Maus, mas agradecidos


Na parábola do fariseu e do publicano, mais uma vez, Jesus desvela a presença de dois personagens no nosso íntimo: o fariseu, expressão máxima do legalismo, do moralismo, do perfeccionismo, e o publicano, expressão máxima daquele que se reconhece pecador, necessitado da misericórdia divina.

Ambos vão ao templo (coração) para orar, e, na oração, cada um deles revela seu rosto e sua identidade. Qual deles prevalece no nosso interior? Qual deles alimentamos? De facto, é na oração que o ser humano exprime aquilo que é mais íntimo e mostra como ele se relaciona com os outros e com Deus.

P.e Adroaldo Palaor. SJ, em Unisinos

Perfecionismo é uma doença espiritual
Jesus apresenta o fariseu como protótipo da pessoa que se sente segura de si mesma, e que tem essa segurança porque cumpre minuciosamente com as observâncias religiosas:
 Não pode ver nem reconhecer as suas imperfeições, mesmo estando dentro dos muros de um lugar sagrado. 
 Na sua oração, ele não pede nada, mas informa a Deus sobre a sua perfeição: na realidade não é Deus o centro da sua existência, mas o seu eu. 
 Ele dá graças por sua conduta perfeita e exemplar. Não só é perfeito diante dos seus olhos, mas quer também mostrar-se perfeito aos olhos de Deus.
• Ele está cego e não vê que também é pecador, dependente da misericórdia de Deus. Na sua oração, está ausente o pedido de perdão.
• Na sua auto-suficiência, o fariseu pensa que pode “ficar de pé” diante de Deus e à frente de todos; sobe o pedestal da “perfeição” e do “legalismo” e distancia-se do amor e da misericórdia de Deus; com isso, cai no orgulho religioso e é incapaz de ouvir a Deus no seu íntimo.
 Agradece porque é sem vícios, não porque se sinta amado por Deus.
• Por considerar-se “justo”, apresenta a Deus uma lista de pessoas indesejáveis, censurando-as e condenando-as.

A obsessão pela perfeição é uma doença do espírito, um eu em conflito consigo mesmo. O perfeccionismo vive uma batalha interior, uma batalha que jamais se vence; a sua vida torna-se estreita, ele se desumaniza e mergulha nos escrúpulos: será incapaz de ter compaixão consigo mesmo e para com os outros.

Misericórdia: poder de divinização do ser humano
O publicano, consciente de sua indigência e fragilidade, prostra-se diante de Deus, volta-se para a o chão, reconhece seu pecado, abre-se à misericórdia de Deus, de quem espera o perdão.
Reconhecendo-se pecador diante de si mesmo, diante de Deus e dos outros, sabia que a única esperança era a misericórdia de Deus.
• Diante da grandeza e transcendência de Deus, ele nada tem para  Lhe apresentar, nada de que se orgulhar e nada para exigir.
• Só lhe resta a pobre oração dos excluídos e dos pecadores assumidos, dos desmoralizados e humildes: o agradecimento.

A misericórdia torna o Deus de Jesus acessível a tudo que é imperfeito, limitado, humano... Ela oferece a possibilidade de pôr de lado o julgamento e a condenação. O passado de erros e fracassos é substituído pelo presente de aceitação e perdão. 

A misericórdia é a resposta de Deus ao delírio do ser humano de querer ser perfeito; é a única força capaz de divinização do ser humano: «Sede misericordiosos como o Pai é misericordioso» (Lc. 6,36), diz Jesus.
Ser misericordioso “como” Deus constitui o mais elevado convite e a mensagem mais profunda que o ser humano recebe sobre como tratar a si mesmo e aos outros.

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