É só mais um Natal?!... Entre o remorso do «Podíamos ter feito...» e a desculpa do «Fica para o ano que vem...»


O Natal já nos inundou os dias muito antes do mês de dezembro estar para nascer.
Talvez haja esperança para cada um de nós que vive à beira de viver a sério e talvez essa pressa que quer fazer acontecer o Natal antes de tempo seja um bom sinal.
Ou talvez essa precipitação que nos é imposta não traga muito boas notícias. 

É só mais um Natal. 
Desde o ano passado, mudou pouco. 
Desde o ano passado, mudámos pouco. 

O Natal está anunciado em tudo quanto é montra, mas
dentro de nós, ainda estão montadas as decorações do ano anterior.
Estão ainda penduradas as coisas que deixámos, na mesma, por fazer. 
Estão ainda, suspensas, as promessas que demos uns aos outros quando brilhavam luzes apenas fora de nós.

O problema é que o Natal vai continuar a aparecer-nos e a pedir-nos para resgatar o brilho que perdemos. 
E nós vamos continuar a fugir ao importante porque o que nos importa é que passe mais um Natal. 
Para que depois seja outra vez primavera e outra vez verão. 

Somos mesmo estranhos.
Temos pressa de tudo. O que está a acontecer nunca é aquilo que queríamos no momento. 
Esfarrapamos desculpas à lareira enquanto pensamos em tudo menos naquilo que devíamos. Mas há tenta coisa para pensar, para resolver, para ir comprar, para ir buscar. 
Como é que vai haver tempo para pensar?! 
Afinal, é só mais um Natal.

As guerras estão velhas de existir mas enquanto forem lá longe, ainda bem.
As pessoas que afastámos da nossa vida... Elas é que tiveram a culpa. 
Agora é tarde. 
É quase meia-noite e são quase horas de abrir os presentes.
Agora não se pensa nisso. 
As crianças da Síria choram do lado de dentro do ecrã e baixamos o som porque agora são horas de vestir uma roupa bonita para a ocasião.
As crianças de África vão vestir este Natal o mesmo que vestiram nos últimos cinquenta e três Natais, mas depois pensamos nisso.
Agora vamos tirar a comida do forno que estão todos a chegar.
Esperamos que o jantar passe depressa para deixar de ser Natal.
O vizinho do primeiro esquerdo não tem nada para comer... podíamos ir lá levar-lhe alguma coisa. A campainha. Estão todos aí e agora não há tempo. Vamos a casa do vizinho noutro dia. Ou talvez no próximo Natal. 
A avó está no lar e não sabe que hoje é Natal. Podíamos ter ido lá buscá-la. Fica para o ano que vem. 
Afinal, é só mais um Natal.

Marta Arrais, em iMissio, 7 de dezembro de 2016


Marta Arrais acaba de publicar um livro com as suas crónicas:

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