«O encontro de Assis será uma voz forte para a misericórdia e a paz, um caminho para construir pontes de diálogo e derrubar os muros de indiferença e violência. Aquela semente semeada por Francisco em 1219 com o sultão Malik al-Kamil em plena Cruzada continua a produzir os seus frutos», escreveu o padre Enzo Fortunato, jornalista e diretor da Sala de Imprensa do Sacro Convento de Assis, numa carta enviada ao diretor do jornal Corriere della Sera (em agosto passado).
«Caro diretor,
O Papa Francisco volta a Assis. Esteve aqui no dia 4 de agosto como peregrino, para dizer que "o mundo precisa de perdão" e que "oferecer o testemunho da misericórdia é uma tarefa à qual ninguém pode se isentar".
Perdão e paz: esse é o caminho indicado pelo Papa Francisco diante da escalada de atos e atentados de violência, de guerras velhas e novas que semeiam miséria e sangue. Ninguém pode se isentar de gestos de perdão e paz.
É por isso que se torna fundamental o anúncio de que o pontífice volta a Assis neste dia 20 de setembro para participar da conclusão do Dia Mundial de Oração pela Paz, com o tema "Sede de paz. Religiões e culturas em diálogo", promovido pelas famílias franciscanas, pela Comunidade de Santo Egídio e pelos bispos da Úmbria, por ocasião do 30.º aniversário do encontro desejado por João Paulo II.
Há trinta ano, eram cerca de 20 os líderes religiosos. Hoje, dia 20 de setembro de 2016, são mais de 400, de Bartolomeu I ao primaz da Igreja Anglicana, do presidente da África Central ao imã de Damietta, no Egito, dos expoentes budistas do Japão ao sociólogo Bauman.
E são milhares os peregrinos para dar calor a um evento em um momento dramático: as barreiras e os detectores de metal que costeiam os complexos monumentais de Assis são um sinal tangível disso.
Será uma voz forte para a misericórdia e a paz, um caminho para construir pontes de diálogo e derrubar os muros de indiferença e violência. Aquela semente semeada por Francisco em 1219 com o sultão Malik al-Kamil em plena Cruzada continua produzindo os seus frutos.»
Assis: um diálogo que começou em 1219
Era o distante 1219, e Francisco de Assis se dirigia, contra a opinião de todos e em plena Cruzada, para Damietta: os soldados com a palavra das armas, ele com a palavra da paz. Os primeiros embebiam a terra de sangue, o segundo tentava embeber de paz o coração das pessoas.
Naquele contexto, ocorreu o encontro entre Francisco e o sultão do Egito, Malik al-Kamil. Um momento extremamente significativo e atual pelas suas consequências na busca da paz e do diálogo entre nações e fés, entre culturas e pessoas.
O encontro em Damietta é a porta que o Oriente abre para o Ocidente, e vice-versa. Dois homens iluminados deixam escancaradas todas as possibilidades para favorecer o encontro.
Assim as fontes franciscanas relatam o episódio: "O sultão, vendo o admirável fervor de espírito e a virtude do homem de Deus, também o ouviu de bom grado e lhe pedia vivamente para permanecer com ele".
Quais são os encontros que amadureceram a partir desse primeiríssimo diálogo inter-religioso? E, acima de tudo, quais são as suas consequências? Muitos, às vezes, enfatizam ironicamente: "É apenas cenografia, isso não leva a nada", mas a resposta é olhar para aquela que foi a intuição genial de João Paulo II: o mundo está em plena Guerra Fria, entre Rússia e Estados Unidos a tensão é altíssima. João Paulo II convocou em Assis os líderes religiosos do planeta. As resistências não faltaram, mas o papa não se rendeu e pediu para silenciar as armas.
Na noite do dia 27 de outubro de 1986, ele diria: «O que fizemos hoje em Assis, rezando e testemunhando em favor do nosso compromisso com a paz, devemos continuar a fazer todos os dias.» A consequência dessa oração conjunta viria em 1989, quando caiu o emblema da Guerra Fria: o Muro de Berlim.
Hoje, a Comunidade de Santo Egídio, as famílias franciscanas e a igreja de Assis se fazem porta-vozes da palavra do papa: uma resposta de paz a uma "silenciosa" terceira guerra mundial. Depois dos atentados na França, na Síria e no Paquistão, a resposta ao novo terror são Assis e as palavras do santo: «Fazei de mim um instrumento da vossa paz.»
Estamos em caminho para construir pontes de diálogo e para derrubar os muros da indiferença. Esse é o compromisso de Assis com a consciência que o papa dita: «Não são suficientes os grandes encontros internacionais. É a partir dos pequenos gestos quotidianos que se pode construir a paz.»
O padre José Tolentino Mendonça é o único português que, até ao momento, integra a lista de participantes no encontro internacional "Sede de paz: religiões e culturas em diálogo", que decorre de 18 a 20 de setembro em Assis e que contará, no último dia, com a presença do papa Francisco.
O padre José Tolentino Mendonça é o único português que, até ao momento, integra a lista de participantes no encontro internacional "Sede de paz: religiões e culturas em diálogo", que decorre de 18 a 20 de setembro em Assis e que contará, no último dia, com a presença do papa Francisco.

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