O Papa Francisco no discurso à Cúria Romana por ocasião da troca de
saudações natalicias, em 2014, falou das ‘doenças da Cúria’ (ver discurso na íntegra: http://w2.vatican.va); em 2015, abordou as virtudes necessárias aos membros da Cúria (ver discurso na íntegra: http://w2.vatican.va). Em 2016, após o diagnóstico
chegam as prescrições médicas, ou seja, os critérios que nortearam a reforma da
Cúria, começada há mais de três anos (ver discurso na íntegra: http://w2.vatican.va).
Andrea Tornielli, em www.lastampa.it, 22 de dezembro de 2016
Deus escolheu nascer pequeno
No início do seu discurso, Bergoglio lembra o sentido
do Natal, nas palavras de São Macário, monge do século IV: "O Deus infinito,
inacessível e não criado, pela sua bondade imensa e inefável, tomou um corpo e
eu diria que se diminuiu infinitamente da sua glória". O Natal, então,
"é a festa da humildade amorosa de Deus, do Deus que inverte a ordem do
lógico óbvio, a ordem do devido, do dialético e do matemático. Nesta inversão
está toda a riqueza da lógica divina que rompe os limites da nossa lógica
humana". Citando Romano Guardini e Paulo VI, o Papa disse que "na
realidade, Deus escolheu nascer pequeno, porque quis ser amado. Eis como a
lógica do Natal é a inversão da lógica mundana, da lógica do poder, da lógica
do mando, da lógica farisaica e da lógica causalista ou determinista "
O sentido da reforma
A reforma, explica o papa, significa tornar a Cúria
‘con-forme’ ao anúncio do Evangelho e aos "sinais do nosso tempo", e
ao mesmo tempo mais ‘con-forme’ ao seu fim, que é o de colaborar «com o
ministério próprio" do Pontífice e portanto apoiá-lo "no exercício do
seu poder singular, ordinário, pleno, supremo, imediato e universal". Um
trecho do discurso acompanhado por abundantes notas e citações de rodapé, nas
quais se lembra o que foi afirmado pelo Concílio, isto é, que
"a Cúria é um organismo de ajuda ao Papa" e que o serviço dos
organismos curiais " é sempre feito" em nome e sob a autoridade do
Papa. Em seguida, é citado Paulo VI, que enfatizava a relação
"essencial" da Cúria com o ' exercício da atividade apostólica do
Papa", que é a sua razão de ser. Conceitos reiterados por João Paulo II,
que escreveu que a Cúria "vive e opera na medida em que está em relação
com o ministério petrino e nele se baseia". Ênfases
evidentemente não aleatórias.
A reforma não é um ‘lifting’
Francisco reitera em seguida que a reforma é um
processo de crescimento e sobretudo de conversão. Não tem "um fim
estético," não é um ‘lifting’ ou uma maquilagem "para embelezar o
idoso corpo curial", e nem mesmo uma cirurgia plástica para remover rugas,
porque "não são as rugas que se devem temer na Igreja, mas as manchas".
O Papa explica que "a reforma será eficaz só e
unicamente se for realizada por homens ‘renovados’ e não simplesmente homens
‘novos’. É necessário portanto "levar os membros da Cúria a renovar-se
espiritualmente, humanamente e profissionalmente". Não basta mudar as
pessoas, é necessária "a conversão das pessoas", "não basta uma
‘formação permanente, é necessária também e sobretudo uma conversão e uma
purificação permanente". Porque sem uma "mudança de mentalidade o
esforço funcional seria em vão".
Dificuldades normais e resistências malévolas
Nesse caminho, explica Francisco, "é normal, e
até saudável, encontrar dificuldades» e resistências. Umas que são
"abertas, que nascem muitas vezes da boa vontade e do diálogo
sincero", outras "escondidas, que nascem" nos corações
"amedrontados ou empedernidos que se alimentam das palavras vazias do
‘gatopardismo’ espiritual; de quem com palavras se declara pronto para a
mudança mas quer tudo continue como antes". Mas existem também as
"resistências malévolas, que germinam em mentes distorcidas e ocorrem
quando o diabo inspira más intenções (muitas vezes disfarçadas como cordeiros),
embora o Papa tenha lido "anjos". "Este último tipo de
resistência – continua – esconde-se atrás de palavras justificadoras e, em
muitos casos, acusadoras, refugiando-se nas tradições, nas aparências, nas
formalidades". Mas o Papa também salienta que "a ausência de reação é
sinal de morte!" e que portanto todas as resistências são necessárias
"e merecem ser ouvidas, acolhidas e encorajadas a se expressar". A
reforma é um processo que "deve ser vivido com fidelidade ao essencial,
com contínuo discernimento, com coragem evangélica", com
escuta, ação, silêncio, com "decisões firmes", com muita oração e
humildade, "com passos concretos para diante – e quando necessário –
também com passos para trás"(uma referência, esta, às correções durante o
processo de algumas decisões tomadas), com "autoridade responsável, com
obediência incondicional", mas principalmente abandonando-se "à
condução segura do Espírito Santo" .
