Brendan Hoban, padre irlandês de 68 anos, é co-fundador da Associação de Padres Católicos (ACP):
Em novembro passado, ele escreveu uma carta aberta, que pode ser lida aqui, no original inglês: «A Lost Tribe: priests at risk».
Apresentamos a carta, numa tradução de Orlando:
«Quando fui ordenado, há 43 anos, eu tinha 25 anos e o meu pároco tinha 70. Eu imaginava então que na sua idade eu teria uma situação semelhante à dele. Mas é claro que o mundo clerical seguro, protetor e confiante em que vivíamos implodiu completamente.
Naquela época um pároco podia esperar que teria coadjutores que fariam a maior parte do trabalho, se ele não pudesse ou não quisesse fazê-lo sozinho. Hoje, os padres são uma espécie em vias de extinção.
Naquela época um pároco podia esperar conforto e companhia nos anos do seu declínio. Hoje, na sua maioria, os sacerdotes vivem sozinhos.
Naquela época um pároco tinha como certo que seria respeitado e apoiado pelos seus paroquianos. Hoje, somos muitas vezes lastimados, ultrajados, insultados, tratados com desprezo, ignorados e mal tolerados.
Naquela época havia um ror de vocações; quase todas as pessoas iam à missa (e aqueles que não iam eram de qualquer forma acolhidos pelos Redentoristas por meio da missão paroquial). Quase todos participavam da coleta, até porque, se não o fizessem, seriam, como se costumava dizer, "repreendidos do altar".
Não estou elogiando o passado como um tempo sem ambiguidades. Longe de mim. Mas os tempos hoje são outros: poucas vocações, congregações que desaparecem diante dos nossos olhos, ofertas anuais em queda, moral a um nível cada vez mais baixo.
Exagero? Sim, um pouco, para dar ênfase. Mas só um pouco. A maré está descendo e só quem não está em sincronia com a realidade pode imaginar que ela esteja subindo de novo. É preciso parar de fazer esse jogo.
O problema não é que a Igreja da Irlanda não sobreviva ou não saiba adaptar-se às novas e mutáveis circunstâncias – não tenho nenhuma dúvida de que o fará. A minha pergunta é sobre uma urgência particular: como podem os últimos sacerdotes na Irlanda viver os anos conclusivos da sua vida encontrando um pouco de conforto, de estima e de afeto?
É necessário analisar os elementos que contribuem para agravar de forma injusta e perigosamente, a vida dos sacerdotes idosos e os múltiplos fatores que aumentam neles uma crescente sensação de desconforto, e às vezes de desespero.
Trabalho
O que nos espera, ao envelhecer, é ter de trabalhar mais e mais duramente. A idade da "reforma" para os sacerdotes é de 75 anos; mas muitos ainda estão em serviço com 80 anos, muitas vezes a contragosto, sob a pressão do sentido do dever ou, às vezes, do sentimento de culpa. O efeito da nossa carga de trabalho aumentada - e em constante crescimento - é que nos tornamos de facto "máquinas-dispensa-sacramentos", com o trabalho pastoral a tornar-se cada vez menos satisfatório, com pouco ou nenhum envolvimento verdadeiro com os nossos paroquianos. A diocese de Dublin e de Killala, ou seja, uma das maiores da Irlanda, e uma outra dentre as menores do país, têm uma coisa em comum: ambas têm apenas um padre diocesano com menos de 40 anos.
Complexidade
O maior trabalho é uma coisa. A complexidade é outra. Enfrentamos em nível pastoral questões que ultrapassam a nossa formação, experiência e competência. Tomemos, por exemplo, ter que fazer ministério com casais homossexuais da nossa paróquia.
Isolamento
Nós padres idosos vivemos vidas cada vez mais isoladas; uma condição exacerbada pela idade. Vivemos sozinhos. Um medo crescente e uma ansiedade crescente, que nascem do isolamento, podem marcar os últimos anos de nossas vidas e criar uma vulnerabilidade e um nervosismo que nunca tínhamos experimentado antes.
Solidão
A nossa condição de celibato comporta um certo isolamento e uma certa solidão. A solidão no sacerdócio depende de uma série de fatores: personalidade, estratégias de vida, hobbies, auto-estima, mobilidade, identidade e – obviamente – saúde; e a solidão aumenta constantemente se cada um destes fatores fica submetido a um stress crescente.
Saúde
Sacerdotes que vivem sozinhos, e ficam cada vez mais isolados, são propensos à depressão. O aumento do número de suicídios entre os padres e o crescente conjunto de provas anedóticas de depressão e de desespero são uma realidade que ignoramos por nossa conta e risco.
Insucesso e responsabilidades
Houve um tempo em que nós padres imaginávamos ter todas as respostas e ser senhores de tudo o que tutelávamos. Hoje essa carga de expectativas irreais sobre nós mesmos, como se fôssemos messias, deu lugar a uma sensação de fracasso pessoal, uma vez que a Igreja entrou em colapso sob o nosso controle.
Estima
Enquanto a velhice traz consigo a sua miríade de inconvenientes e deficiências, e enquanto começamos a contemplar, com calma e frieza, o que resta da nossa vida, algumas verdades começam a ficar mais claras. Uma delas é que, à medida que envelhecemos, cresce um sentimento quase de desespero ao percebermos quão pouco cuidado, estima ou afeição existe na nossa vida.
Uma "tribo perdida"
Destinatários de uma avalanche de críticas e de reprovação por parte da comunicação social, alvos constantes de ressentimento, muitas vezes insultados e desprezados, os últimos padres da Irlanda são uma "tribo perdida", em apuros perante o isolamento, a doença e as muitas limitações da idade avançada. Tidos como garantidos, forçados a trabalhar na idade da sua reforma, com poucos padres para tomarem o seu lugar, muitas vezes desconfiados dos seus bispos, muitos deles já perderam a esperança de receber aquele reconhecimento, consideração, apoio e, sobretudo, aquele respeito que acreditam ser-lhes devido.»

Este texto é de grande valor. É importante que este assunto seja debatido. Da mesma forma que contradições à fé professada como abusos sexuais ou morais, este assunto também importa porque padres são seres humanos e essenciais para a vida da Igreja. Sem padres não há sacramentos. Então, ou a Igreja debate de frente esse tema, pedindo ao Espírito Santo luzes para se encontrar soluções, ou a Igreja se auto-implodirá. Porém, como a Igreja é indestrutível, apesar de não se auto-implodir completamente, sofrerá duros golpes com o decréscimo do número de padres. Eu creio que o Espírito Santo não deixará de vir em socorro da Igreja. Acho que Deus de todo mal pode extrair um bem maior, e assim será. Uma solução é que os padres morem juntos e não sós, além da criação de associações e grupos de oração de padres.
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