O Papa das Periferias: a tónica continua em 2017


Para o ano em que o Papa Francisco disse que não vai passar muito tempo em viagem ao exterior, ouvimos que, em 2017, ele vai a Fátima, Índia e Bangladesh, deseja ir à África e, talvez, à Colômbia. Notavelmente ausentes estão viagens ao “centro”, quer dizer: a Europa ocidental e a América do Norte.

John L. Allen Jr., em Crux, 04-10-2016. Tradução Isaque Gomes Correa, Unisinos

Durante a entrevista ao Papa Francisco a bordo do avião que o levou de volta a Roma, após três dias na Geórgia e no Azerbaijão,  perguntaram-lhe sobre as viagens que pretende fazer em 2017. Tenhamos em mente que a ida à Geórgia e ao Azerbaijão foi a 16.ª viagem além-mar deste papado, e no final deste mês ele vai ir para Lund, na Suécia, para marcar o 500.º aniversário da Reforma Protestante.
Eis o que Francisco respondeu:
«Com toda a certeza, posso dizer que vou a Portugal, mas vou só a Fátima. (...) É quase certo que vou à Índia e ao Bangladesh. (...) Dependendo da situação política e das guerras, mas temos a possibilidade também de ir a África.»

O importante disso tudo é: Francisco não tem muito tempo para viagens em 2017, então ele vai ter de escolher com critério. E, claro, é exatamente nos momentos em que um papa tem de fazer escolher difíceis que se revelam as suas verdadeiras prioridades.

Nesse sentido, o mais surpreendente na sua resposta é o que está ausente: ele não menciona nenhuma vista ao Ocidente além de uma rápida passagem por Fátima. Não faz menção nesse sentido sequer como uma possibilidade teórica – nenhuma visita à Europa ocidental ou à Inglaterra, à América do Norte, Austrália, Nova Zelândia, ou qualquer outro lugar que geralmente é reconhecido como um país desenvolvido.

Pelo contrário, além de Fátima, o que se ouve é uma outra ida à Ásia, o desejo óbvio de uma outra viagem à África, e agora a possibilidade aparentemente distante de uma estada na América Latina (Colômbia).

Nas 16 viagens feitas até então, Francisco visitou 25 países. Eis a lista atualizada:
• América Latina: 6 (Brasil, Equador, Paraguai, Bolívia, Cuba, México)
• Oriente Médio: 4 (Jordânia, Israel, Palestina, Turquia)
• África: 3 (Quênia, Uganda, República Centro-Africana)
• Ásia: 3 (Coreia do Sul, Sri Lanka, Filipinas)
• Europa oriental: 3 (Albânia, Bósnia-Herzegovina, e Polônia)
• Cáucaso: 3 (Armênia, Geórgia, Azerbaijão)
• O sul da Europa: 1 (Grécia)
• Europa ocidental: 1 França (uma viagem de um dia a Estrasburgo para discursar ao Parlamento Europeu)
• América do Norte: 1 (Estados Unidos)

Se estas viagens demonstram as prioridades do papa, é justo dizer que aquela parte chamada de “as periferias” do mundo moderno estão no topo.

No final deste ano, a Ásia e a África estarão na frente da Europa e América do Norte em termos de visitas papais. Em outras palavras, para o Papa das Periferias, essa tónica continuará.

Uma cúria de periferia
A propósito, se Francisco realizar um consistório para a criação de novos cardeais no fim deste ano ou no começo de 2017, devemos esperar o mesmo: não achar que haverá uma grande quantidade de novos cardeais vindos da Europa ocidental e da América do Norte.
Eis o que o papa disse no avião sobre o assunto:

«Os critérios serão os mesmos dos dois outros consistórios, um pouco de toda parte, porque a Igreja é no mundo inteiro. Ainda estou estudando os nomes, mas talvez sejam três de um continente, dois de um outro ou um de outro lugar, um de um país, mas não se sabe. (...) Deve-se pensar em fazer um equilíbrio, mas eu gosto que se veja no Colégio Cardinalício a universalidade da Igreja, não somente o centro – por assim dizer – ‘europeu’, de todos os lados, mas dos cinco continentes se possível.»

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