Os três ecumenismos do Papa Francisco


O Papa Francisco é um filho do Vaticano II, também e sobretudo pela sua visão ecuménica. A sua viagem à Suécia marca uma etapa importante no caminho ecuménico da Igreja, iniciado, precisamente no concílio, há pouco mais de 50 anos. Ela caracterizou-se por três estilos de ecumenismo:

O primeiro ecumenismo é o das relações bilaterais, das comissões dos teólogos e dos prelados que discutem documentos que, depois, as Igrejas deverão aprovar ou rejeitar, ou aprovar e colocar numa gaveta. Francisco vê um papel nesse ecumenismo das comissões e dos documentos, mas sem se deixar frear por esse tipo de relação que é típico do ecumenismo do período depois do Vaticano II e que trouxe frutos importantes, especialmente no que diz respeito às relações com os luteranos, os anglicanos e os ortodoxos.

O segundo tipo de ecumenismo, do qual Francisco falou muitas vezes, é o ecumenismo do sangue, a fraternidade dos cristãos de todas as Igrejas e tradições teológicas diante das perseguições no Oriente Médio, África e Ásia.
O martírio como fonte teológica está a redefinir o ecumenismo mais do que os sistemas teológicos e eclesiásticos no Ocidente se dão conta. A questão dos refugiados que fogem das perseguições é uma questão humanitária e política, mas também inter-religiosa e ecuménica. Das discussões sobre a «hospitalidade eucarística» (dar a comunhão a cristãos que são membros de outra Igreja, não católico-romana) passou-se ao problema da hospitalidade daqueles que (incluindo muitos cristãos, católicos ou não) fogem da morte e da destruição: não é uma questão teologicamente menos relevante do que a da comunhão eucarística.

O terceiro tipo de ecumenismo é aquele sobre o qual se hesita falar na Igreja Católica, porque é o mais difícil e delicado, é o ecumenismo intracatólico entre católicos de devoções e fidelidades diversas, que o Papa Francisco insistentemente chamou ao diálogo e à rejeição do sectarismo. Francisco apelou várias vezes aos diversos movimentos católicos para coexistirem nas Igrejas locais, sem tentações de ocupar espaços ou de reivindicar direitos de primogenitura.


Francisco tece estes três ecumenismos durante o seu pontificado. Não é por acaso que as iniciativas ecuménicas do pontificado sejam particularmente desagradáveis para os antipatizantes do Papa Bergoglio, que gostariam de rejeitar todos os três ecumenismos mencionados: o ecumenismo pós-conciliar (porque, de acordo com eles, no Vaticano II, não teria acontecido nada de relevante ou de vinculante), o ecumenismo do sangue (que, segundo eles, não deve mudar em nada a postura de superioridade do catolicismo sobre as outras Igrejas e não deve levar a uma interpretação menos identitária do catolicismo) e o ecumenismo intracatólico (sendo a sua militância uma razão de ser que diz pouco sobre o que é o cristianismo).

Massimo Faggioli, em L'Huffington Post, 01-11-2016

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