«Que vês, Jeremias?»
E eu respondi: «Vejo um ramo de amendoeira.»
[Eis
que, ainda no inverno, a primavera já se anuncia]
Há um frio instalado dentro das pessoas. Não está relacionado com o inverno que chega. É um frio triste e conformado. Faz frio dentro das pessoas e o que o mundo dá não chega para as aquecer. A realidade não é quente o suficiente para soprar esse frio que já se fez casa em nós.
Há um nevoeiro instalado dentro das pessoas. Não está relacionado com a estação do ano. É um nevoeiro que incapacita, não deixa ver e não deixa chegar. O problema é que quando está muito nevoeiro e faz muito frio, as mãos começam a doer e os dias respiram pior. É isso que nos está a acontecer sem darmos conta.
Estamos a ficar sem calor. Daquele calor que tem a voz dos abraços e que faz ganhar raízes nas coisas boas.
Estamos a ficar sem chama. Daquela chama que faz arder vontades e sonhos e que nos faz ser capazes de tudo.
Estamos a ficar turvos. As costas fazem uma curva descendente, que rima com as vezes que olhamos para baixo.
Estamos a ficar velhos. Ainda não vivemos quase nada e já arrumámos as roupas de viver e de sonhar.
Estamos a ficar cegos. Olhamos para notícias sem interesse, aplicações aborrecidas, computadores atulhados de fotografias e telemóveis cheios de números que já se fizeram ossos e pó.
Tiramos fotografias mas já não sabemos olhar nos olhos de ninguém.
Temos o melhor telefone do mundo e estamos submersos numa solidão disfarçada de companhia.
Estamos a ficar sem ar. Daquele ar que traz o fresco da manhã, o brilhozinho fresco das estrelas da noite e o golpe feliz do calor da tarde.
Estamos a ficar longe. Daquele longe que nos faz reparar nos outros para perceber que se tornaram estranhos em muito pouco tempo. Pelo pouco tempo que tivemos.
Estamos a ficar tristes. Daquela tristeza que se confunde com um dia frio ou de nevoeiro.
Talvez seja tempo
de calar o frio e de lhe dizer para ir dar uma curva.
De saltar do sofá para a rua.
De passar da mensagem de texto às mãos dadas.
De passar da televisão para o mundo real. Não vamos estar preparados para ver tudo o que vamos encontrar se estivermos dispostos a olhar à volta. Mas vamos aprender.
E quando abrirmos os olhos e os braços vamos encontrar pessoas que precisam do que nem sabíamos que tínhamos para dar. Há pessoas à nossa espera nos lugares por onde passamos todos os dias.
Há lugares dentro das pessoas que estão à nossa espera todos os dias. É preciso não ficar distraído. O mundo pode ter lugares maravilhosos mas os que existem dentro de alguém são os mais inacreditáveis e preciosos.
É preciso não esperar pelo dia de amanhã. É preciso não esperar pelo futuro para arregaçar as mangas ao coração.
Estamos a morrer à fome de momentos. De alegrias. De dias inesquecíveis. É preciso muito mais do que aquilo que estamos a fazer.
O inverno está a caminho mas já chega deste frio.
Abre os olhos e abraça. Abre os braços e...vê!
Marta Arrais, em iMissio.net
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