá-lo? Cinquenta anos de pós-concílio não conseguiram...
Na carta dirigida ao cardeal Ouellet, o Papa faz duas afirmações determinantes. A primeira é que o leigo é o batizado, todo batizado, sem leigos de série A e de série B, sem esse elitismo de raiz neofascista que leva a se autodefinir como “leigos adultos”, “leigos comprometidos”, “leigos militantes”, utilizando esses qualificativos como um autoelogio. A segunda é que falar de leigos, como já disse, implica evocar o horizonte do Santo Povo de Deus ao qual pertencem, em toda sua consistência teologal e histórica de povo a caminho do Reino de Deus, segundo suas diferentes modalidades de inculturação e segundo os diferentes níveis de adesão, pertencimento e participação (como ocorre em qualquer povo...).

A partir destas duas inseparáveis perspetivas – batizados no Santo Povo de Deus –, a “revolução evangélica” que o Papa Francisco leva adiante, implica e requer uma dinâmica de conversão pessoal por um renovado encontro com Jesus Cristo. Foi o que disse de maneira solene no início de sua Exortação Evangelii Gaudium, quando convida “todo o cristão, em qualquer lugar e situação em que se encontre, a renovar hoje mesmo seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, ao menos, tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de o procurar cotidianamente, sem descanso” (n. 3). Se não damos resposta a este convite, nos contentamos só com o anedotário do pontificado. Não prestamos atenção ao que o Espírito está dizendo à Igreja e às Igrejas, a cada um dos batizados, mediante o testemunho do papa Francisco.

Recordo-me da Conferência de Aparecida, em 2007, quando Bento XVI ainda era Papa e Bergoglio presidente da Comissão que era responsável por redigir o documento final...
Com efeito, o Santo Padre retomou a expressão da Conferência de Aparecida que fala da “conversão pastoral” e da “conversão missionária” da Igreja, de toda a comunidade cristã. Há aqueles que reduzem a “conversão pastoral” a um reajuste de planos pastorais ou renovação de obras pastorais. E é algo bom. Se a evangelização procede por atração, atração de uma beleza que é irradiação da verdade na vida, é também algo bom que toda comunidade cristã se envolva em um profundo exame de consciência sobre o quanto é transparente e irradiante nela a presença de Cristo, o milagre de sua unidade, o testemunho de santidade, seu amor aos pobres e excluídos, para além da opacidade do pecado. 

No entanto, “conversão pastoral” evoca antes de mais nada a conversão dos Pastores, ou seja, dos Bispos e de seus colaboradores no ministério pastoral. Isto é fundamental, caso se deseje que esta “revolução evangélica” encontre, por um lado, multiplicadores que a difundam e se evite, por outro, que muitas pessoas acabem manifestando suas calorosas simpatias pelo papa Bergoglio, mas mantenha distância crítica em relação à Igreja e não a perceba como o mistério de Deus presente.

Há uma expressão recorrente nas intervenções do Papa a religiosos, clero e hierarquia: Igreja em saída...
É exatamente o contrário da autorreferência eclesiástica, de toda autossuficiência, do egocentrismo, do recolhimento temeroso, de qualquer refúgio autocomplacente, onde se aninha o clericalismo. Sair e ir ao encontro! E realizar isto com a confiança que o Evangelho de Cristo é a resposta superabundante e correspondente, totalmente satisfatória aos anseios de amor e verdade, de justiça e felicidade, conaturais à pessoa humana. O Espírito Santo nos precede no coração das pessoas e na cultura dos povos. É necessário sair dos espaços eclesiásticos! Não se deve ficar esperando os fiéis, enquanto – como disse o papa Francisco – há 99 ovelhas perdidas e só uma ficou no curral. É preciso estar atentos para discernir os sinais da presença de Deus nas mais diversas experiências de fé, esperança e caridade. A desatenção e a ausência são sinais de clericalismo.

Parece que hoje a mediação da Igreja é mais importante que nunca, e não só para derrubar muros seculares, como também para prevenir guerras incipientes.
A Igreja católica, consubstanciada com os sofrimentos e esperança de nossos povos, com a credibilidade que continua tendo como nenhuma outra instituição nos países latino-americanos, a partir desse amor preferencial aos pobres de evidente cunho evangélico, que o papa Francisco não para de testemunhar cotidianamente, precisa discernir profundamente esta nova fase conjuntural que está se abrindo na América Latina e as graves implicações que a mesma tem para sua missão educativa e missionária, misericordiosa e solidária. De forma alguma sua missão consiste em ser antagonista ou “capelão” político, sustentar, abater ou substituir governos. Tem, sim, a partir da originalidade de sua missão, [o dever de] manter muito alto os melhores ideais que vem de nossa história, colaborar na construção de um projeto histórico para América Latina e ajudar a solidificar grandes movimentos populares e consensos nacionais, sem os quais tudo fica na retórica. 

Ao mesmo tempo, o serviço da Igreja às nações pode ser indispensável para desarmar os ânimos recalcitrantes, promover atitudes públicas de perdão e reconciliação nas quais se aprecie a magnanimidade humana e as buscas convergentes de reconstrução nacional, suscitar caminhos de diálogo, promover acordos e se oferecer também como mediadora quando as circunstâncias o permitam. Deus também faz milagres na vida das nações!

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