6 indignações de Jesus de Nazaré. E por isso O mataram


Jesus foi um Indignado que adotou uma atitude de rebeldia frente ao sistema e se comportou como um insubmisso frente à ordem estabelecida. O conflito, nascido da indignação, define o seu modo de ser; caracteriza a sua forma de viver; e constitui o critério ético da sua prática libertadora. A insubmissão e a resistência foram as opções fundamentais durante os anos de sua atividade pública, tanto no terreno religioso quanto no político; e isso explica seu trágico fim.

Juan José Tamayo, em Adital, 10.04.2012

1. Indignado com a religião oficial
Indigna-se com a religião oficial e com os seus intérpretes, que antepõem o cumprimento da lei ao direito à vida e incitam à vingança, em vez de chamar ao perdão. Quando está em jogo a vida e a liberdade das pessoas, infringe a consciência das leis judaicas do jejum, do sábado, da pureza, etc., e justifica o facto de que os seus discípulos não as cumpram. Come com pecadores e publicanos e ousa afirmar que as prostitutas precedem os escribas e fariseus no reino de Deus. O centro da religião está na prática das bem-aventuranças, carta magna da nova religião.

2. Indignado com os poderes religiosos
As autoridades religiosas viviam uma cisão entre a realidade e a aparência. A sua atitude não poderia ser mais hipócrita: diziam e não faziam; absolutizavam a Lei e impunham ao povo cargas legais que eles mesmos não cumpriam. Jesus atira-lhes na casa a falsidade do seu ensinamento e a sua falta de coerência. Não os reconhece como autoridade, nem segue seus ensinamentos.

3. Indignado com os poderes económicos
A acumulação de bens é, talvez, a causa mais importante da indignação de Jesus, convencido como estava da incompatibilidade entre servir Deus e o dinheiro e de que toda riqueza é injusta e se converte em meio de dominação e de opressão, que gera pobreza ao seu redor. Ele questiona as raízes materiais e religiosas  geralmente unidas  da exclusão e luta para erradicá-las. Coloca-se ao lado dos grupos marginalizados social e religiosamente: publicanos, pecadores, prostitutas, enfermos, possessos, pagãos, samaritanos e gente de má fama.

4. Indignado com o poder político
A indignação de Jesus aumenta quando enfrenta os poderosos, a quem acusa de opressores, e com a tirania imposta por Roma ao seu povo. A condenação à morte, e morte de cruz, ditada e executada pela autoridade romana, foi a consequência lógica da indignação contra o poder político, a quem nega legitimidade e contra o império, a quem considera invasor. Portanto, não se tratou de um erro, como acreditava Bultmann. Ele mereceu!

5. Indignado com a religião e com a sociedade patriarcais
Jesus denuncia as múltiplas marginalidades a que a religião e a política submetiam as mulheres; opõe-se às leis que as discriminavam (lapidação por adultério, libelo de repúdio) e incorpora-as no seu movimento em igualdade de condições com os homens e com o mesmo protagonismo. No movimento de Jesus elas recuperam a dignidade negada pela religião oficial e a cidadania negada pelo império.

6. Indignado com o Deus autoritário
Sem dúvida, essa é a indignação mais dolorosa, a que mais destroçou o seu interior, a que pôs à prova a sua fé e a sua esperança. O conflito com Deus mostra-se em toda sua radicalidade nos momentos finais de sua vida, quando a água está pelo pescoço. Jesus pede contas a Deus por não estar ao seu lado no processo, na condenação e na execução... E como Job, expressa a sua mais profunda decepção e lança um grito de protesto: «Por que me abandonaste?»

A indignação de Jesus de Nazaré com os poderes econômicos, religiosos, políticos e patriarcais constitui um desafio para os cristãos e cristãs de hoje e um chamado a incorporar-se ao movimento dos indignados. Não para sacralizá-lo; mas para somar forças e contribuir com novas razões à luta por "Outro Mundo possível”.

*Juan José Tamayo é teólogo 
e Diretor da Cátedra de Teología y Ciencias de las Religiones "Ignacio Ellacuría” 
na Universidad Carlos III de Madrid

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