«O instinto de imitação faz parte da psicologia humana.»


Brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus" (Mt 5, 16) - recomendou o Divino Mestre aos seus discípulos. São João Crisóstomo interpreta estas palavras como um convite: "haja em vós grande virtude, arda em vossos corações o fogo da caridade e sua luz brilhe diante dos homens. Porque, quando a virtude alcança esse grau de perfeição, é impossível mantê-la oculta, por mais que quem a pratica queira ocultá-la". Assim, os Apóstolos anunciavam o Reino de Deus sobretudo pelo exemplo de suas vidas.

Irmã Patrícia Victoria Jorge Villegas, EP, em Revista Arautos do Evangelho, dezembro 2015, republicado em Gaudium Pess

Doutrina transposta em vida

A mera doutrina não é suficiente para arrastar as vontades. Como a verdade entra no intelecto pelos sentidos, as coisas sensíveis têm sobre o espírito humano uma força maior que a doutrina abstrata. "O exemplo torna sensível a verdade, a qual, de certo modo, se encarna na pessoa e nos fatos".

Ensina-nos o Doutor Angélico: "Quando se trata de ações e paixões humanas, em que a experiência vale mais que tudo, os exemplos movem mais que as palavras". Assim como o farol orienta o navio, mas não o propulsiona, da mesma forma a doutrina por si só não move as almas; estas são movidas pelo exemplo, ou seja, pela doutrina transposta em vida. "São os exemplos que arrastam e motivam a trilhar o mesmo caminho", e isto em todos os campos do agir humano.

Narram as crónicas da Revolução Francesa um fato muito ilustrativo desta realidade. Quando Henri de La Rochejaquelein, com apenas 20 anos de idade, assumiu o comando de uma parte do exército vandeano, fez a seus homens esta célebre conclamação: "Si j'avance, suivez-moi; si je recule, tuez-moi; si je meurs, vengez-moi! - Se eu avançar, segui-me; se recuar, matai-me; se morrer, vingai-me!". Justificando com o próprio heroísmo este fogoso apelo, arrastava atrás de si à vitória, ou a uma gloriosa morte na luta, os combatentes sob seu comando.

O instinto de imitação faz parte da psicologia humana. "Da mesma forma como alguém boceja vendo outro bocejar, assim, movidos como por um mecanismo interno invisível, executamos uma ação, boa ou má, que vemos outros fazerem".

Obrigação de dar bom exemplo

Nesse sentido, nada é tão eficaz na observância do mandamento divino de amar o próximo por amor a Deus, quanto um comportamento edificante e o exemplo de uma vida íntegra, com vistas à salvação eterna de nossos irmãos.

Quem assim age faz o papel de um eloquente arauto da verdade. Recordemos, a propósito, o fato ocorrido com o grande São Francisco de Assis, cuja preocupação primordial era instruir os homens pelo exemplo, mais que pelas palavras.

Certo dia, convidou ele um monge a acompanhá-lo em uma pregação. Após dar algumas voltas pelas ruas, retornavam ambos ao mosteiro sem ter pronunciado palavra. Surpreso, o companheiro perguntou-lhe: "Mas, e a pregação?". Respondeu-lhe o Santo que o simples fato de dois religiosos se apresentarem com modéstia diante da população constituía já um sermão. São Francisco, com efeito, não se cansava de ensinar a seus primeiros seguidores: "Todos os irmãos devem pregar com as suas obras!".

Ao longo da História, muitos Santos deram às almas, pela simples presença, a esmola do bom exemplo. "Vi Deus num homem!", exclamou um advogado de Lyon, referindo-se a São João Maria Vianney, ao ser interrogado sobre o que havia conhecido em Ars. 
Convidado certo dia pelo Arcebispo de Évora a fazer uma pregação na catedral, São Francisco de Borja tentou esquivar-se, alegando cansaço e enfermidade, mas recebeu esta resposta: "Não quero que faça sermão, mas que suba ao púlpito e todos possam ver um homem que, por amor a Deus, abandonou tudo quanto tinha".

Ai do mundo por causa dos escândalos!

A este respeito, Santo António Maria Claret nos oferece uma expressiva figura: "A doutrina é como a pólvora; mas o exemplo é como a bala, que fere ou mata. A pólvora sozinha produz apenas barulho, assim também só a doutrina fará apenas ruído; é preciso acrescentar-lhe algum exemplo, que sirva de bala".

Portanto, o exemplo pode ter dois efeitos: ferir ou matar. A boa ação realizada diante de algum pecador fere-o e o faz perceber o caminho errado pelo qual avançava, e ao mesmo tempo o estimula a praticar o bem. Uma ação má, pelo contrário, expõe o próximo à ruína espiritual, ou seja, à morte. E isto é o pecado de escândalo.

São Tomás assim define o escândalo: "Uma palavra ou um ato menos reto que oferece uma ocasião de queda". Severas são as palavras do Divino Mestre ao referir-Se a essa falta: "É impossível que não haja escândalos, mas ai daquele por quem eles vêm! Melhor lhe seria que se lhe atasse em volta do pescoço uma pedra de moinho e que fosse lançado ao mar, do que levar para o mal um destes pequeninos" (Lc 17, 1-2). O gravíssimo pecado de escândalo prejudica não só quem o recebe, mas também quem o comete. "Ao primeiro, porque a falta cometida em decorrência do escândalo furta-lhe a vida da graça de Deus na alma. Ao segundo, por fazer o mesmo papel do demónio - perder almas -, acrescido do gosto em arruinar a inocência alheia".

O exemplo de um heróico ancião

"Se eu morrer agora corajosamente, mostrar-me-ei digno de minha velhice, e terei deixado aos jovens um nobre exemplo de zelo generoso, segundo o qual é preciso dar a vida pelas santas e veneráveis Leis" (II Mac 6, 27) - disse o admirável Eleazar antes de dirigir-se ao suplício.

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