«Os santos permaneceram firmes na fé, com o coração generoso»


No passado dia 16 de outubro foi canonizado o padre José Brochero, também conhecido como El Cura Gaucho.

Quem é este novo santo, apontado por Francisco como exemplo de um sacerdote com «cheiro às suas ovelhas»?


Filipe Pedrosa, técnico, consultor e formador em gestão de espaços e solidariedade social

Nascido em 1840, José foi ordenado aos 26 anos e logo destinado a la catedral de Córdoba, Argentina. Poucos meses depois, uma epidemia de cólera começa a ceifar milhares de vidas, sobretudo nos subúrbios pobres em redor da cidade. Sem olhar ao perigo e a fadigas, o padre José pede dispensa do seu posto e oferece-se para assistir aos moribundos, dando-lhes o consolo dos sacramentos, recolhendo suas últimas palavras e auxiliando os órfãos que deixam sem terem com o que se prover.

Após este período intenso e desgastante, o jovem sacerdote passa alguns anos a ensinar Filosofia no seminário. Sua destinação seguinte é uma paróquia de 10 000 habitantes dispersos por 4338 quilómetros quadrados, nas remotas Terras Altas da Argentina.

Não dissuadido pelas distâncias a percorrer, altitude e frequentes intempéries, o jovem padre José torna-se conhecido por percorrer toda a região montado numa mula, com um humilde «sombrero» e «poncho» (vestuário típico dos pastores da região) que lhe valeram a alcunha de «Padre Gaúcho». Viajava sempre preparado para oferecer os sacramentos, carregando um kit de missa e um livro de orações, além de um inseparável um ícone da Virgem Maria.

O Padre Gaúcho estabeleceu casas de retiros populares, promoveu a alfabetização das meninas. Lutou ainda contra o abandono administrativo da região através da promoção da abertura de mais de 200 quilómetros de estradas e a criação de uma rede de transportes públicos e a construção de uma rede de postos telegráficos.

Mas o que mais o ocupava era a saúde espiritual do seu povo. Quando já idoso lhe perguntavam porque não deixava para outro dia a visita a uma comunidade remota, respondia: «Ai se o diabo está indo à minha frente para roubar-me uma alma!...»

A morte chegou-lhe em 26 de Janeiro de 1914. Suas últimas palavras foram: «Agora tenho tudo pronto para a viagem!»

Poucos dias depois, o Jornal Católico de Córdoba relatava: «Sabe-se que o padre José contraiu a doença que o levou ao túmulo por visitar longamente e abraçar um leproso abandonado de uma sua comunidade.»

Palavras do Papa Francisco na cerimónia de canonização
«Os Santos são homens e mulheres que se entranham profundamente no mistério da oração. Homens e mulheres que lutam mediante a oração, deixando rezar e lutar neles o Espírito Santo; lutam até ao fim, com todas as suas forças; e vencem, mas não sozinhos: o Senhor vence neles e com eles. 
Também estas sete testemunhas, que hoje foram canonizadas - Salomão Leclercq, José Sanchez del Río, Manuel González García, Ludovico Pavoni, Afonso Maria Fusco, José Gabriel del Rosario Brochero, Elisabete da Santíssima Trindade -, travaram o bom combate da fé e do amor através da oração. Por isso permaneceram firmes na fé, com o coração generoso e fiel. Que Deus nos conceda também a nós, pelo exemplo e intercessão delas, ser homens e mulheres de oração; gritar a Deus dia e noite, sem nos cansarmos; deixar que o Espírito Santo reze em nós, e orar apoiando-nos mutuamente para permanecermos com os braços erguidos, até que vença a Misericórdia Divina.

São José Brochero como sinal para os dias de hoje
Nossa moderna rede de comunicações pode fazer-nos pensar como demasiadamente remotos os anos em que, tanto na América Latina como na Europa, se tornavam conhecidos sacerdotes «itinerantes» em suas montadas (em Portugal, o padre Cruz, entre outros).

Porém talvez este Santo Gaúcho tenha mais para nos oferecer que o caráter pitoresco da sua iconografia: numa Europa a braços com uma «epidemia» da indiferença - um ano depois da imagem do pequeno Alan (afogado na ilha grega de Lesbos) levantar clamores de protestos pelo acolhimento dado aos refugiados, mais de 50 000 pessoas continuam «abandonadas» nesse minúsculo pedaço de terra, sem solução política à vista.

Um olhar atento não ignorará também o isolamento em que vivem muitos dos nossos concidadãos; a pobreza escondida dos que, sem emprego e dependentes do assistencialismo do Estado e IPSS, esperam um olhar de Misericórdia que seus funcionários não sabem comunicar ou ainda no número crescente de pessoas de todos os estratos socias, que vivem sem o anúncio consistente da «novidade cristã» e morrem sem os sacramentos. Situações que também justificam bem o apelo que o Papa nos deixa à urgência de nos renovarmos como uma «Igreja em saída!». E a nos deixarmos «contagiar» por testemunhos de vida como a de São José Brochero!

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