Para qual olha Jesus primeiro: culpa ou sofrimento?


«A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo», escreve Francisco no número 10 da Bula Rosto da Misericórdia

A Igreja esqueceu-se da misericórdia? O teólogo espanhol José Antonio Pagola afirma que «na Igreja nunca a compaixão foi esquecida», mas adianta que «não há dúvida de que [a Igreja] não conseguiu introduzir no mundo o princípio da misericórdia como a grande herança de Jesus» (in Jesus e o dinheiro, Paulus, pág. 66).

«Em boa parte» – continua Pagola, agora citando o teólogo alemão J.B. Metz – porque «a doutrina cristã da redenção dramatizou excessivamente a questão da culpa e relativizou a questão do sofrimento… De uma religião sensível ao sofrimento passou mais a ser uma religião sensível ao pecado. O seu interesse principal deixo de ser o sofrimento da criatura e concentrou-se na culpa».

Aprender com Jesus
Talvez tenhamos então de reaprender, ou simplesmente aprender, a misericórdia com Jesus Cristo. Pagola explica-nos como podemos fazer:

«No cristianismo, temos de recuperar um dado de suma importância. O primeiro olhar de Jesus não se dirige ao pecado do ser humano, mas ao sofrimento.

O contraste com o profeta São João Batista é esclarecedor. Toda a atividade do Batista gira à volta do pecado; denuncia os pecados do povo, chama os pecadores à penitência e oferece um batismo de conversão e de perdão aos que acorrem ao Jordão. 

O Batista não se aproxima dos enfermos, nem toca no pé dos leprosos, nem abraça as crianças da rua, nem se senta a comer com os pecadores excluídos, nem com gente indesejável. 

O Batista não se aproxima do sofrimento das pessoas, nem se dedica a fazer a vida mais humana. Não sai da sua missão estritamente religiosa. 

Para Jesus, pelo contrário, a primeira preocupação foi o sofrimento das pessoas enfermas e subalimentadas da Galileia, a defesa dos aldeãos explorados pelos poderosos donos das terras ou o acolhimento dos pecadores e prostitutas, excluídos da religião. 

Para Jesus, o grande pecado contra o projeto de Deus consiste sobretudo em resistirmos a tomar parte do sofrimento dos outros, fechando-nos no nosso próprio bem-estar.

A partir da Sua experiência radical da compaixão e misericórdia de Deus, Jesus introduziu na história um princípio decisivo de ação: "Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso" (Lc 6, 36). É a compaixão ativa e solidária que nos há de conduzir para esse mundo mais digno e feliz querido por Deus para todos. Por isso, a misericórdia não é uma virtude a mais, mas sim o caminho único para reagir perante o clamor dos que sofrem e para construir um mundo mais humano. Esta é a herança de Jesus para toda a humanidade» (Jesus e o dinheiro, 35)

Os três verbos da misericórdia 
A misericórdia concretiza-se principalmente em três verbos: consolar, perdoar, dar. 

Retomemos as palavras de Francisco, que pede que a misericórdia seja reproposta com novo entusiasmo e pastoral renovada: «Precisamos sempre de contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação.
Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade.
Misericórdia: é o acto último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro.
Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida.
Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado» (Rosto da Misericórdia, 2)


Fonte: Correio do Vouga, 23 de outubro de 2015

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