Esta é a carta de João Delicado, antigo aluno na Companhia de Jesus (jesuítas), atualmente formador de desenvolvimento pessoal, ao seu sobrinho acerca do Dia de Todos os Santos
Caro sobrinho: colocas-me diante de uma questão essencial do
combate à fé cristã. De facto, há que evitar por todos os meios possíveis que
os humanos tomem para si o exemplo de outros que passaram, antes deles, por
esta terra. Não há nada mais abominável que um santo que ilumina essa gentalha,
ajudando-a a atravessar as dificuldades da vida. Por isso gostava de partilhar
contigo quatro estratégias para destruir a imagem de todos os santos. Se as
aplicares bem, terás resultados imediatos e duradouros. Aliás, basta aproveitar
os exageros desses miseráveis humanos para os afastar do nosso grande Inimigo.
1.ª Estratégia: OS SANTOS MILAGREIROS
Esta estratégia talvez seja das mais fáceis de aplicar uma
vez que, mesmo sem a nossa ajuda, já toma proporções escabrosamente saborosas.
Há humanos cuja formação cristã é tão rudimentar que tomam os santos como uma
espécie de deuses aos quais devem adorar. Levam consigo dinheiro, fotografias,
velas, papelinhos, depositando neles a secreta esperança de que tudo mude no dia
seguinte. É bom acalentar essa esperança e fazer-lhes crer que podem ficar à
espera de braços cruzados. É que, conforme constatam que, uma e outra vez, nada
muda, acabam por ganhar uma tal frustração que, mudarão de santo em santo até à
exaustão; e, se tudo correr em nosso favor, irritar-se-ão com as coisas de Deus
e acabarão por se afastar definitivamente do caminho de fé. Os que me preocupam
são aqueles que, fazendo exactamente os mesmos gestos, se limitam a pedir a
intercessão desses santos para que Deus lhes dê a luz e a força para que
ultrapassem as suas dificuldades. E o mais assustador é quando sabem que tudo
depende também do próprio esforço. Esses são obstinados; muito difíceis de
enganar.
2.ª Estratégia: OS SANTOS PÁLIDOS
Algo que me diverte é constatar como alguns humanos
representam os santos. Uns, num estilo excessivo cheio de dourados e
brilhantes. Outros, no estilo muito despojado, de cabeça caída, cara pálida e
olhar ausente. Uns e outros, fazendo uma muito pálida ideia do que seriam os próprios
santos, como pessoas, no dia-a-dia. Quando os humanos, através das imagens, são
induzidos a crer que os santos pertencem a um tempo muito antigo – ou melhor
ainda, mítico - ou que, simplesmente, não parecem deste mundo, e que, se
passaram por cá, foi quase por acaso, esse é um grande contributo para a nossa
missão. Um outro extremo com o qual me regozijo é quando eles representam os
santos nos materiais e na dimensão dos brinquedos das crianças. Não há nada
mais agradável que ver os humanos a acreditar em talismãs que levam na carteira
ou no carro. Os que nos dão verdadeiras dores de cabeça são aqueles que param a
rezar nas igrejas e sabem que aquela imagem é apenas uma representação; ou
aqueles que levam uma medalhinha consigo e sabem que ela não tem poder mágicos,
mas - algo muito mais insidioso – aproveitam-se dela para abrir o coração
Àquele que nós queremos que eles esqueçam.
3.ª Estratégia: OS SUPER SANTOS
Sempre que os humanos - com as suas projeções - idealizam os
santos, isso deve deixar-nos verdadeiramente satisfeitos. Sempre que, em
pinturas ou esculturas, em filmes ou biografias, exageram as qualidades humanas
e espirituais dos santos e omitem todo o tipo de sombras, lutas e dificuldades
que tiveram, isso dá um efeito espantoso! A ingenuidade dos humanos é tal que,
ao representar os santos dessa maneira, não percebem que, em vez de embelezar e
oferecer um modelo a si próprios, estão a inventar alguém que nunca existiu; e
essa é a melhor forma de criar dois mundos aparentemente afastados: o dos
santos e o dos humanos. Não é preciso um esforço imenso para que os humanos se
convençam de que nada têm a ver com aquela gente. Aliás, o supra-sumo disto é
quando os mantemos na ilusão de que os santos nasceram santos, ou tiveram uma
conversão repentina e nunca tiveram que subir a longa escada da santidade! Isso
é hilariante; e tem efeitos admiráveis. Qualquer humano fica esmagado pela
frustração e pela culpa, ao pensar que é o único que se bate com aquelas
tentações ou limitações; e que nunca será capaz de chegar a Deus. Pelo
contrário, se condescendermos em que seja mostrada qualquer debilidade ou
fragilidade que seja dos santos, é dar oportunidade a que essa gentinha humana
se identifique e encontre neles alguma pista para o seu crescimento. Isso é
arriscado demais: seria catastrófico para nós!
4.ª Estratégia: OS SANTOS-A-EVITAR-A-TODO-O-CUSTO
Independentemente do sucesso das estratégias anteriores,
vale tudo para fazer com que os humanos acreditem em santos irreais, santos que
nada tenham a ver com as suas vidas. O pior que nos poderia acontecer era que
eles descobrissem os santos que acordam a meio da noite - várias vezes - para
acudir um filho e, de manhã, agarram em si e ainda vão trabalhar; os santos que
passam o dia sentados à secretária, entregando-se a um trabalho monótono mas
que sabem beneficiar tanta gente; os santos que ninguém vê, porque não têm
condições físicas para sair de casa, ou do hospital, ou do lar; os santos que
adormecem no autocarro, apertados e aquecidos pelo respirar de todos, em dia de
chuva, e ainda oferecem o lugar; os santos que sujam as mãos no mundo da droga,
da miséria ou da política, para limpar a alma da sociedade; os santos, enfim,
que arriscam a vida na luta pela justiça e pelo bem comum. Todos esses são os
mais ameaçadores para a nossa missão. Neste ponto, é impreterível que
persuadamos os cristãos a continuar a declarar santos apenas a padres e
religiosos, esquecendo esses outros humanos, que vivem inseridos no mundo. O
pior que nos poderia acontecer era que qualquer pessoa na rua considerasse a
santidade como algo que tem a ver consigo. Esperemos que isso nunca aconteça.
Seria o fim da nossa espécie.
João Delicado, em Ver para além do olhar, 31 de outubro de 2011
[Texto inspirado no livro "Vorazmente Teu" de C.S. Lewis]

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