«O lugar de Deus é sempre entre os últimos», comentário ao Evangelho de domingo (22.º do tempo comum)


«Naquele tempo, Jesus entrou, num sábado, em casa de um dos principais fariseus para tomar uma refeição. Todos o observavam. Ao notar como os convidados escolhiam os primeiros lugares, Jesus disse-lhes esta parábola: “Quando fores convidado para um banquete nupcial, não tomes o primeiro lugar. Pode acontecer que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu; então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer: ‘Dá o lugar a este’; e ficarás depois envergonhado, se tiveres de ocupar o último lugar. Por isso, quando fores convidado, vai sentar-te no último lugar; e quando vier aquele que te convidou, dirá: ‘Amigo, sobe mais para cima’; ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”» (…). (Do Evangelho do 22.º Domingo do Tempo Comum, Lucas 14, 1.7-14)

Ermes Ronchi, em Avvenire, tradução Rui Jorge Martins, snpcultura 

Jesus surpreendia os bem-pensantes: era um rabino que gostava dos banquetes, apreciava estar à mesa, ao ponto de ser chamado «glutão e bebedor de vinho, amigo de pecadores» (Lucas 7, 34); fez do pão e do vinho os símbolos eternos de um Deus que faz viver, do comer juntos uma imagem feliz e vital do mundo novo.

Dizia aos convidados uma parábola, notando como escolhiam os lugares mais importantes. Os fariseus: tão devotos, tão austeros em relação à aparência, e por dentro devorados pela ambição. Jesus critica-os, citando um passo famoso, extraído da antiga sabedoria de Israel: «É melhor que te digam: “Sobe para aqui” do que seres humilhado diante de um príncipe» (Provérbios 25, 7).

Dizia: quando fores convidado, vai para o último lugar, mas não por humildade ou por modéstia, mas antes por amor: coloco-me depois de ti porque quero que tu sejas servido antes e melhor. O último lugar não é uma humilhação, é o lugar de Deus, que «começa sempre pelos últimos da fila» (S. Orione); o lugar daqueles que querem assemelhar-se a Jesus, que veio para servir, e não para ser servido.

Jesus reage à eterna corrida aos primeiros lugares opondo «a estes sinais do poder o poder dos sinais». Uma expressão de D. Tonino Bello que ilustra a estratégia do Mestre: vai para o último lugar, não por um sinal de indignidade ou de desvalorização de ti, mas por sinal de amor e de criatividade. Porque gestos destes geram uma reviravolta, uma inversão de rota na nossa história, abrem o caminho para um modo de habitar a Terra totalmente outro.

Disse depois a quem o tinha convidado: «Quando ofereceres um banquete, não convides os teus amigos nem os teus irmãos nem os teus parentes nem os vizinhos ricos». Porque depois eles convidar-te-ão, e estes são os laços que mantêm um mundo imóvel e conservador, que se ilude de se manter a si próprio, num ilusório equilíbrio do dar e do ter.

Tu, ao contrário, faz como o Senhor, que ama em primeiro lugar, ama em perda, ama sem reciprocidade, ama sem contar e sem condições: quando ofereceres uma refeição convida pobres, aleijados, coxos, cegos. Acolhe aqueles que ninguém acolhe, dá àqueles que nada te podem restituir. E serás feliz porque não têm o que te dar em troca.

Que estranho: parecem quatro categorias de pessoas infelizes, e todavia escondem o segredo da felicidade. Serás feliz, encontrarás a alegria. Encontrá-la-ás de cada vez que fizeres as coisas não por interesse, mas por generosidade.

O homem, para estar bem, deve dar. É a lei da vida. E por isso também lei de Deus. Serás feliz, é o segredo das bem-aventuranças: Deus oferece alegria a quem gera amor.

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