«A crise vocacional que a Igreja, sobretudo na Velha Europa, vive é uma consequência de uma pastoral repetitiva e medíocre», diz D. José Cordeiro, bispo de Bragança-Miranda


O estilo da pastoral vocacional, com abundantemente afirma o Papa Francisco, «é aprender o estilo de Jesus, que passa nos lugares da vida quotidiana, para sem pressa e, olhando os irmãos com misericórdia, conduzi-los ao encontro com Deus Pai». A partir da narrativa da vocação de Mateus, o Papa indicou o dinamismo da pastoral vocacional em três verbos: sair, ver e chamar.

A pastoral vocacional requer uma Igreja em movimento, uma Igreja “em saída”. «Devemos aprender a sair dos nossos rigorismos que nos tornam incapazes de comunicar a alegria do Evangelho, das formas estandardizadas que muitas vezes são anacrónicas, das análises preconceituadas que fecham a vida das pessoas em esquemas frios. Sair de tudo isto.»

O estilo de Jesus tem de ser o estilo de toda a pastoral, especialmente a dimensão pastoral vocacional, ou seja, ver, parar sem pressa e olhar cada pessoa, olhos nos olhos. Às vezes os pastores e os agentes pastorais «tomados pela presa, excessivamente preocupados pelas coisas a fazer, que riscam em cair no vazio ativismo organizativo, sem conseguirem parar para encontrar as pessoas. Ao  contrário,  o Evangelho, faz-nos ver que a vocação começa por um olhar de misericórdia que repousa sobre mim. É aquele termo: “miserando”, que exprime ao mesmo tempo o abraço dos olhos e do coração. É assim que Jesus olhou Mateus». 

O olhar do discernimento tem de ser feito sem ligeireza nem superficialidade. Por isso, o Papa pede a todos, especialmente ao Bispos: vigilância e prudência. 

A crise vocacional que a Igreja, sobretudo na Velha Europa, vive é uma consequência de uma pastoral repetitiva e medíocre, que reclama a passagem da gramática da vida à dramática da salvação (A. Cencini). O Kerygma vocacional, ou seja, a vocação faz parte do primeiro anúncio e tem de ser anunciado como um bem recebido que tende por sua própria natureza a doar-se. Mas pode acontecer a alguns de «gastar-se sem se doar» (G. Sigismondi). A escassez não é negativa, porque os carismas não estão em crise. Que devemos, então, fazer? No testemunho alegre mantermo-nos próximos e perseverante no sair, no semear a Palavra, no ver cada um, sobretudo os jovens, no rezar, e no chamar. Há necessidade de promover uma cultura da vocação e ‘vocacionar’ os próprios agentes pastorais para tal cultura integral na Igreja.
 
Deus é tudo e só amor que chama, ama, transforma, capacita, envia e acompanha até ao fim do fim. Por isso uma vocação é uma vida humana na qual se pode ler o absoluto do Evangelho do amor. Os que, na Igreja, são chamados a exercer um ministério hão-de deixar-se mover, não por interesse, mas por amor. Chamados para chamar.

Comentários