Os critérios
Francisco, em seguida, elenca os doze critérios da
reforma. Individualidade, isto é, "conversão pessoal",
sem a qual "serão inúteis todas as mudanças nas estruturas". Pastoralidade,
de modo que "ninguém se sinta negligenciado ou maltratado". Uma
"espiritualidade de serviço e de comunhão" é o antídoto "contra
todos os venenos da ambição vã e da rivalidade ilusória". Missionariedade,
isto é, "Cristocentrismo", porque "sem vida nova e autêntico
espírito evangélico", qualquer nova estrutura "se corrompe em pouco
tempo". Racionalidade, para "evidenciar que cada
Dicastério tem competências próprias" que "devem ser respeitadas mas
também distribuídas" com "eficácia e eficiência". Funcionalidade:
As incorporações servem para dar aos novos dicastérios "uma maior
relevância (mesmo externa)" e para ter "uma maior
funcionalidade", com revisão contínua "dos papéis, das competências e
das responsabilidades do pessoal". Modernidade, isto é,
"aggiornamento", a "capacidade de ler e escutar os ‘sinais dos
tempos’". Sobriedade, para racionalizar e simplificar,
"para um testemunho correto e autêntico". Subsidiariedade,
com a reorganização ou a transferência de algumas competências "para
alcançar a autonomia".
Leigos e mulheres
Francisco indica a importância do "respeito pelos
princípios da subsidiariedade e da racionalização na relação com a Secretaria
de Estado" para que ela "seja a ajuda direta e imediata do Papa. Isto
também para uma melhor coordenação dos diferentes setores dos Dicastérios e dos
Órgãos da Cúria". Sinodalidade, que deve tornar-se mais
habitual no trabalho da Cúria, seja com reuniões dos chefes dos Dicastérios, na
presença do Papa, seja dentro dos vários Dicastérios, "dando especial
relevância ao Congresso e maior frequência ao menos à sessão ordinária". Catolicidade,
ou seja, "admissão de pessoal proveniente do mundo todo, de diáconos
permanentes e de fiéis leigos", cuja escolha "deve ser feita
cuidadosamente com base na sua vida espiritual e moral exemplar e na sua
competência profissional". É oportuno "prever o acesso de um maior
número de fiéis leigos". De "grande importância" também "a
valorização do papel da mulher e dos leigos na vida da Igreja e a sua
integração nos papéis-chave dos dicastérios". Profissionalismo,
isto é, "a formação permanente do pessoal". Por outro lado, explica
Francisco, "é indispensável o arquivamento definitivo da prática do promoveatur
ut amoveatur", isto é, da promoção de quem se quer tirar de um cargo,
[prática] definida, com um acréscimo de improviso, como "um câncer".
Por último, gradualidade, isto é, discernimento, que requer
"verificação, correções, testes, experimentação, aprovações ad
experimentum. Por conseguinte, nestes casos, não se trata de indecisão mas
da flexibilidade necessária para poder alcançar uma verdadeira reforma".
A lista dos passos concluídos
Segue-se depois o elenco cuidadoso do que foi
realizado até agora: o Conselho dos Cardeais (C9); as comissões referentes
sobre o IOR e sobre a organização da estrutura económico- administrativa; a
nova jurisdição dos órgãos judiciários do Vaticano em matéria penal; o Comitê
de Segurança Financeira; a consolidação da AIF [Autoridade de Informação
Financeira]; a instituição da Secretaria e do Conselho para a Economia e do
Revisor Geral; a criação da Comissão para a Proteção dos Menores; a
transferência da seção ordinária da APSA [Administração do Patrimônio da Sé
Apostólica] para a Secretaria da Economia; os estatutos dos novos organismos
econômicos; a criação da Secretaria de Comunicações e o seu estatuto; a reforma
do processo canônico para as causas de nulidade do matrimônio; a legislação
para prevenir negligências dos bispos nos casos de abuso sexual de menores pelo
clero; a criação dos novos Dicastérios – para os leigos, a família e a vida, e
para o serviço do desenvolvimento humano integral; o Estatuto da Academia para
a vida.
As palavras do monge
O Papa concluiu voltando ao tema do Natal, com as
palavras de um monge contemporâneo recentemente falecido, Matta el Meskin, que
dirigindo-se ao Menino de Belém disse: "Dá-nos a graça de não nos acharmos
grandes nas nossas experiências. Dá-nos, em vez disso, a graça de nos tornarmos
pequenos como tu a fim de que possamos ficar perto de ti e receber de ti
humildade e mansidão em abundância ... O mundo está cansado e esgotado porque
compete para ver quem é o maior".

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