«O sacerdócio não é uma necessidade ou problema da Igreja, mas um dom para os outros»


«Nós ainda vemos o sacerdócio e até as vocações sacerdotais com uma necessidade, às vezes como um problema, uma realidade que dessa forma não nos leva a parte nenhuma», comentou Dom Virgílio Antunes, bispo de Coimbra e  presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios em entrevista concedida, em Fátima, à Agencia Ecclesia.

«A Igreja deve mostrar o sacerdócio não como uma "necessidade" ou "problema", mas sim como um "dom para os outros", e como fruto da "misericórdia de Deus», afirmou.

Abordando a promoção vocacional, insistiu na necessidade de a Igreja Católica "mudar algumas das perspetivas em que vem insistindo desde o passado".

Fundamento de qualquer vocação e animação vocacional
Dom Virgílio destacou os dois fundamentos de qualquer vocação: «a humanidade» de cada pessoa, criada «para ser um dom para os outros», e «a perspetiva de fé no sentir e atuar a misericórdia de Deus».

Para o presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios, a Igreja Católica e as suas estruturas devem «começar exatamente por ajudar os jovens, as crianças e até as pessoas na primeira fase da vida atual, a tomarem consciência de que a sua vida humana é já um dom para os outros e que não tem sentido, não se realiza se não for no serviço aos outros, nas mais variadas situações e circunstâncias. Porque esse é o ponto de partida para a construção de qualquer vocação cristã ou sacerdotal».

O motor da vocação é a misericórdia de Deus
Na Mensagem para a Semana dos Seminários, com o título «Movidos pela Misericórdia de Deus», Dom Virgílio Antunes sublinha que «uma educação cristã que não favorece experiências fortes de encontro com Deus nos momentos de espiritualidade, de oração, de reconciliação, de perdão, de partilha das misérias humanas, não pode haver consequências vocacionais».

Logo a seguir, refere: «Uma família que não vive relações de comunhão a partir da fé e onde cada um não está disposto a acolher, compreender e perdoar no seguimento de Jesus, não fomenta os gérmenes da vocação.»

E precisa: «Uma séria pastoral das vocações sacerdotais assenta na promoção de ações que levem a experimentar a misericórdia de Deus que se alegra com cada um dos filhos que reencontra e conhecer em primeira mão a alegria de cair nos seus braços de Pai.»

Neste sentido, salienta: «A pastoral vocacional tem de entrar na agenda de todos os ramos, de todas as áreas da pastoral, e em primeiro lugar na agenda do próprio pároco e da comunidade paroquial.»

Seminário, casa da misericórdia
No último parágrafo, a Mensagem esclarece a natureza e a missão do seminário: «A decisão de entrar no Seminário, devidamente acompanhada pela Igreja, e a caminhada que ali se faz, têm como primeiro objetivo ajudar os jovens a crescer no conhecimento da misericórdia de Deus para consigo mesmos; nessa altura sentir-se-ão movidos interiormente a pôr a sua vida ao serviço dos outros.

A decisão de ser padre, ministro de Deus e da Igreja, nasce do encontro com o Deus rico de misericórdia que escolhe e capacita alguns para serem seus rostos visíveis por meio do sacramento da Ordem.

O Seminário, é um lugar, um tempo, uma comunidade cristã, que favorece o crescimento dos candidatos ao sacerdócio na alegria do encontro com a misericórdia de Deus que os move no sentido da misericórdia para com os irmãos. É, por isso, verdadeira casa da misericórdia onde todos se alegram porque Deus continua em todos os tempos a fazer festa por um só pecador que se arrepende, por um filho perdido que se reencontra, por alguém que estava morto e reviveu.»

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