Os Franciscanos permanecem em Alepo, porque «só os mais pobres ficaram na cidade»


Desde o mosteiro franciscano Er-Ram pode-se ver quase toda a cidade síria de Alepo, ou o que resta dela depois de cinco anos de guerra. A cidadela antiga, que foi declarada Património da Humanidade em 1986, ainda permanece no topo da colina. Alepo antes era conhecida por ser um lugar de paz e coexistência, foi o lar de árabes, turcos, curdos, circassianos e trezentos mil cristãos de dez denominações.

Trechos de artigo na revista além-mar, que será publicado em novembro

Alepo é uma cidade histórica, com um significado religioso, político e estratégico crucial. Um provérbio sírio diz: «Quem controla Alepo, controla a Síria.» Foi a terceira cidade cristã do Oriente Médio e ao mesmo tempo a capital da cultura islâmica. Foi a antiga capital do reino hitita e é um lugar de grande valor arqueológico, o berço de culturas diferentes, uma encruzilhada na Rota da Seda entre o Oriente e o Ocidente e a antiga sede do Codex Aleppo (que é considerado o melhor manuscrito existente da Bíblia hebraica, embora esteja incompleto). Tudo foi destruído agora.

Alepo, que é a segunda maior cidade da Síria, está no epicentro de uma guerra civil que há mais de cinco anos (desde março de 2011) opõe o governo do presidente Bashar al-Assad e forças aliadas - nomeadamente a Rússia - a várias forças rebeldes contrárias ao regime. Em entrevista ao jornal russo Komsomolskaya Pravda, o Presidente da Síria promete «continuar a limpar» a cidade, onde 275 mil cidadãos, 100 mil dos quais crianças, estão encurralados pelos bombardeamentos intensivos.

Só os mais pobres ficaram na cidade de Alepo
Na Síria, ainda permanecem 14 frades franciscanos, dos quais cinco estão em Alepo. Eles são os responsáveis por três centros: Paróquia de São Francisco de Assis; uma capela que pertence à Paróquia de Er-Ram; e a Escola Terra Santa. Nos últimos meses, a paróquia de São Francisco foi bombardeada em uma ocasião e o convento de Er-Ram cinco vezes.

Os Frades Franciscanos foram convidados a deixar a cidade várias vezes. «As mesmas razões que nos podem levar a sair são aquelas que nos fazem ficar. Os cristãos que ainda estão aqui confiaram em nós, eles precisam de nós e nós precisamos deles. Queremos permanecer perto de todas aquelas pessoas que incessantemente batem à porta do nosso convento, para receber alguma ajuda e conforto», frisa o padre Firas Lufti, que trabalha no Colégio da Terra Santa dos Franciscanos em Alepo. «Diria que o Senhor não nos deixa sozinhos se houver um pouco de consolação e de força para seguir em frente, porque o Senhor está presente e Ele é o Senhor da esperança, que nos ajuda a resistir e a esperar esta ressurreição depois do período da paixão e da morte», afirma o padre Firas.


Em agosto, devido aos combates, cerca de 100 pessoas refugiaram-se no convento dos franciscanos. Na casa, explica o sacerdote, puderam encontrar «a força para viver e esperar por um futuro melhor». Os jovens encontraram um lugar onde se distraem com o desporto. «Há disparos, mas é muito comovedor ver um pouco da alegria destes jovens, a força de poder viver e de esperar um futuro verdadeiramente melhor», explicou o religioso. Entretanto, expressou sua preocupação pelas crianças. 

O padre Lufti indicou que só os mais pobres ficaram em Alepo, porque quando começou a guerra aqueles que tinham mais condições económicas deixaram a cidade. «Actualmente em Alepo vivem os mais pobres. Procuramos sair ao seu encontro, não só oferecendo comida, água», mas também «abrindo este espaço de acolhimento, de assistência espiritual e psicológica. As pessoas em Alepo têm muita necessidade de serem escutadas», assinalou. 

A casa dos Franciscanos também acolhe a comunidade cristã maronita que realiza as suas celebrações semanais na igreja do mosteiro, uma vez que as igrejas maronitas dos bairros circundantes foram completamente destruídas ou estão inabitáveis. «O nosso mosteiro é a sede de uma escola para surdos-mudos, um dos poucos centros deste tipo que ainda está operacional em Alepo. O acolhimento que nós tentamos oferecer incondicionalmente é uma expressão concreta das obras de misericórdia que a Igreja nos pede para fazer, especialmente neste Ano Santo da Misericórdia. Nós também partilhamos, com quem bate à nossa porta, o bem mais precioso que existe agora em Alepo, a água do poço que temos em nosso convento.»

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